30 setembro 2005

Quando os amigos morrem


Partiu sem um queixume. Vi-a há dias, ainda bela e sorridente, no leito terminal. A morte de uma amiga deixa-nos abalados. Como pediam os Gregos, deve-se morrer jovem e coberto de flores, mas não sei fazer exercícios de estilo sobre sentimentos, muito menos sobre a maldita Parca que teima em roubar aqueles que merecem a felicidade. Retenho a sua voz macia e aqueles olhos luminosos que o espectro não soube vencer. "Até logo, Miguel".
Não sei se existe eternidade, mas sei que a vida existe como as mãos de onde se projectam cinco dedos, um dos quais dá pelo nome de Morte. Vivemos enterrados em banalidade, cultivamos ódios e paixões que nada merecem. Esquecemo-nos que essa porta derradeira está lá e que se abrirá inopinadamente sem lhe batermos. Já por duas vezes vi-a de frente. É repelente e nauseabunda. Alimentá-la é encher-lhe o Ego. Viver e sorrir enlouquece-a.

29 setembro 2005

Instituições portuguesas (III): o morceguismo


As ruas estão, uma vez mais, cheias de morcegos. São os futuros "dótores", com as suas capas repletas de apaixonantes registos de viagens cosmopolitas - a Braga, a Viana, a Peniche, a Alhos Vedros, ao Sardoal e Alcochete - e as "tumbas" académicas, com os saltitões e orquestras de ferrinhos e pandeiretas. A tradição académica desponta nas universidades-cogumelo e tenta emular Cambridge, Oxford, Heidelberga e Pádua. Dei aulas numa destas colmeias de diplomas poligrupo onde se constituíu uma "Associação do Antigos Alunos" da dita cuja... no ano da homologação da instituição. Vejo-os, com os seus trajos pretos que fariam inveja à Agência Fragoso, compenetrados de quem está a cumprir a pragmática medieval. Porém, pela experiência que fui recolhendo ao longo de quase vinte anos de docência, apercebi-me que os piores alunos, os mais cábulas, os mais ausentes, os menos letrados, são precisamente aqueles que maior importância dâo ao morceguismo. O Dr. Adler encontraria certamente explicação para tal compensação.

28 setembro 2005

Instituições portuguesas (II): "meias de descanso"


Outro atavio insólito: as "meias de descanso". A rua está cheia delas, em cor tom de carne, enfiadas em chanatas ou naqueles sapatões cota-de-malha supostamente ortopédicos que transformam qualquer pé num mocotó porcino. Está ainda por inventar a "meia de descanso integral", tipo casulo, que cubra integralmente o corpo, dos pés ao bócio.

Instituições portuguesas (I): the portuguese "BATA"


Estranho adereço este: é horroroso, de nada serve, mas cobre 50% das mulheres portuguesas. É um verdadeiro flagelo estético, com padrões floridos e uma policromia que nem a rainha da pérfida Albion ousaria desencantar. Um repelente masculino natural e um reforço para todas as teses caras às "Mães de Bragança". Por outras palavras, é um acicate às alternadeiras.
Já vários estrangeiros me questionaram sobre a insistência de tão insólito atavio doméstico. Não consegui nenhuma resposta etnológica à altura. Um mistério ! Há, porém, um antecedente histórico que desencantei numas memórias - intriguistas e devassadoras - da corte portuguesa. Dizia-se que Carlota Joaquina vestia permanentemente uma bata surrada trazida do Brasil. Será a bata - como o Fado - uma espécie de lundum virado chita ?

