17 setembro 2005

Apotegma III

A propósito da estupidez, infelizmente tão pouco estudada cientificamente, encontro nessa perfeita obra de Cipolla intitulada The Basic Laws of Human Stupidity a mais brilhante definição. Estúpidos ? Os anónimos. Estúpidos ? Os extremistas de todas as confissões, credos e manias. Estúpidos ? Os redutores, os adoradores das pocilgas alheias. Estúpidos ? Os mentecaptos convencidos de haverem recebido um chamamento. Estúpidos ? Os invejosos, os criminosos inconscientes e os monomaníacos. Estúpidos ? Todos os que se comprazem pelas dores alheias. Não sei se verificaram que o choque com a estupidez se dá por duas formas. Há os estúpidos escancarados - aqueles que têm a estupidez colada à cara - e há os estúpidos inopinados. Muitas vezes, tendo avaliado mal uma pessoa, pensamos estar perante um indivíduo equilibrado. Até podemos encontrá-lo duas, três, dez vezes e não detectar o veneno. Porém, basta uma expressão, uma faísca, uma banal observação e aí temos, desmascarado, o estúpido.

"A pessoa estúpida é toda aquela que provoca prejuízo a outra(s), sem conseguir retirar quaisquer vantagens patra si ou até prejudicar-se."

(Carlo M. Cipolla)

16 setembro 2005

Pinochet e Castro




Encarniçada, a imprensa da intolerância bem-pensante, a que se somam os eternos cultores da estupidez inteligente ( Evola dixit) exulta com a decisão do Supremo Tribunal chileno em retirar a Augusto Pinochet as imunidades remanescentes que ainda o poupavam a um julgamento por suposto envolvimento na Operação Condor, no decurso da qual teriam perecido 3000 opositores à Junta Militar. Pinochet julgado e condenado parece ser o veredicto antecipado nesta coisa a que se dá o nome de processos mediáticos, que tratam de julgar e sentenciar os acusados antes que estes cheguem a esgrimir provas e documentos ante a barra dos tribunais.
Os mesmos que o acusam, silenciam discretamente o ditador Castro, que por Cuba continua impune pelos 300.000 mortos causados por um vergonhoso regime concentracionário de fome e desastre que conseguiu a façanha de, no interim de 46 anos, atirar o país - que era, após os EUA, o Canadá e a Argentina, dos mais ricos do continente americano - para um farrapo subnutrido.
Voltaremos ao assunto, pois é revelador da má-fé e da duplicidade de critérios com que a estupidez inteligente separa os bons mortos dos maus mortos, as boas ditaduras das más ditaduras.

Sophia em tailandês




Tenho feito eco nesta tribuna das tentativas ultimamente desenvolvidas pelo IPOR (Instituto Português do Oriente) para difundir o gosto pelas letras portuguesas em terras da Ásia. Recebi ontem, da nossa ex-leitora em Banguecoque, Ana Sofia de Carvalho, um exemplar da belíssima edição da Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner, com tradução do meu caro amigo Puchong Dejarkom e ilustrações de Sudpai Mungtai. Veículo por excelência para a conquista da sensibilidade e fundamento para a formação de lusitanistas, a edição de autores e temas portugueses deve prosseguir. Depois de O Mandarim, de Eça, traduzido magistralmente por Pralom Bunrassamee, mais um título destinado ao 4º maior mercado livreiro asiático.
Mais importante que uma visita ministerial, um livro fica e interpelará sempre todos quantos dele se abeirarem. Parabéns ao Professor Vaconcellos Saldanha e ao IPOR.

15 setembro 2005

Sonho pedagógico para uma Paideia aristocrática



Libertar as criancinhas da retorta caseira (i.e. desfutebolizá-las, destelenovelizá-las e lavá-las da moralzinha convencional pequeno-burguesa). Dar-lhes música clássica, facultar-lhes mundo, ginasticá-las e prepará-las para serem cidadãos empenhados e corteses. Criar uma consciência de unidade cultural, infundir optimismo e capacidade de comunicar. Uniformizar as criancinhas, esbatendo as diferenças sociais.

