23 setembro 2005

Rey Planeta




Filipe IV de Espanha - III de Portugal - que todos conhecemos da Crónica del rey pasmado, de Gonzalo Torrente Ballester e das obras de Velazquez, está a merecer grandes comemorações pela passagem do 4º centenário do nascimento deste que foi o penúltimo monarca dos Austrias de Espanha. Os espanhóis percebem de marketing político e cultural, pelo que não perdem ocasião para dar destaque aos grandes fastos da sua história, sobretudo aquela que teve influência mundial. Depois de Carlos V, agora Filipe IV, o protector do Conde Duque de Olivares e, parece-nos, o verdadeiro estratega da criação de um estado ibérico. Temos por hábito, herdado da historiografia oitocentista, encontrar um "grande político" por trás de um "grande rei"; como quem diz: "os grandes monarcas nada teriam sido se não tivessem nascido com a herança régia". Aplicamos o mesmo ao nosso D. José. Ora, hoje é-nos lícito colocar em questão a verdadeira dimensão do Marquês de Pombal e do seu protector. Chegará certamente o momento em que se caracterizará o josefismo como a consolidação do Estado Moderno em Portugal, tendo por mero executor desta dura tarefa Sebastião José de Carvalho e Melo. Voltemos a Filipe IV. O homem não era certamente nem um imbecil nem um desocupado. Apoiou até não poder a permanência do seu valido Olivares nas rédeas do executivo e só quando a política de guerra generalizada passou a por em risco o trono é que o deixou cair. Estranho que Olivares tivesse saído como entrou, sem um queixume, sem acertos de contas.

22 setembro 2005

Felonia e jacquerie

Os partidos devem andar em polvorosa. Depois de Isaltino, de Ferreira Torres e de Valentim chegou dos Brasis, triunfante e aplaudida, a inefável Fátima. Triunfaram a rebelião, a secessão e o carisma destes condutores de homens e populações. Sei que alguns destes poderão não ser flores que se cheire, mas pergunto:
- Onde estão os corruptos e os corruptores ainda cobertos pela imunidade das empresas-partido?
- Onde estão os mandados sobre dezenas de caudatários feudais que continuam a pagar o dízimo aos directórios partidários?
- Onde está a imprensa prostituída e sensacionalista a açular os mastins da irracionalidade popular contra figuras protegidas pela omertá garantida pela posse do cartão do(s) partido(s)?
Os autarcas em jacquerie são amados pelos seus. Fizeram a sementeira de fidelidades e dedicações e recebem o tributo dessa entrega. Isaltino foi um grande autarca e realizou um verdadeiro saneamento urbanístico, impôs autoridade policial onde havia gangs, incentivou o associativismo, estimulou economicamente o seu concelho. Disso sou testemunha presencial, pois tenho casa no concelho de Oeiras. A inefável Fátima é acusada de um pecadilho de 750.000 Euro*, supostamente dividido num bolo de 10 comensais. Qualquer roubo é um roubo, mas o que serão 750.000 Euro* comparados com milhões e milhões devorados anualmente, mensalmente, diariamente por esse polvo deglutidor dos impostos pagos pelos cidadãos e pelas empresas ? Sei que vivemos num mundo onde tudo é relativo, onde o bom bandido é laureado e a má vítima senteciada; onde a violência política é louvada e medalhada se praticada por uns e ridicularizada e danada se insinuada por outros; onde uma provocação reles é tida como manifestação de liberdade e uma provocação incorrecta investigada. Como pode o regime lançar perseguições e cruzadas moralizadoras se é dentro do regime que os maus exemplos partem?
Confesso que já não tenho manifesto interesse pelo jogo político. É uma perda de tempo, mas há uma consciência que não pode demitir-se. Estamos no mesmo barco, dentro das mesmas fronteiras e tudo o que acontece à nossa volta acaba por se reflectir na nossa vida individual e colectiva.
Temo - ou antes, vaticino - que se as coisas persistirem nesta linha de desagregação, possa surgir, não em Felgueiras, Gondomar ou Oeiras, mas em Portugal no seu todo, um Isaltino, uma Fátima ou um Valentim. A perspectiva assusta muitos, mas às vezes os grandes sustos servem para emendar grandes males.
*Com propriedade, deve escrever-se Euro e não Euros.

21 setembro 2005

Chegou o Outono



Ao contrário do que teimam os francófilos, não há língua europeia mais bela que a alemã. Poesia, só leio em alemão, ou como quem diz: a essencialidade das coisas fala alemão. Eduardo Prado Coelho, que em Maio se envolveu em "combustões" em defesa da sua (dele) dama francesa, nunca poderá compreender a inefável profundidade da língua de Goethe. Monika, errinst Du dich noch daran ?

Im Herbst
Die Sonnenblumen leuchten am Zaun,
Still sitzen Kranke im Sonnenschein.
Im Acker müh'n sich singend die Frau'n,
Die Klosterglocken läuten darein.
Die Vögel sagen dir ferne Mär,
Die Klosterglocken läuten darein.
Vom Hof tönt sanft die Geige her.
Heut keltern sie den braunen Wein.
Da zeigt der Mensch sich froh und lind.
Heut keltern sie den braunen Wein.
Weit offen die Totenkammern sind
Und schön bemalt vom Sonnenschein.