27 setembro 2005

Os grandes títulos em português do século XX


Dois alunos de mestrado em Estudos Coloniais e Pós-Coloniais solicitaram-me uma listagem de títulos e autores que terão marcado profundamente a nossa identidade colectiva ao longo do século passado. Aceitei o desafio e apresentei-lhes a seguinte relação, precedida por algumas explicações. Com tal exercício pretendi demonstrar que a cultura não é permanente. Varia nos modos e modas. Nada é eterno, tudo é transitório, como nós.
***

A escolha do vasto reportório bibliográfico produzido em português ao longo de um século prenhe de acontecimentos culturais e políticos apresenta-se-nos como um difícil desafio. Esta curta relação de obras, uma proposta subjectivíssima e certamente marcada pelos gostos e conhecimento de quem a produz - logo sujeita a muitas propostas correctoras - procurou atender a dois requisitos elementares: o da influência imediata que umas tiveram sobre o momento histórico que as viu nascer, e as repercussões duradouras que outras tiveram na evolução subsequente das culturas lusófonas. A escolha de autores menores, já esquecidos ou apenas glosados pelos eruditos, não pode ser recusada, pois, mesmo que efémeros na sua glória, exerceram grande influência sobre as respectivas gerações. Também foi nosso intuito destacar a incontornável irradiação que as revistas ou iniciativas editoriais periódicas tiveram na formação do gosto e consciência das sociedades lusófonas. Por último, importa assinalar a tardia consagração de alguns dos autores recenseados. Desconhecidos em vida, exaltados após o seu falecimento, deles só ficou, no tempo em que viveram, a pálida amostra que os seus contemporâneos - os editores como os poderes constituídos - lhes permitiram. Neste particular, avulta Fernando Pessoa, que em vida só publicou a Mensagem, quiçá uma das suas obras menos importantes, mas mesmo assim a única que deixou entrevêr as enormes potencialidades do poeta.

Abreviaturas:
A: Arquitectura
An: Antropologia
D: Direito
E: Ensaio
F: Filosofia
H: Historiografia
J : Jornalismo
L: Literatura
M: Matemática
P: Política
Ps: Psicologia
S: Sociologia

O Passado e o Presente (1900)
1) Eugénio de Castro. Constança (1900) Pt. L
2) Euclides da Cunha. Os Sertões (1902) Br. H
3) Manuel Laranjeira. A doença da santidade (1904) Pt. Ps
4) Manuel Teixeira Gomes. Sabina Freire (1905) Pt. L
5) Costa Lobo. Origens do Sebastianismo (1906) Pt. H
6) Basílio Teles. As Ditaduras (1907) Pt. P
7) Manuel de Arriaga. Harmonias Sociais (1907) Pt. S
8) Pulido Valente. Introdução ao Estudo da Histeria (1909) Pt. P

Identidade e Criação (1910)
1) Júlio de Matos. Elementos de Psiquiatria (1911) Pt. Ps
2) Egas Moniz. A vida sexual (1913) Pt. Ps
3) José Leite de Vasconcellos. Religiões da Lusitânia (1913) Pt. H
4) Teixeira de Pascoaes. A Arte de Ser Português (1915) Pt. E
5) Leonardo Coimbra. O Pensamento Criacionista (1914) Pt. F
6) António Sardinha. O Valor da Raça (1915) Pt. P
7) Orpheu (1915) Pt. L
8) Ramalho Ortigão. Últimas Farpas (1917) Pt. L
9) Raul Lino. A Nossa Casa (1918) Pt. A
10) Camilo Pessanha. Clepssidra (1920) Macau L
11) Afonso Costa. Discursos (191-) P

O Mundo e a Província (1920)
1) Aquilino Ribeiro. Estrada de Santiago (1922) Pt. L
2) Florbela Espanca. Livro de Soror Saudade (1923) Pt. L
3) Seara Nova (1923) Pt. P/F/E
4) António Sérgio. Bosquejo da História de Portugal (1923) Pt. H
5) Sousa Viterbo. Combates Sem Sangue Pela Língua Portuguesa (1925) Pt. E
6) Presença (1927-40) Pt. L
7) Venceslau de Morais. O Relance da Alma Japonesa (1928) Pt. An
8) Reinaldo Ferreira. Repórter X (192-) Pt. J
9) Graça Aranha. Viagem Maravilhosa (1929) Br. L

