10 setembro 2005

Kim Il Sung e restante teratologia de Louçã


O santarrão Louçã afirmou na edição de hoje do Expresso que a "esquerda portuguesa não precisa de um Kim Il Sung". Precisará de um Trotsky, esse genocida que aplicou ao povo russo, entre 1918 e 1922 a fórmula do "comunismo de guerra" que ceifou mais de 5 milhões de vítimas ? Mas precisará de um Che Guevara, a cujas ordens foram assassinados sem julgamento 2500 oficiais e sargentos do derrotado exército de Baptista, duas semanas após a tomada da Havana pelos guerrilheiros de Castro ? Precisará de uma Pasionaria, que em Junho de 1936, em pleno parlamento espanhol, se virou para Calvo Sotello, o líder da direita, e disse-lhe: "es la ultima vez que usted habló" ? Sotello viria a ser encontrado crivado de balas numa azinhaga nos subúrbios de Madrid. Precisará que um Santiago Carrillo, que dirigiu com zelo ardente o massacre de 8500 prisioneiros políticos em Paracuellos del Jarama naquele terrível Agosto de 1936 ? Precisará de um Enver Hoxha, adorado, juntamente com Estaline, no altar da sua aliada UDP ? O problema - o grande problema - é que o santarrão Louçã vive da ignorância dos portugueses e da cobardia da maioria dos jornalistas que não o ousam confrontar. Se houvesse um simétrico direitista do santarrão, choveriam, a propósito e despropósito, câmaras de gás, Auschwitz, Treblinka e Dachau. Mas com o santarrão, não. Que raio de terra esta !

09 setembro 2005

Sem telemóvel e sem carro, orgulhosamente


Vem este post a propósito de um telefonema. A minha amiga perguntava-me, escandalizada, "então não tens telemóvel ?" Perguntei-lhe se não estava a falar comigo. Reconheceu a evidência. "Então não tens carro ? ". Não, mas apanho um táxi e aí estarei dentro de 10 minutos.
Antes, não havia automóveis e circulava-se. Hoje, com a micro-burguesia enlatada em caixões rolantes, não se circula. Os nossos gorduchos e gorduchas, com forte sentido de propriedade, no arranca-pára, pára-arranca, horas a fio, enquanto eu, regalado, vou lendo, vou nadando, vou levantando pesos. Ainda se tivesse uma daquelas soberbas máquinas anos 30, de estofos em pele, tablier em madeiras raras e perfumadas, um motor obra-de-arte que consumisse 30 litros aos 100, talvez me rendesse ao maior destruidor ambiental. Mas não, as carripanas são todas iguais: feias, massificadas e confortáveis. Abomino o conforto, venero o luxo. Se querem movimentar-se, apanhem um táxi ! Preguiçosos. É por essas que os ocidentais se parecem cada vez mais com sacos. Engordaram por fora e por dentro.
Antes, o velho telefone punha-nos em contacto com os outros. Hoje, a febre de comunicar serve para enriquecer os operadores e para alargar a conversa fáctica, aquela que não serve para outra coisa que ludibriar o vazio. Não tenho telemóvel, logo não me acordam, não me interrompem o banho, não perturbam a privacidade daqueles momentos [vários] em que a fisiologia nos diz que somos como os gatos, os cães e os pássaros ! O telemóvel é uma imbecilidade útil, pois trata de nos fazer crer existirmos para os outros. Como aprendi a ganhar a máxima distância dos outros - o meu sonho seria uma vivenda com 10.000 m2 de jardim cercado por muros de 10 metros - a recusa da maquineta de plástico reforça o meu doçe isolamento.
A única cedência que faço ao sortilégio tecnológico é o computador. Acho que já me esqueci da minha caligrafia. O único contacto com a escrita faço-o a corrigir os testes e exames ou a assinar cheques.
Bem, para uma visão bem retro e desajustada do desacerto integrador do admirável mundo em que vivemos, aqui ficou esta nota de [inegociável] casmurrice.
"Tens alguma coisa contra os automóveis e os telemóveis" ? Tenho, deviam ser proibidos por lei.

