08 outubro 2005

Talentos reais, misérias presidenciais

Ainda a propósito das misérrimas comemorações do 5 de Outubro, gostaria de recordar-vos que um dos principais atributos para que um Chefe de Estado seja considerado apto para o exercício do cargo, consistirá sem dúvida no reconhecimento de algum talento. Os herdeiros do Buíça e do Costa, quando comparados com a sua vítima D. Carlos I, fazem rir qualquer mortal. Senão, comparemos:
- na frente diplomática, Carlos I como rei da terceira potência colonial, conseguiu remediar os dislates e inconsciências de uma política externa gizada ao sabor das histerias acicatadas pelos republicanos que tão funestas foram para os interesses do país. Aquela a quem o PRP chamava a "pérfida e bêbada" Inglaterra", viu depois de 1910 os seus antigos inimigos chegar a Londres para vergonhosamente se espolinharem aos pés do Foreign Office, esperando o reconhecimento do seu governo de terroristas e demagogos. As sucessivas visitas de chefes de estado estrangeiros eram acontecimentos que poderiam ser considerados exagerados para o peso relativo de Portugal na alta política internacional. Para um melhor aprofundamento do tema, não deixem de consultar a abundante correspondência do rei com os seus homólogos europeus, assim como com os seus sucessivos presidentes do conselho de ministros. São elucidativas do precioso papel desempenhado na consolidação da nossa presença em África e na Ásia. Sem Carlos I, os PALOPS simplesmente não existiriam hoje. A largueza da sua visão, ainda hoje perfeitamente válida para um país que ocupa um espaço no âmbito euro-atlântico, pode resumir-se à frase que fazia questão de repetir a todos os primeiros-ministros na tomada de posse ..."não te esqueças que podemos estar mal com todo o mundo, menos com o Brasil e a Inglaterra"... A Inglaterra alarga-se hoje aos EUA e o Brasil à CPLP.
- como artista, leiam o que Fialho escreveu a propósito de Carlos I em Os Gatos. O inimigo político republicano "desde os bancos da escola" como então se dizia, considerava o rei como dos poucos artistas nacionais em sintonia com o seu tempo.
- como cientista, não podemos deixar de recordar como a sua obra como oceanógrafo serviu os pescadores portugueses no conhecimento da nossa costa, méritos sobejamente reconhecidos no estrangeiro. Em Portugal, somente os pescadores, os principais interessados, lhe reconheceram o valor, a par de alguns cientistas. Carlos I era recebido nas academias estrangeiras não como um qualquer honoris causa, mas como um membro de pleno direito.
- o seu projecto de regeneração da vida política interna custou-lhe a vida. O nosso patriotismo não nos impede de reconhecer que um dos maiores defeitos dos portugueses é o facilitismo eivado de messianismos estéreis e esperanças no alvorecer de um prometido totoloto. O que teria acontecido se ao invés de um torrencial palavreado demagógico, bacoco e de barroquismos estilísticos sem conteúdo, o progressismo tivesse enveredado pelo apoio a um projecto trabalhista que aliás despontava vigorosamente na Inglaterra, Bélgica, Alemanha ou Suécia? O partido republicano surgiu como um autêntico buraco negro sugador de energias que poderiam ter servido para o real desenvolvimento do país e consolidação das instituições que na verdade melhor nos serviam. O resultado viu-se. Ainda hoje o sangue derramado no Terreiro do Paço no 1º de Fevereiro de 1908 nos pinga sobre os ombros, gota a gota. Tivemos um miserável século XX e o que agora começa nada de bom promete.
Que talentos ocultos possuirão Soares, Cavaco, Sampaio, etc? A par de inegáveis habilidades para bons negócios , não consta que saibam desenhar, pintar, esculpir. Não estudam nem pesquisam. São sofríveis escrevinhadores de colunas por encomenda. É pouco, não chega e deveriam justificar melhor a existência de dezenas de assessores que custam ao Estado quase 3 milhões de contos por ano. E se pesquisarmos bem, talvez encontremos um grande saco azul oculto por fundações. Enfim, o costume...

06 outubro 2005

Estamos em 1788: vem aí revolução

Tudo indica estarmos a viver a 25ª hora do regime. Há no ar fumos revoltos e a percepção clara que indica o inevitável desfecho. Demissões em massa, dramas judiciários, crescente insegurança nas ruas e nos espíritos, crise económica prolongada e pré-falência do Estado e suas instituições de defesa, novas formulações políticas anti-sistema em gestação, apelos patéticos de altos magistrados, greves de zelo e a sempre esperada fuga das penas que mantinham a comunicação de ideias entre o Estado e o povo. Dir-se-ia vivermos em 1788 ! O que virá a seguir ? Uma "operação mãos limpas" ou uma revolução ? Os meses que se seguem dir-nos-ão.