Poder e Intimidade (1930)
1) Gilberto Freyre. Casa Grande e Senzala (1931) Br. S
2) António Ferro. Salazar e a Sua Obra (1933) Pt. J
3) Fernando Pessoa. A Mensagem (1934) Pt. L
4) Reinaldo Ferreira. Memórias de um ex-morfinómano (1934) Pt. J
5) Irene Lisboa. Diário de uma Mulher (1936) Pt. L
6) Marcello Caetano. Manual de Direito Administrativo (1937) Pt. D
7) Bento de Jesus Caraça. Cálculo Vectorial (1937) Pt. M
8) Jorge Amado. Capitães da Areia (1938) Br. L
9) Miguel Torga. Ansiedade (1938) Pt. L
10) Salazar. Discursos e Notas Políticas (1935, 1967) Pt. P
11) Delfim Santos. Da Filosofia (1939) Pt. F

Tempestade ao largo (1940)
1) Carlos Drummond de Andrade. Sentimento do Mundo (1940) Br. L
2) Ruy Cinatti. Nós Não Somos Deste Mundo (1941) Pt. L
3) Manuel da Fonseca. Planície (1941) Pt. L
4) Jorge de Senna. Perseguição (1942) Pt. L
5) Vergílio Ferreira. O Caminho Fica Longe (1943) Pt. L
6) Fernando Namora. Fogo na Noite Escura (1943) Pt. L
7) Vitorino Nemésio. Mau Tempo no Canal (1944) Pt. L
8) Carlos de Oliveira. Descida aos Infernos (1948) Pt. L
9) Eugénio de Andrade. As Mãos e os Frutos (1948) Pt. L
10) Clarice Lispector. A Cidade Sitiada (1949) Br. L
11) António Manuel Couto Viana. Avestruz Lírico (1949) Pt. L
12) Edições Cosmos
13) Vértice (1943)

Olhar Reflexo (1950)
1) Jorge Dias. Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa (1950) Pt. Na
2) Távola Redonda (1950) Pt. L
3) António José Saraiva. História da Cultura Portuguesa (1950-60) Pt. H
4) Irene Lisboa. Uma Mão Cheia de Nada (1953) Pt. L
5) Fernando Lopes Graça. A Canção Popular Portuguesa (1953) Pt. E
6) Vinicius de Morais. Orfeu da Conceição (1953) Br. L
7) Agustina Bessa Luís. Síbila (1954) Pt. L
8) Graciliano Ramos. Memórias do Cárcere (1954) Br. L
9) Ferreira de Castro. A Missão (1954) Pt. L
10) Herberto Hélder. O Amor em Visita (1958) Pt. L
11) Bernardo Santareno. O Crime da Aldeia Velha (1959) Pt. L

Contra-corrente (1960)
1) José Rodrigues Miguéis. A Escola do Paraíso (1960) Pt. L
2) José Marinho. Teoria do ser e da verdade (1961) Pt. F
3) Natália Correia. Cântico do País Submerso (1961) Pt. L
4) David Mourão Ferreira. Motim Literário (1962) Pt. L
5) José Cardoso Pires. Hóspede de Job (1963) Pt. L
6) José Craveirinha. Cântico a um Dia Catrane (1964) Moç. L


Revolução (1970)
1) Rui Belo. País Possível (1973) Pt. L
2) António de Spínola. Portugal e o Futuro (1973) Pt. P
3) Sophia de Mello Breyner Andresen. O Nome das Coisas (1977) Pt. L
4) Eduardo Lourenço. O Labirinto da Saudade (1978) Pt. E
5) José Gomes Ferreira. Poeta Militante (1977) Pt. L
6) Lídia Jorge. O Dia dos Prodígios (1978) Pt. L
7) Manuel Antunes. Repensar Portugal (1979) Pt. E
8) Augusto Abelaira. Sem Tecto Entre Ruínas (1979) Pt. L

A Memória apaziguada (1980)
1) Pepetela. Mayombe (1980) Ang. L
2) Saramago. Memorial do Convento (1982) Pt. L
3) Fernando Gil. Mimésis e Negação (1984) Pt. F
4) Jacinto Prado Coelho. Camões e Pessoa, Poetas da Utopia (1984) Pt. E