Berlin bleibt doch Berlin



Acabo de ler as últimas de Miss Pearls, que está lá para as bandas da futura capital da Europa.
Tenho o prazer de almoçar com Miss Pearls três vezes por semana. Da próxima, entre a galhofa e um pudim, vai-me fazer o relato da cidade-mártir. Miss Pearls, vá ao Scala e lembre-se da Lindenmarsch:
Solang noch unter'n Linden
Die alten Bäume blühn,
Kann nichts uns überwinden,
Berlin, du bleibst Berlin.
Wenn keiner treu dir bliebe,
Ich bleib' dir ewig grün,
Du meine alte Liebe,
Berlin bleibt doch Berlin

08 setembro 2005

Bárbaros e civilizados




É uma evidência histórica com repercussões culturais indeléveis: o não domínio da língua-franca internacional acarreta periferização, diminuição da capacidade competitiva, embotamento na criatividade e falta de acesso às fontes de informação. Assim o foi sempre, assim será para o tempo e para a eternidade.
Até ao século III a.C, a língua franca "mundial" era o aramaico. Com a expansão do helenismo, o grego passou a ser a linha demarcadora entre a civilização e a barbárie. Do século II a.C. ao século XV - até ao nascimento da imprensa e da fixação literária das línguas vernáculas europeias - o latim separava o saber da ignorância. Depois de Guttemberg, e sucessivamente, o espanhol e o francês foram cânone para artistas, filósofos e homens de cultura. O poliglotismo era uma prática quotidiana até meados do século XVII e entre nós as elites expressavam-se tão bem em castelhano e português como em latim. Era essa recusa do monoglotismo que permitia a correspondência entre homens dos mais distantes azimutes espaciais. A Companhia de Jesus - esse brilhante escol de intelectuais, cientistas, artistas e homens de vocação - constituia emblema de um universalismo que se perdeu com o despertar de Leviatã. No Colégio de S. Paulo, em Lisboa, os ciclos escolares incluiam as matemáticas, a geometria, filosofia natural, história e cultura clássica, sendo responsáveis pelas respectivas cadeiras sacerdotes espanhóis, holandeses, franceses e italianos. Nas aulas falava-se em latim. A propósito desta relação natural e convivial com as diferenças, lembro a velha anedocta atribuída a Carlos V: "quando falo com os prelados, expresso-me em latim; quando falo aos meus capitães dou ordens em castelhano; quando recebo artistas, falamos em italiano; quando falo com senhoras uso o francês; quando falo com os meus cavalos, sirvo-me do alemão"
Depois, veio, exclusivista e tirânica, a mania da língua-única, que acabou por insularizar as elites, provincializando-as.
O que mais me perturba é o facto dos nossos caros concidadãos serem, na sua grande maioria, incapazes de manter um discurso coerente em inglês, hoje língua obrigatória para qualquer contacto. Agarrados ao francês - uma língua moribunda - servem-se de autores e perspectivas francesas; logo, datadas. É este, quiçá, o grande e incontornável problema da relação entre Portugal e o mundo. Se não o conseguirmos superar, estaremos condenados a conversas de praia ! Ou seja, somos, de novo, bárbaros.

07 setembro 2005

Uma descolonização exemplar


Acaba de me chegar às mãos Mazagão, a cidade que atravessou o Atlântico de Marrocos à Amazónia, da autoria de Laurent Vidal. A história ultramarina portuguesa está cheia de conquistas e abandonos, vitórias e derrotas mas Mazagão - cuja total inutilidade económica me lembra o caso da Guiné-Bissau - demonstra a que ponto a responsabilidade do Estado para com os seus súbditos se manifestou em toda a linha. Mais tarde, se a memória não me trai, Portugal assumiu similar postura no apoio que facultou a todos os indianos portugueses fugidos à invasão e anexação manu militari das cidades de Goa, Damão e Diu pelo pacifista Nehru.
Para ler e divulgar.

VIDAL, Laurent
Mazagão: la ville qui traversa l 'Atlantique du Maroc à l'Amazonie (1769-1783). Paris: Aubier, 2005, 322 p.
ISBN : 2-7007-2360-0

06 setembro 2005

Força Angela


Assisti ao debate ontem travado na arena da tv alemã entre Angela Merkel e Schroder. Boa bravata, tão longe das nossas fulanices e provincianices. Uma mulher de armas, certeira como uma boa carabina de alça telescópica frente a um chanceler tíbio, de cabeleira pintada e dentadura de porcelana. Schroder saíu combalido, atirado à rede, mas disse a verdade. Cobriu-se de dignidade e assumiu o fracasso de anos de má-governação. Tivessem os nossos a mesma palma de honestidade e ainda me fariam sair de casa para depositar o óbulo na urna.
O debate teve um senão. Schroder mostrou que é um cavalheiro pois sentia-se visivelmente incomodado por ter por adversário uma mulher. Eros estava ali e Schroder perdeu duas ou três oportunidades de ouro para desferir um murro certeiro na rival.
O debate terminado, voltei à nossa pequena e surrada politiquice. Estava Medeiros Ferreira a afirmar que a "candidatura de Soares é um tónus para a vida do país". Desliguei e fui ler A Continuação do Fim do Mundo, da minha querida amiga Adília Lopes. Um assombro para limpar a assombração medeiresca.

