03 setembro 2005

Apotegma III

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"Os homens exigem a liberdade de expressão como compensação pela liberdade de pensamento, que tão pouco exercitam"

Soren Kierkegaard

Oldies II


A voz da grande dor francesa. O Non, je ne ne regrette rien, que foi senha radiofónica para o abandono da Argélia. Nela sinto essa outra dor, a dos nossos portugueses - brancos, negros e mestiços - atirados em 1975 para essa esquecida e heróica saga da ponte aérea Luanda-Lisboa.

http://www.bibi-piaf.com/musicas_html/je_ne_regrette_rien.htm
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02 setembro 2005

A nova Idade Média


Vivemos na terra de ninguém entre o entardecer das Luzes e a nova Idade . Quando, no início da década de 70, Eco previu o advento de uma nova idade do meio, fazada na tipologia medieval, foi liminarmente exprobado pelos catecismos tardo-positivista e marxista, crentes no aperfeiçoamento linear, imparável e ascendente da humanidade. Eco entrevira a reascensão do religioso, do milenarismo e de formas mais um menos virulentas de fundamentalismo confessional, bem como de um estado endémico de guerra e conflitos de pequena escala. Previu também a falência do modelo social saído do contratualismo, o domínio do irracional sobre o jurídico, com um novo tribalismo recentrador das fidelidades, e ainda, last but not least, a implosão da crença na tecnologia e na ciência, com anexação destas por novas formas de puritanismo.
Olho para os jornais de hoje, circulo por blogues - essa extensão da opinião que os jornais auto-censurados não publicam - e reconheço quão profético foi Eco. Tal como o homem medieval, parece vivermos cercados de perigos e ameaças: cruzadas anti-pedofilia; cruzadas pela virgindade das donzelas; concentrações maciças de exibição de fé; martírios e massacres de inocentes; povos errantes fustigados pela fome; sectarismo e novos movimentos religiosos disputando clientelas carentes de uma qualquer boa-nova; apelos ao rearme moral; proposição de cruzadas e guerras inter-civilizações; catadupas de livros sobre ocultismo, cabala, tarot, interpretação de sonhos e profecias devastadoras; o medo dos elementos (da água: o Tsunami, os ciclones e tornados, o desaparecimento das calotes polares; da terra: os sismos; do fogo: incêndios misteriosos em França, tempestados de fogo nas florestas do sul da Europa; do ar: o buraco de ozono, a poluição)...
Vivemos sob o signo da histeria dos irados de Deus, dos medos infantilizadores e das lutas cósmicas. Em cada esquina esbarramos com um Savonarola new age, um tribalizado (tatuado, piercingado, fardado, futebolizado), um purificador ou um caçador de bruxas. Tempos terríveis, sem dúvida, pois essa gente quer-se vingar de séculos de racionalismo com o fogo purificador que transporta nas entranhas. Será a vingança de Deus ? Creio, mais prosaicamente, que se trata da revolta da animalidade sobre a inteligência que a calou durante séculos.
Essa ralé queimará as bibliotecas, vandalizará os museus, elevará fornalhas e churrascos humanos, fará pogroms e fará a terraplanagem de um mundo que abomina.

Oldies I


Uma das mais belas vozes do século XX, a minha Zarah Leander, diva da UFA


Ich weiß, es wird einmal ein Wunder geschehn
Und dann werden tausend Märchen wahr.
Ich weiß, so schnell kann keine Liebe vergehn,
Die so groß ist und so wunderbar.
Wir haben beide denselben Stern
Und dein Schicksal ist auch meins.
Du bist mir fern und doch nicht fern,
Denn unsere Seelen sind eins.
Und darum wird einmal ein Wunder geschehn
Und ich weiß, daß wir uns wiedersehn! (...)


http://ingeb.org/Lieder/ichweisw.html

01 setembro 2005

A vingança do Pai Tomás




















A gerontocracia portuguesa dá passos de gigante. A nova Brigada do Reumático, à mistura com os valetudinários que servem todos os regimes, todos os sistemas e todos os distribuidores de tenças, reuniu-se ontem e aclamou o próximo "supremo magistrado da Nação". A republiqueta - cuja galeria de anedotas armadas sobre duas pernas é longa - consegue a proeza de entrar pela porta grande do ridículo ante o aplauso dos cortesãos e a apatia do povo português. Não há juntas médicas ? Não há um exame ad- hoc para rastrear candidatos ? Não há um Conselho Deontológico que impeça estes impulsos ? Fiquei boquiaberto com as falhas, as hesitações, o olhar vidrado - aquele que vemos nas bancas de peixe ! - o cuspo seco nas comissuras, as piadinhas de terapia ocupacional do Lar de Veteranos. Isto está a dar as últimas. O Rei Ubu - sem a graça de um Gungunhana, de um Bokassa ou do inefável Mugabe - fez uma prestação digna do regime. Entramos com pé direito no futuro !
Reconheço que o que se lhe pode opor não é particularmente interessante. Entre Soares e Cavaco, voto como sempre votei: não voto. Já dizia o velho Aguilar que a República é uma "mulher da má vida". Recebe de tudo lá em casa.