05 outubro 2005

Amigos de Olivença

Fartei-me de rir. A Praça do Municipio vazia, como é hábito, para celebrar a infausta data em que um partido marginal, com menos de 6%, se apossou do poder pelas armas. Os únicos presentes com coragem e garbo cívico: os Amigos de Olivença. Hoje fomos todos oliventinos e irredentistas !
NB: Do Exmº Senhor Presidente do Grupo dos Amigos de Olivença recebi a seguinte comunicação, que transcrevo na íntegra, com agradecimento pela correcção.
"No seu blogue, comenta, muito a propósito, a comemoração (?) republicana que teve lugar ali para os lados da Pr. do Município.De facto, lá estava uma faixa «Olivença é terra portuguesa», todavia não da iniciativa do GAO que não comemora a data da implantação do actual regime(nem se entende que tenha, enquanto instituição com um «programa» preciso,qual é o da retrocessão de Olivença, legitimidade ou interesse em fazê-lo).O GAO, cingindo-se aos seus propósitos, não toma posição na disputa monarquia/república, sendo certo que nele se incorporam portugueses de ambos os campos (e onde, digo-lho, julgamos contar também, ao menos em espírito, com o Miguel Castelo-Branco...).De todo o modo, a «presença» na Pr. do Munícipio - iniciativa pessoal de«amigos da causa» -, visou, ao que sei, aproveitar («oportunisticamente»?) apresença dos media e, por aí, suscitar alguma divulgação. Equívoco?Com felicitações para o seu blogue - a ler -, os meus melhores cumprimentos,
António Marques (Presidente do GAO)

04 outubro 2005

A odiosa datazeca, de novo


Amanhã é 5 de Outubro. Comemora-se o revolverismo de que falava Homem Cristo (Pai); celebra-se a Carbonária e seus dinamitistas; evocam-se os bravos regicidas de 1908, mais os matadores de polícias, mais as prisões particulares em que, de 1911 a 1915, milhares de monárquicos e católicos estiveram detidos sem mandado, sem acusação e sem julgamento; exulta-se pela carnificina do 14 de Maio de 1915, pelos assaltos das populações esfomeadas às padarias e mercearias e pela entrada, aos empurrões, de Portugal na Grande Guerra.
Amanhã é dia de festividades. Festeja-se as tonsuras e medições frenológicas aos jesuítas e outros regulares; festeja-se a nomeação política dos magistrados judiciais pelo democratíssimo governo de Afonso Costa; festeja-se o encurtamento do universo eleitoral, o saque e queima de redacções de jornais e revistas da oposição, os pronunciamentos militares e o terrorismo da Legião Vermelha, bem como a camioneta da morte da Noite Sangrenta de 21 de Outubro de 1921. E, em maré de comemorativismos, porque não celebrar, também, o corte definitivo da sociedade portuguesa com a Europa civilizada e cosmopolita, a ditadura dos professores primários, o triunfo de um republicanismo quase boçal, eriçado de superstições positivistas, os milhares de emigrados, as manifestações europeias pedindo a intervenção das potências num país que era comparado ao insolvente México de Pancho Vila, a bancarrota por duas vezes declarada, o regresso do presidente António José de Almeida do Brasil a bordo de um cargueiro britânico, dado o paquete português que o havia levado ao Novo Mundo haver sido confiscado ao Estado português por incumprimento do pagamento de dívidas ?
A república é, verdadeiramente, uma caixa de surpresas. Percorremos a galeria das criaturinhas e espanta-nos que tenha sobrevivido por 95 anos.

03 outubro 2005

Instituições portuguesas (IV): o café


Porta-sim, porta-não há um café. O café português é amiúde desconfortável, com paredes forradas a azulejos de casa de banho, instalações sanitárias ridiculamente pequenas e sórdidas, mobiliário de chapa e um chão ladrilhado para onde os clientes atiram beatas e papéis. É nestes cubículos carregados pelo tabaco, pelo vozerio e pela poluíção sonora debitada por um televisor que os portugueses passam grande parte do seu tempo, ora sentados em cadeiras sebosas de sumapau, ora de pé, reclinados com os cotovelos sobre bancadas apinhadas de copos vazios de cerveja, dando largas à sua inesgotável propensão para a intriga e o diz-se diz-se. Ali se organizam os "grupos" de amigos e cúmplices, namora-se, preparam-se casamentos, arranja-se empregos, criam-se revistas e grupos políticos, se fazem e desfazem reputações. Só encontro paralelo desta instituição em Marrocos ou na Turquia.
A causa remota destes locais terá sido a penúria dos tempos passados, quando a generalidade dos nossos conterrâneos, vivendo em quartos de aluguer, precisava de uma sala de estar pública. Muito pouco vocacionados para franquear as portas de suas casas aos "amigos" - a generalidade dos "amigos" não sobrevive a três ou quatro anos - procuram nos cafés a fuga à solidão e à desocupação mental que é, como sabemos, um verdadeiro drama nacional. Não deixa de ser curioso o facto das conversetas reproduzirem o tom geral do país: politiquice, futebol e costumes. Convido o caro leitor a sentar-se num destes locais e prestar atenção aos comentários e farrapos de conversa que se vão produzindo no seu entorno. "Ele anda com a a fulana, que era casada com sicrano e teve uma filha de beltrana"; "diz-se que esse tipo fez um desfalque no banco em que trabalhou"; "o Mário Soares tem uma data de apartamentos em Paris"; "este país não tem futuro, é uma terra de ingratos e ladrões"; "aquilo é que é um atrasado mental" e outras pedras edificantes.
Cafés não é comigo. Mais que uma perda de tempo, são uma verdadeira escola de preguiça e verrina. Há quem tenha destes locais uma imagem romântica ou busque pergaminhos nobilitadores, invocando as tertúlias literárias de antanho. Engana-se, pois mesmo esses locais de peregrinação de "homens de letras" eram verdadeiros serpentários de intriga.