Primeiro Ciclo: Língua Portuguesa: ler e escrever
Língua Inglesa
História e Geografia de Portugal
Educação Física
Educação Músical
Educação para a cidadania e etiqueta
Educação Sexual
Expressão Plástica e Dramática

Segundo Ciclo: Língua Portuguesa
Língua Inglesa
Língua Estrangeira II - Espanhol, Alemão, Chinês
História e Geografia de Portugal e Europa
Ciências da Vida
Educação Física
Matemática
Educação Músical
Educação para a cidadania e etiqueta
Educação Sexual
Expressão Plástica e Dramática

Terceiro Ciclo: Língua Portuguesa
Língua Inglesa
Língua Estrangeira II - Espanhol, Francês, Alemão, Chinês
História e Geografia de Portugal, Brasil, Europa e África
Ciências da Vida
Físico-Química
Matemática
Educação Física
Educação Músical e Artística
Educação para a cidadania e etiqueta
Educação Sexual

Depois: Escolas Industriais, Escolas Comerciais e Escolas Pré-Universitárias

14 setembro 2005

Concordo com Carrilho


Videogilância em locais quentes da cidade ? Totalmente de acordo.
Espanta-me que o PSD e o PP, tomados de pruridos eleiçoeiros anti-securitários, recusem a adopção desta medida preventiva cujos resultados , já testados em cidades europeias, têm aliviado significativamente a incidência da criminalidade nas ruas. Se a rede de vigilância estivesse em funcionamento, outra vida teriam os gangs de facínoras traficantes de estupefacientes que assentaram arraiais no Intendente, no Bairro Alto e outras zonas da capital.
Outra vida teriam, também, os pobres polícias deste país, humilhados por uma classe política que não corre perigo algum, não é molestada nem assaltada por viver em condomínios vigiados e passear-se de carro com condutor à porta. Não se lembram do Dr. Soares ? "Ó senhor polícia, ponha-se daqui para fora ! "
Não houvesse vigilância em Londres e Madrid, os terroristas ainda andariam impunes.

Poemeco abrileiro: caricatura literária


Não se lembram da poesia que Abril produziu, vendeu e premiou ?
Cataratas de "mulher-companheira-tractor do povo", "traineira, pariste um cravo encarnado", "masmorras da longa noite" , "sobe, sobe Luísa, sobe a calçada / passa um magala /apalpa-lhe as pernas / não dá por nada ", "povo-capitão"e demais ganga de contrafacção que Fanhas, Letrias, Josés Mários Branco e outros foliculários estipendiados impingiram como literatura, feriram mortalmente a honra da poesia portuguesa. Em tom provocatório, aqui deixamos uma proposta de poemeco abrileiro.
Deve ser declamada por um bigodudo-patilhudo, trunfa palha-de-aço e com melena oleosa escondendo a calvície, barrigão tambor, camisa vermelha Porfírios aberta até ao 4º botão, casaco aos quadrados, calças boca-de-sino e sapatões de salto alto. O diseur deve ostentar, farfalhudo, um cravo vermelho na lapela.
Mulhéeer espâanto,
Nasceste na longa noite,
com esbirros e masmorras.
Traficante de sonhos,
Papoila, resistiiiiste e cantaste o pôoovo !
Seara solidária, Mulher-companheeeeira,
Utôooopia de carne e praaanto
Disseste não, ceifeira-cantadeira
Nasceu a madrugáááda,
Abriiiil cantou n'uma espingarda
Pariiiiiste um cravo vermelho
A revolta fez-se amor e Utôoopia
Punhos cerrados em Maio,
Pra' transformar o Mundo
Na luta p'elo Homem Novo
Desta sede de ternura
Nesta Terra que é tua
José Ranha
in: Poemas que Abril Cantou. Lisboa: Vento do Povo, 1976
Prémio de revelação "Samora Machel" da AUTI (Associação Unitária dos Trabalhadores Intelectuais)

13 setembro 2005

Pela estética de Lisboa: força camartelos !


Um grupo de cidadãos propõe-se trazer para o debate público a oportuníssima questão da beleza da nossa capital. Sei que o tema tresanda a finais do século XIX - à Lisboa Monumental, de Fialho de Almeida - ou ao experimentalismo modernista, que teve como maior agente esse grande presidente da edilidade que foi Duarte Pacheco. A verdade é que, depois de Duarte Pacheco, tudo o que se fez de realmente importante saíu do plano gizado nos idos de Trinta, e tudo o que de infame e desfigurador se perpetrou saíu de lóbis criminosos e predadores. O regime actual acelerou o processo de degradação da cidade - com excepção, obviamente, da Nova Cidade erigida em torno da Expo-98 - obra dos governos de Cavaco - ou do Centro Cultural de Belém e Torre do Tombo, também obra dos governos de Cavaco.
A presidência da CML tem caído, invariavelmente, nas piores mãos: Aquilixo Ribeiro Machado, Nuno Abecassis (um verdadeiro vândalo), Jorge Bensaúde Sampaio e João Soares. Santana, entre os futebóis e a "alta política", não se interessou pela cidade.
Para o grupo de cidadãos interessados, aqui fica uma lista de candidatos ao camartelo:
A pavorosa estátua de Sá Carneiro, no Areeiro, da autoria de Soares Branco;
A coisa mínima, retorcida e jorrando uma aguadilha suspeita a que se deu o nome de Memorial ao 25 de Abril, erigida no topo do Parque Eduardo VII, da autoria de Cutileiro;
Os dois bunkers-bazares do Martim Moniz;
O bolo de noiva da Marconi, a Entrecampos;
A favela da Feira Popular;
O mercado-peixaria do Bairro Alto;
A horrenda Homenagem ao Jardineiro da cidade, na Alameda da Universidade;
A macrocéfala estátua a Bolívar, na Avenida da Liberdade;
Os curros de cimento, no Rato;
O monstro cinzento do SIS, na Alexandre Herculano;
O pombal na esquina da Av.ª 24 de Julho com a Av.ª D. Carlos I;