Reconheço, também - e neste particular não compagino com a direita - que Soares não é nem um monstro nem um fanático. É, concerteza, republicano, maçon e eventualmente iberista, mas muito diferente de um Cunhal, ultimamente tão incensado por alguma direita. Cunhal, que mandou eliminar pessoas, era uma figura sinistra, fanaticamente coerente e capaz de tudo para ver consagradas as suas fixações.
Soares tem, como todos os homens, características idiossincráticas, umas detestáveis - o narcisismo quase anal, o exibicionismo, o culto da banalidade, a superficialidade que recolhe palmas -, outras dignas de apreço, que não escondo e que neste particular batem Cavaco aos pontos: o interesse pelas belas-artes, a posse de uma biblioteca e o convívio com pessoas cujas preocupações não se cingem aos futebóis, aos livros-de-cheques e à politiquice.
O regime tem em Soares a sua corporização. Dispensando quaisquer juízos, o regime que temos é o reflexo do estilo, das habilidades e da forma do ex futuro presidente. Se se gosta de Soares, é-se pelo regime. Se não se gosta, é-se contrário a Soares.
Quanto a Cavaco, disso falamos depois.
É por estas e por outras que me sinto cada vez mais, inapelavelmente, monárquico.

31 agosto 2005

Olhos em bico




Recebi, perplexo, 64 (sessenta e quatro) emails a propósito de uns comentários aqui lançados ontem sobre um imaginário complot chinês para a perdição dos portugueses. Eliminados os comentários vulgares - os de sempre - retenho três ordens distintas de percepção do problema:
1 - A China é uma ameaça ao Ocidente;
2 - As comunidades da diáspora chinesa são 5ª's colunas;
3 - Portugal só perde com a concorrência chinesa.
1 - A primeira observação é um ersatz das teorias da conspiração, tão velhas como a humanidade. Os culpados são sempre os outros. Esta entrega a terceiros da responsabilidade pelos nossos fracassos é cómoda e impede-nos de resolver os problemas caseiros, exportando as suas causas e adiando a aplicação da terapia conveniente. Ocorre-me o caso palestiniano. Todo o mundo muçulmano vive mesmerizado pela ocupação isrealita dos 15.000 km2 do território palestino. Ora, o "mundo muçulmano", dominado por cliques cleptocráticas que deixam exangues e empobrecidas as populações, direcciona para o conflito israelo-palestiniano todo o ónus de décadas de políticas desastrosas. No caso vertente - o problema chinês - o Ocidente pretende exorcizar a normal concorrência entre o País do Meio e a Europa invocando a suposta falta de lealdade e respeito chineses nas relações com o Ocidente. Este argumento é uma contraditio in terminis, pois se há um tratado de livre comércio de que são signatários os dois espaços económicos, a liberdade comercial é regida pela lei da oferta e da procura. Quanto ao demais, cheira-me demasiado a Dr. Fu Machu para lhe darmos outra dimensão para além da caricatura.
2 - Devem as comunidades migrantes ser absorvidas ou manter alguma diferenciação face às sociedades que as acolhem ? No ordenamento jurídico prevalecente, as minorias étnicas devem corresponder ao acolhimento com a integração. As crianças chinesas frequentam escolas portuguesas e aprendem a nossa língua. Não existindo um "problema religioso chinês", o factor religioso não se coloca.
Pagam os chineses impostos em Portugal ? Pagam. Cumprem as condições para o exercício das suas actividades económicas e laborais ? Cumprem. Devem os infractores ser punidos por actos e práticas contrárias à lei portuguesa ? Sim. Estão ou não os chineses integrados de acordo com os requisitos gerais da lei portuguesa de imigração ? Estão.
Quanto à lealdade que preservam em relação à sua pátria-mãe, não seria descabido interrogar os emigrantes portugueses que vivem no Canadá, nos Eua, em França, na África do Sul e na Venezuela sobre a prioridade de afectos ? Seria pertinente perguntar-lhes se são mais portugueses ou mais canadianos ? Pensem e digam-me, honestamente, o que responderiam.
Quinta- colunistas ? A China quer ocupar Portugal ? A China obterá dessa hipotética legião de espiões algum segredo? A fórmula do pastel de nata ou do caldo-verde?
3 - Sim, só perderemos se aceitarmos a lógica da guerra entre a retrosaria de bairro e a loja dos 300. Portugal tem mais possibilidades de investir e lucrar na China que todos os pobres chineses do Chao Min e do Shop Soey em Portugal. Falta-nos acutilância, capacidade de risco, criatividade. Sei que nos especializámos em cantinas na Guiné-Bissau. Chegou o tempo dos Sousa Cintra, dos Belmiros, dos Mellos e dos Monjardinos se interessarem pelo big business chinês.