Falemos claro


Estabeleceu-se por aí alguma confusão a respeito da minha pertença ou não ao "campo nacionalista". Para que eu siga o meu caminho e "eles" aquele que julgam, no foro das suas convicções - que aceito, pois o pior que podemos fazer a uma pessoa adulta é privá-la das suas ficções dirigentes - aqui deixo em meia dúzia de notas o meu posicionamento político:

1 - Não sou nacionalista nem pertenço ao "campo nacionalista". Sou, concerteza, patriota e admiro profundamente as grandes realizações do nosso povo. Não sou "nacionalista" de tipo positivista à la Renan, nem tão pouco posso subscrever grande parte de uma certa recente tradição ideológica portuguesa (leia-se integralista) assente em premissas tardo-oitocentistas. Não integro, também, qualquer ideia de nação saída da projecção da animalidade, tal como foi voga entre nós nos anos 80, quando Lorenz e alguns trabalhos menores de Alain de Bennoist foram religiosamente glosados [e memorizados] por alguns carentes de argumentos face ao então dominante espectro cultural marxista. O meu patriotismo não é o do sangue nem do solo, pois a pátria é uma ideia que germina a partir do Estado e da sociedade por este imaginada. Não tivesse nascido D. Afonso Henriques e não haveria qualquer "factor democrático" capaz de nos desancorar da meseta. Foi a vontade de poder desse homem que nascemos. Agora, como em tudo, é impossível voltar atrás. Seguimos em frente, ganhámos consciência, desenvolvemos uma língua prodigiosa e belíssima que emparceira com as maiores do planeta.

2 - Não sou racista, "racialista" ou "identitário" nessa acepção - perfeitamente a-científica - de que alguns se reivindicam. Identifico no racismo uma superstição marcadamente oitocentista. Nestas coisas de crença, cada que consuma e digira o que bem lhe aprouver. Aliás, os nossos racialistas apresentam algumas características que já fizeram escola na histiografia portuguesa do século XIX, ou seja, de uma vaga memória, quase insignificante, quase inexistente, que remeteria para um "Portugal céltico". O único certificado de nascença desta comunidade é
cristão e tudo o que se inventar ou pretender colar a este momento de partejamento é pura efabulação. Sabe-se hoje que a marca demográfica dos celtas é quase irrelevante, se bem que um ou outro estudo ao ADN de populações das Astúrias nos permitam destacar um povoamento mais intenso dessas populações em regiões específicas da península.
Os nossos identitários confundem cultura e raça. Ora, o Padre António Vieira, mestiço carregado, é o "marcador" cultural mais eloquente do "NOSSO" século XVII, o Marquês de Pombal era 50% mulato, o saudoso Almada Negreiros quase negro. A ideia de comunidade estriba-se naquela "vontade de viver juntos", pelo que não me repugna em absoluto a ideia de outras raças, conquanto integradas na nossa visão do mundo, saberem ser tão portuguesas como nós. Lembro que todo o esforço de permanência e resistência portuguesa na Índia, no Ceilão, na África Oriental, na Malásia, em Timor e no Brasil foi obra de comunidades miscigenadas.
Sabem os nossos preclaros "nacionalistas" como um dos fundadores do Direito Internacional, o jurista holandês Hugo Grotius, definia os portugueses ? Pois, digo-vos: "uma raça inferior que se mistura com os animais". Recomendo vivamente a leitura desse grande cientista e homem de cultura que foi o Professor Almerindo Lessa.

3 - Não sou nacional-socialista nem fascista, nem tal seria de levar a sério, tratando-se, ambas, de formulações bem circunscritas a um tempo na história das ideias políticas e na história da cultura ocidental. Não sou, porém, um antifascista, pois seria tão absurdo como ser, neste momento e aqui, esclavagista, feudalista, colonialista, mercantilista....
Algumas das expressões estéticas e literárias do "fascismo" atingiram píncaros de génio, mas como em tudo, da política pouco resta e dos artistas muito pouco se esqueçe. Leio com paixão estética e veneração filosófica a grandeza de algumas páginas de Pound, de Drieu, de Brasillac, de Pirandello, Hamsun, Junger, de Gentile e até dessa grande esquecida que foi Margherita Sarfati, a amante judia de Mussolini e que foi a criadora da estética "mussoliniana". Relaciono-me com o fascismo como cumprimento, numa onda totalmente diferente, Voltaire, os românticos, as vanguardas literárias do primeiro quartel do século XX e até - pasme-se - Sade, os abjeccionistas e o nosso prodigioso Luíz Pacheco (uma graça).