26 setembro 2005

Europa crua, Europa cozida e Europa negra

A unidade da Europa é uma ficção ideológica, piedosa ou cínica conforme o maior ou menor amor e interesse que a questão desperte. Na Antiguidade, a Europa era "civilizada" ou bárbara; depois, mais ou menos entre os sécs IX e X, ou seja, entre Carlos Magno e os Otões, ou era cristã ou pagã. No decurso dos séculos XVI e XVII - o tempo da preiamar dos fanatismos religiosos - dividiu-se entre Europa de Roma e Europa dos príncipes rebeldes. Até ao fim da era napoleónica, o continente dividia-se em Europa das coroas dinásticas e Europa usurpadora. No século XIX, passou a estabelecer-se a fractura entre regiões agrárias e regiões industrializadas. Hoje, esgotado o nacionalismo do Estado-nacional tal como o entendeu o liberalismo, fala-se na Europa da maior ou menor consistência democrática.
Os velhos chineses do ano 1000 - da dinastia Sung - tinham o mesmo problema em relação ao seu vasto império. A ideia de unidade era duplamente político-jurídica e ontológico-cultural, ou seja, não havia império senão o chinês, e não podia haver um homem completo fora das fronteiras do Celeste Império. Tudo o que estava à margem do País do Meio era remetido para a condição de selvagem. As coisas, porém, não eram tão lineares, pois dentro do limes do império subsistiam diversidades e disparidades evidentes que punham em causa a ideia de "um povo chinês". Para resolver o imbroglio, resolveram os tratadistas confucianos entender diversos estádios de completude da população submetida ao mandatado do Céu (o Imperador). assim, dividiram os "chineses" - outra ficção antropológica - em chineses crús, chineses cozidos e chineses negros. Os crús seriam os recentemente sinizados, os cozidos os plenamente integrados. Quanto aos "negros", seriam os selvagens aos quais teria sido dada o especial privilégio de poderem vir a ascender a chineses.
Parece-me muito feliz esta categorização. Hoje, na Europa, parece haver países cozidos, países crús e países negros. Onde estamos nós ? É a pergunta que coloco.

25 setembro 2005

Champanhe e ilusões


Jantar na embaixada de um país candidato à UE. Os diplomatas pertencentes ao clube - dos países que dão e dos países que só recebem - discreteiam sobre o preço do petróleo, o paradeiro de Bin Laden, a concorrência chinesa, a emergência indiana e as eleições alemãs. Os diplomatas dos Estados candidatos à "Europa" - como se eles não fossem, também, europeus - falam da União como dum país da Cocanha, onde rios de mel, árvores de ouro e frutos de pedraria prodigalizam uma vida sem trabalho, antecâmara do paraíso. Os cavalheiros reunem-se à parte para fumar e continuar as já alcoolizadas conversetas. Fico com uma matrona eslava, senhora de um francês perfeito. Inteligente, culta, afável, percorre com grande àvontade temas da história portuguesa. De súbito, como um estalo, diz-me: monsieur, Il ya une question que je voudrais Vous poser. J'ai vécu en Angola pendant quelques mois et je me demande pourquoi vous, les portugais, ont donné l’indépendence a ce pays?"
Não sabendo o que responder, olhei para o meu copo procurando uma saída "diplomática" para a questão. Atalhou de imediato: "ah, je savais, vous les portugais etez comme nous, les russes. On ne donne j'amais l'independénce. Quand je parle de touts ces pays qui bordent la Fédération Russe je ne pense que à tout l'effort de Pierre le Grand, Catherine et même Staline ont depensé pour élargir et faire grand mon pays. Pour rien...". Mas, perguntei-me. Esta fulana é russa ? Perguntei-lhe e disse-me que não. À resposta acrescentou uma enormidade: "je suis comme une angolaine qui voudriait être portugaise". O mundo é realmente uma caixa de surpresas. Da última que tinha ouvido semelhante foi em Goa, quando o cicerone de um monumento me disse: "quando nós os Portugueses aqui chegámos".