Que pena, ó Alegre




O poeta foi prosaico. Esperava-se uma quixotada, saiu-nos uma sancho pançada.
O poeta foi banal. Aguardava-se uma tragédia, saíu-nos uma comédia.
O poeta foi vulgar . Queria ser príncipe e vai ser moço de estribo.
O poeta trocou de ofício. Queriam-no de espada em riste, vimo-lo de chapéu na mão.
O poeta mudou de género. Trocou o épico pelo encomiasmo.
O poeta rendeu-se. Aguardava-se um frémito de licença poética; saiu-nos publicidade enganosa.
O poeta está acabado. Apresentava-se como goliardo, acabou minestrel. Vai trabalhar nos jogos florais da retórica parlamentar.

Triste fim para um poeta, o de ser tomado por aquilo que, afinal, não era: POETA
Conclusão: se não é poeta, evite tanger a lira para não perder as unhas. O poeta perdeu as unhas.
Agora já não nem os dedos nem o estro que lhe valem...

30 agosto 2005

O "perigo amarelo"


Dirigi há meses a publicação de um pequeno trabalho intitulado Portugal e o Oriente: Japão, China, Sião (1840-1940), no âmbito das celebrações do 150º aniversário do nascimento de Venceslau de Morais. Servindo de catálogo à exposição homónima que esteve patente ao público no edifício da Biblioteca Nacional, contou com as colaborações de António Vasconcellos de Saldanha, Filipe Delfim Santos e João de Lima Pimentel, entendidos em estudos orientais.
Sou um interessado pelas coisas do Oriente, pelo que me atrevo contrariar algumas ideias-feitas propaladas com alarmismo estridente, repetindo alguns mitos oitocentistas que estimo particularmente perigosos para o interesse nacional. O "perigo amarelo", hoje de novo repetido à exaustão, é uma dessas superstições baratas que ofendem a inteligência e que pode, a prazo, comprometer gravemente as relações entre Portugal e a China, a anunciada mega-potência do futuro.
Com brevidade, vejamos que "perigo" é esse e que "culpa" terão os chineses nas acusações que se lhes assacam.
1) O perigo das camisolas de algodão: pobre Europa esta que vive aterrada por t-shits de má qualidade. O proteccionismo e o culto das marcas não resistiram, afinal, à tão acarinhada globalização económica. Parece que, para os industriais europeus, o fluxo de mercadorias deveria ser aquele que, nascido sob a revolução industrial e mercê do imperialismo, impunha aos outros mercados a obrigação de consumir os produtos europeus. Ora, que culpa têm os chineses que Portugal se tenha fossilizado no estádio elementar do take off da industrialização ? Como é consabido, a revolução do têxtil é o estádio propedêutico a outros desenvolvimentos. Portugal, por culpa dos seus governantes, não passou para o segundo e terceiro estádios, dado o "25 de Abril económico" o ter impedido. A indústria metalo-mecânica e a indústria pesada foram aniquiladas pelo processo revolucionário, perdendo Portugal a possibilidade de subir para o patamar de sociedade industrial avançada. A culpa é dos chineses ou do Estado português ?
Habituados ao proteccionismo (ainda se lembram dos ovos carregados de caca e das batatas terrosas que as nossas mercearias ofereciam antes da adesão à então CEE ?), o empresário português julgou que se manteria ad eternum o interesse do consumidor pelas camisolas de algodão vendidas pelos ciganos da Feira do Relógio. Continuaram, persistiram e agora têm os mesmos produtos chineses 4, 5, 6 vezes mais baratos a disputar-lhes a clientela. Afinal, os produtos chineses são amigos dos pobres, pois possibilita-lhes aceder a artigos anteriormente especulados.
Com tantos milhões e milhões de Euro investidos em obras faraónicas, nessa cornucópia de obras dignas do Príncipe de Potenkin, não houve tempo para mudar o perfil da nossa industria têxtil, conformando-a aos gostos e exigências do mercado europeu. Os espanhóis fizeram-no, bem como os italianos e os franceses. Nós, não. A culpa é dos chineses ?
2) O mito da invasão chinesa: outra inenarrável estupidez, dita com autoridade por alguns fazedores de opinião e explorada pelo mais reles do sensacionalismo. Os chineses não ultrapassam os 50.000 em Portugal, não roubam empregos aos portugueses, não nos assaltam nas ruas nem mendigam uma migalha da atenção das instâncias sociais do Estado. São um peso ? Não. São uma fonte de instabilidade ? Não. O chinês vive recatadamente, com humildade e esforço, trabalha e defende-se com uma solidariedade familiar que faria inveja a muitos predicadores da "defesa dos valores e da família", pelo que não deveria ser encarado como um perigo mas como um exemplo. O chinês tem um sentido de responsabilidade, de entrega e sacrifício dignos de cópia. Ensinemos as nossas crianças a serem chinesas e metados dos problemas de vandalismo, insubordinação, madracice e caprichos desapareceriam.
3) O mito do perigo amarelo: a China é, quiçá, a única grande civilização não expansionista. Não quer universalizar qualquer ideia absoluta, quer seja esta de natureza religiosa, quer a de uma forma específica de regime político. Os muçulmanos querem-no; os americanos/europeus exigem-no. Os chineses, não. O chinês não pretende impor-se como norma unificadora, antes pelo contrário, quer preservar a sua identidade. Mesmo o mais quadrado dos defensores do etnicismo compreendê-lo-á.
Afinal, que culpa têm os chineses ? A culpa pelo desastre económico e falta de competitividade europeia é dos chineses ou dos europeus ? É, sem dúvida, dos europeus.
Preparem-se agora, pois os chineses já começaram a fabricar foguetões e até puseram um homem no espaço.