4 - Sou democrático e acredito na democracia participativa. Outros - aceito o conceito - poderão reivindicar-se de uma "democracia totalitária". Julgo, porém, que a democracia representativa e "burguesa" é o regime que melhor responde às necessidades do tempo hodierno, pois das suas conquistas todos nos revemos: respeito pela livre expressão de ideias, debate e confronto eleitoral. Todas as formas de governo que a negam têm sido repetidamente derrotadas.
Não aceito, porém, e sem contradição, o legado de 1789, a malfadada revolução que criou no Ocidente a abundante sementeira de ficções e mentiras em que persistimos viver. A Inglaterra fez a dedução ao sistema representativo de outra forma e, assim, ganhou a partida.
Não sou, contudo, "democrata", pois a democracia não é um credo mas um método. As criaturas mais intolerantes que tenho encontrado afirmam-se democratas. São os intolerantes da tolerância. Tolerância, claro, a deles. Como perfilho uma visão aristocrática e solitária, não encarrilho em multidões, pois o que nestas predomina são o ódio, o frenesi e a volúpia de uma força que se estilhaça como o vidro mais imperfeito.

5 - Não pertenço, não quero pertencer, nunca pertencerei a qualquer partido, movimento, associação política. Prezo muito a minha liberdade. Até a liberdade de mudar 180 graus o meu mundo. Andei em militâncias políticas durante 15 anos, quando alguns dos meus censores ainda andavam no berçário. Fui presidente da Juventude Monárquica, fundador da Nova Monarquia - que enchia salas e pavilhões a uma escala que V. Ex.ªs poderão desconhecer- fui Director-Adjunto de um jornal diário e até paguei com a privação da liberdade o preço da minha juventude. Fui agredido fisicamente por caceteiros do PSR e exibo-o com toda a honra na minha folha de serviços. Quaisquer provas adicionais de coerência e entrega às MINHAS CONVICÇÔES podê-las-ão pedir a pessoas, bem próximas das V. movimentações, com as quais mantenho excelentes relações de natureza pessoal: José Luis Henriques e Humberto Nuno de Oliveira. Nunca deixei de me dar com quem quer que seja por preconceito ideológico, étnico, religioso ou social. Numa terra de intolerâncias e obscurantismos, exercito constantemente a prática do debate, sem nunca ceder naquilo que estimo fundamento da minha integridade.

8 - Não sou político. Sou um funcionário superior do Estado e professor universitário e é ao Estado e aos meus alunos que sirvo. Não quero ser líder de coisa alguma, nem deputado, secretário de Junta ou presidente de colectividade. A política é uma absoluta inutilidade e o desfecho é sempre um bom ordenado ou o ridículo. O vazio que gera, as pulsões cegas de poder e posse que despontam entre amigos e camaradas é verdadeiramente diabólico. Afastem de mim esse cálice. A história da "direita" portuguesa é um sem-número de zangas, fratricídios, ajustes de contas e ódios e nisso não participo.

7 - Não dou conselhos, pois só teria autoridade para o fazer se fosse dos vossos. Mas não sou. Estou tão próximo das vossas organizações como V. Exªs estarão do PSD ou do PP. No que me cabe, estou bastante mais próximo de tudo aquilo que detestam, pelo que nada ou pouco nada há a falar. Não sou - finalizando - "nacionalista" nem cavalo de Tróia de coisa alguma porque estou...out ! Ah, também não sou traidor, porque a traição parte de dentro, dos amigos e próximos, não dos que não pertencem ao nosso grupo. Compreenderão, com o tempo, quão cínicas e fiáveis são as camaradagens políticas.
Todos os bloguistas que amavelmente citam o meu Combustões , se se escandalizam com estas
palavras, tenham a bondade de retirar qualquer alusão às modestas palavras deste meu diário. Não quero mudar o mundo, não sou outro senão eu e, como tal, retirem-me do vosso mundo, das vossas fixações pois têm mais que fazer.

Atentamente, com as maiores felicidades

Miguel Castelo-Branco
NB: Depois de publicar estas linhas recebi uma dúzia de mensagens. Uns desaprovam-me, outros subscrevem. Tenho 42 anos e sei o que quero. Os erros, pago-os, a liberdade conquisto-a.