12 setembro 2005

Venha daí a educação sexual, com ou sem a aprovação dos paizinhos


Leio sempre com agrado o blogue da Aliança Nacional, uma direita-extrema que mantém a coerência dos seus princípios sem ceder ao roncante racismozinho suburbano e à exibição de parafernália "directamente vinda da Alemanha". Hoje, porém, atrevo-me discordar de um comentário que o Dr. Manuel Brás lançou na conclusão de um excelente texto a propósito da pressão exercida pela escola laica sobre os símbolos religiosos. Afirma M. Brás, extrapolando o tema do proibicionismo anti-confessional: "assim se aproximam as afortunadas crianças das modernas práticas de educação sexual nas escolas".
Creio que a educação sexual deve impor-se curricularmente, mesmo que ao arrepio da vontade das famílias. Grande parte dos problemas que ultimamente têm concitado foros de polémica na vida pública portuguesa constituem o normal tributo pago à ignorância e ao obscurantismo que envolvem questões relacionadas com o amor, a paixão, a iniciação sexual, a fruição do prazer sexual, a contracepção, as doenças sexualmente transmíssiveis, o aborto e as escolhas sexuais.
Não deve caber a pais educados na cartilha das "públicas virtudes, vícios privados" (que eu substuiria por "públicas hipocrisias, dores privadas) o papel de fazer pelas suas crianças aquilo que lhes não foi ensinado. Não cabe aos púlpitos pronunciar-se sobre os segredos da sexualidade, pois à Igreja cabe um outro magistério: o de ensinar a doutrina da Igreja a quem dela se quiser abeirar.
Deixai às criancinhas conhecer aquilo que lhes está infuso, deixai aos jovens viver a naturalidade das suas pulsões sexuais e grande parte dos transtornos, dos medos, das ansiedades e flagelos de intolerância e falso pudor desaparecerão.
Alguém disse que a civilização victoriana caminhava de braço dado com a sifilização. A civilização burguesa erigiu-se sobre uma dupla mentira: os valores e as bons costumes. Ora, nunca a Europa conheceu tantos bordéis, tantas meretrizes e tanta pornografia como durante o império dos bons costumes. O ensino da educação sexual não é uma violência: é um dever de inculcação que cabe ao Estado. Os homens livres devem começar por obter a sua liberdade antes de pensar na teórica liberdade que as leis lhes oferecem. A liberdade de que falo não é sinónimo de promiscuídade e deboche: é um direito elementar à felicidade. Vão à Dinamarca, à Suécia, à Noruega e a outras paragens respeitadoras dessa liberdade e verão quão mais responsáveis são os indivíduos na assunção dos seus deveres e direitos. Aqui, o sexo é proibido, pretendemos não ver aquilo que salta aos olhos menos avisados. A chalaça portuguesa - a piadinha de mau gosto - contém sempre uma alusão ao sexo e à comida, duas privações crónicas num povo esfomeado e vigiado.

11 setembro 2005

Passaram quatro anos

Cumprem-se hoje quatro anos sobre a queda das Torres Gémeas. Para os historiadores, esse terá sido o início do século XXI, posto que o XX, de curta duração e intensa vida, se iniciara com os canhões de Agosto de 1914 e supostamente terminara com o derrube do comunismo, em 1991. Não creio que tivesse terminado em 91. Terminou em 2001, pois a nova ordem mundial, marcada pela hegemonia norte-americana e tendo por opositores os fiéis de Alá, só se firmou nesse 11 de Setembro de 2001.
A temida era de guerras inter-civilizacionais começou. O desfecho do primeiro round está quase a terminar. O terrorismo não paralizou o Ocidente. O segundo round ainda não começou. Esperemos que a China não venha surpreender os analistas !