Apotegma II

29 agosto 2005

Apotegma I




"Diz-se ter havido um tempo em que os animais falavam. Hoje até já escrevem"
Camilo Castelo-Branco (Polémicas)

Amanhã faço anos: delírio


Amanhã faço anos. Pela manhã, reuno os meus empregados e peço-lhes uma salva de palmas. Já estou como o Tibério: "aplaudam-me porque vos dou trabalho e pão". A casa será engalanada com flores e bandeiras e pelo meio-dia chegam os convidados, prendas na mão e votos protocolares. Desejar-me-ão 100 anos de vida, cálices levantar-se-ão e juras de saúde, prosperidade e sucesso encherão os ares. Amanhã, se fosse César, as ruas encher-se-iam de povo para o pão e para o circo. As feras entredevorar-se-iam em hecatombe para gáudio dos meus convidados. Embaixadores egípcios e gregos arribariam a Óstia e mandatários dos régulos bárbaros entrariam pela Ápia.
No dia do nosso aniversário podemos dar-nos a luxo de pensar que somos o centro do mundo. Depois de amanhã serei, de novo, um Zé Ninguém na fila do IVA, a dar aulas aos filhos dos outros, a obedecer a pequenos tiranos e a sofrer as consequência de ser governado pelos Sócrates, os Costas, os Santos, os Pereiras e os Silvas (que são três).
Delírios !

Queixo na mão e perna traçada


O homem é um animal simbólico. Os padres falam mansinho e ganham sotaque de ruralidade para dourar as sotainas. São os padres da enxada.
Os advogados levantam o queixinho para proferir as mais supinas banalidades com ar de quem deu aulas a Demóstenes.
Os médicos secam por dentro e por fora com aquela gravidade de quem acabou de levantar Lázaro da sepultura.
Os artistas plásticos peroram numa tempestade de palavras sobre um deserto de ideias, fazendo crer aos incréus que estão a ver o que ninguém consegue ver. Tudo isto me leva a suspeitar da cultura, dos "homens de cultura", suas manhas e artimanhas. Como dizia em assomo de honestidade o velho Leonardo Coimbra, "às vezes digo aquilo que compreendo e aquilo que outros compreendem; outras vezes, só eu compreendo aquilo que digo; outras, nem eu nem os outros compreendem aquilo que digo".
A charlatanice anda por aí de bandeira desfraldada e não há cheque careca de erudição que consiga ser apanhado na teia mais fina. Dei comigo a ouvir o Sr. Saramago discretear sobre religião, uma das suas fixações. Os temas religiosos têm uma clientela especial ali para os lados da Av.ª do Brasil, mas com o Sr. Saramago, sem mal diagnosticado, assemelha-se a uma pequena monomania. De mão no queixo e perninha traçada, ali esteve uma boa meia hora a passar cheques carecas de erudição retirada de um manualzeco de Apologética. Aquilo é que é um contador de histórias. Só lhe falta receber o hábito talar, abrir uma baiuca com o Padre Mário e angariar umas dezenas de velhinhas catecúmenas. Saramago parece ser uma redundância de banalidade. Ou não vivemos sob o signo do plástico ?