05 setembro 2005

Sexo dos Anjos: qualidade, elegância e destreza

Confesso que navego muito pouco na blogosfera. Confesso nunca ter investido mais que meia dúzia de minutos na leitura da "concorrência", salvo raras excepções, que nomeio pelo apreço e admiração pelos seus signatários. Lembro um Pedro Guedes, um Bruno Oliveira, um José Adelino Maltez, um "Jansenista", um "Misantropo Enjaulado" ou uma "Casa do Sarto". Hoje, descobri [tarde e a más horas] o Sexo dos Anjos, de Manuel Azinhal e rendi-me. Li-o de fio a pavio e lembra-me Daudet, Jacques Bainville, Maurice Pujo, Jose Maria Peman... Uma excelência na forma e no conteúdo. Uma segurança magistral na manipulação da frase (cortante como o gume de uma navalha) e na destreza com que, sem cabotinismos, exibe uma cultura política sólida, sem florentinismos e rodriguinhos de qualquer sub-cultura ideológica. Leiam-no e valorizem-no, porquanto entre nós é coisa rara.
No vozerio e cacofonia que nos envolvem, este é, sem dúvidas, a nata da nata.

http://viriatos.blogspot.com/

04 setembro 2005

Louçã: candidatura burguesa




A versão ano 2000 do grande camarada Arnaldo Matos, ex-educador da classe operária e fundador do PACATAPUM / Sendero Luminoso Português - apresentou-se finalmente como candidato, seguindo esse exemplo extremo de coerência que a esquerda radical e festiva, burguesa e filha de boas famílias vem praticando um pouco por toda a Europa que brinca às repúblicas.

O sr. Louçã - que agora o inefável Rosas já trata por "Dr."- segue as pisadas da escalavrada Arlette Laguiller, eterna repetente nas provas ao Eliseu. Mas aqui as coisas soam diferente. Arlette deu ao seu partiducho, com a maior propriedade, a designação de Luta Operária; o sr. Louçã o de Bloco de Esquerda. Luta Operária cheira a luta de classes, a barricadas, a guerrilha urbana e violência popular; Bloco de Esquerda tresanda a snobismo apaparicado pelos barões da indústria de espectáculo para entreter um certo "nicho" de mercado burguês mas irreverente.
Madame Arlette afirma-se declaradamente marxista e comunista trotsquista; o sr. Louçã foge do labéu como Mafoma de chouriço. Madame Arlette apela às massas trabalhadoras, aos jovens e aos marginalizados; o sr. Louçã, de dedo em riste e com ar de santarrão de vozinha arfante de sacristão, produz torrentes de moral secular destinada às bandas de S. João de Brito, S. João de Deus, Bairro Azul, Avenidas Novas e Olaias. Ali não entra um fato de macaco azul, uma matrona de pelo na venta e pernas hirsutas.

A candidatura de Louçã vem demonstrar que o nosso António Conselheiro - o tal que no Brasil de 1890 vaticinava a vinda iminente de Cristo - já aderiu a todas as festividades do regime. Também quer ser presidente.
Tal candidatura de um seguidor da Escola de Frankfurt - uma coisa velha, anos 20, que aqui passa por nova, tão atrasados somos - só vem demonstrar aquilo que há muito sabia: o Bloco do sr. Louçã não é coisa feita para mudar o que quer que seja. É, antes, uma peça fundamental na engrenagem de um sistema que foi perdendo graça e afugentando as narinas mais empedernidas. O sr. Louçã diz que a candidatura do macróbio Soares é passadista. O que nos oferecerá de novo o programa do sr. Louçã ? Mais colectivos ? Mais liberalização de mercadorias e práticas que o Código Penal inscreve no lote dos crimes punidos com prisão ? Mais lutas cósmicas entre o bem e o mal absolutos ? Mais falsos mendigos burgueses a brincar às fáceis resistências com direito a parangonas nos Públicos e nos Expressos ?
Aquilo é um adolescente tardio e enrrugado em busca de certezas. É verdadeiramente triste a crendice e enlevo com que as baterias do condicionamento ideológico tratam de espalhar urbi et orbi a boa nova. Olhem-lhe para a cara, os olhos arregalados, a magreza frenética e o siciar de blandícias e açoites e digam-se se aquilo convence alguém. Convence, sim, os parangoneiros dos Públicos, dos Expressos e das tv's que levaram por uma o Bloco Burguês a S. Bento. Que diferença haverá entre a nossa menina Carmelinda e o santarrão Francisco ? Poucas. Contudo, a Carmelindinha faz bricolage; o acólito Francisco é filho de almirante. Está tudo dito. Privilégios de classe ...