Georg Trakl

Arte russa



Se o tempo me permitir, penso poder passar por Paris nos próximos dias . Deslocação de trabalho, aproveitarei a ocasião para a habitual aquisição de obras não acessíveis no nosso mercado livreiro, para um ou outro espectáculo - de que a capital francesa é pródiga - e uma das inúmeras exposições que a ainda pujante rede museológica gaulesa proporciona.
A não perder, a exposição pluridisciplinar de arte russa do século XIX que o Museu d'Orsay oferece ao público até 5 de Janeiro. Pintura, escultura, arquitrectura, artes gráficas e fotografia compõem um rico espólio jamais apresentado no Ocidente. Se os "clássicos" das belas-letras são lidos e relidos pelos amantes da literatura (Dostoievski, Gogol, Puchkine, Tchekov, Mandelstam), se persiste uma pertinente curiosidade pelas "vanguardas" que precederam a imposição da grotesca cultura oficial do estalinismo, sobre as artes plásticas do século XIX russo pouco ou nada se sabe entre nós. Uma Rússia "popular", "tradicional", "folclórica"e Eslava em tensão com a outra Rússia ocidentalizante, cosmopolita e moderna, parece ser este o timbre do evento. Pouco sabemos sobre a cultura russa, ocultada por uma língua inacessível, por mitos e ideias-feitas fabricadas pela ingenuidade das etnografias oitocentistas, ou pelas propagandas pró e anti-soviética. Chegou a hora de rever preconceitos, suspender ódios, aversões ou entusiasmos e olhar para esse momento alto de criatividade em que a Rússia se impôs à consideração dos povos civilizados como uma alternativa às culturas alemã e francesa.

Uma efeméride esquecida


Realizaram-se em Agosto grandes festejos por ocasião do bicentenário da batalha de Trafalgar, marco importante das chamadas "guerras napoleónicas". A batalha de Trafalgar foi importante para a Europa, pois saldou-se no triunfo do poder marítimo sobre o poder continental. Foi importante, mas não foi decisiva para a marcha da história europeia.
O mesmo não poderemos dizer desse outro acontecimento que marcou definitivamente a história contemporânea. Passam este ano 100 anos sobre a batalha de Tsushima, que selou a guerra entre o Japão Meiji e a Rússia czarista. Por razões óbvias, para vencedores e vencidos, não houve quaisquer evocações. Os russos, por haverem perdido a corrida imperialista pela expansão no extremo-Oriente, que travavam com os britânicos e nipónicos; os japoneses, por não quererem lembrar o início de uma escalada belicista que os empurraria, quatro décadas depois, para uma tremenda derrota militar.
O significado desta batalha não envolve apenas a Rússia e o Japão. Pela primeira vez, uma potência asiática, industrializada e moderna, derrotava um poderoso exército europeu e lançava por terra as convicções supremacistas da Europa. Este triunfo desencadeou a longo termo uma revolta surda contra o homem branco, o seu poder mundial, a sua rede colonial e a segurança psicológica de um domínio sustentado pela posse desigual da tecnologia de armamentos. Não deixa de ser curiosa a coincidência do ano de 1905 haver sido marcado pela explosão do primeiro movimento revolucionário na Rússia e de, em França, falecer aquele que foi, para sucessivas gerações de jovens, a consciência do poder europeu: Julles Verne. Com a morte de Júlio Verne morria também uma certa ideia de supremacia ocidental. A história não deve ser, pois, estudada como uma sucessão de datas, batalhas e quadros. A história possui em sí forças de determinação que, quando desencadeadas, se transformam em movimentos estruturantes de longa duração. Depois de Tsushima, a Europa - que tanto ajudara o Japão a sair da feudalidade, armando-o, dotando-o de instituições, práticas e valores europeus - estava condenada. Começava a retirada europeia. Os homens comuns europeus, esses continuaram as suas vidas convictos de que o velho mundo estava destinado a manter seculum seculorum uma vantagem que, afinal, era apenas aparente.

20 setembro 2005

Sehnsucht auf Dich


ICH BIN TRAURIG

Deine Küsse dunkeln, auf meinem Mund.
Du hast mich nicht mehr lieb.
Und wie du kamst -

!Blau vor Paradies;
Um deinen süßesten Brunnen Gaukelte mein Herz.
Nun will ich es schminken,

Wie die Freudenmädchen
Die welke Rose ihrer Lende röten.
Unsere Augen sind halb geschlossen,

Wie sterbende Himmel -
Alt ist der Mond geworden.

Die Nacht wird nicht mehr wach.
Du erinnerst dich meiner kaum.

Wo soll ich mit meinem Herzen hin?

Else Lasker-Schüler

De Nietzsche a Weber: hermenêutica de uma afinidade electiva


Recebi, com uma dedicatória imerecida, a última obra do meu amigo e mestre Rafael Gomes Filipe, cujo título, em epígrafe, consagra um pensador português de primeira relevância. Infelizmente tão pouco citado pelos fabricadores de notoriedades ocas, Rafael Gomes Filipe é hoje uma autoridade mundial em toda a complexa temática weberiana. Esta tese de doutoramento vem destacar, com fundamentação exaustiva, a presença de Nietzsche em Max Weber. Chamo a atenção aos interessados para a parte III ( Política e poder em Nietzsche e Weber: da vontade de poder ao voluntarismo "liberal" de Weber), uma peça de grande clareza, elucidativa e profunda, do Weber que ninguém quer ver por ferir preconceitos arreigados entre a comunidade académica.
Rafael Gomes Filipe - tradutor de Ernest Junger, Raymond Abellio, M. Yourcenar e Julius Evola - é dos poucos homens de cultura que conheço entre nós, sem tributos pagos à prostituição "intelectual" e ao carreirismo estipendiado. Falando um alemão de Heidelberg, tradutor de Weber sem recurso à falsificação francesa, deve ser lido e estimado. Se vivessemos num país respeitador da inteligência e da Liberdade, Rafael Gomes Filipe seria, sem dúvida, um dos grandes nomes da cultura portuguesa deste início de milénio.
FILIPE, Rafael Gomes
DE Nietzsche a Weber. Lisboa: Piaget, 2004
ISBN: 972-771-751-9