27 agosto 2005

Dar a cara !




A blogomania trouxe, sem quaisquer dúvidas, uma nova forma de intervenção ao debate público, contornando a unanimidade postiça com que se foi fabricando a conformação, o mito da grande imprensa e a opinião seguidista e domesticada exigida pelos cartéis do pensar correcto. Foi uma conquista da Liberdade sobre a censura; logo, o triunfo dos democráticos sobre os "democratas" dos pronto-a-pensar, das lojas, das curibecas e aparelhos. Estavam habituados à OPINIÃO QUE SE PUBLICA e têm agora a OPINIÃO PÚBLICA. A Liberdade exige homens de coragem, que ofereçam a cara e o nome por todos os textos que julgam representativos da sua visão do mundo e dos acontecimentos. É este o repto que lanço a quem me lê. Não há nada mais decente que assumir plenamente as nossas opiniões. Não há nada mais claro que dizer "aqui estou, aplaudam-me ou
apedrejem-me". Não há coragem mais contraditória que aquela que se profere por detrás de um véu. Ganhar a liberdade exige esforço e coragem.
Não há liberdade onde há medo.

26 agosto 2005

A avó Irlanda vai ser presidente


Maturidade: 89 anos (+ 8 que Soares)
Proficiência em línguas: excelente domínio da língua inglesa [que Soares não domina]
Prendas: toca piano magistralmente, [Soares não dedilha]
Conhecimento do mundo: perita em temas PALOP. Viveu 59 na África Austral e [Soares esteve 6 meses em S. Tomé]
Família: ocupada e não disponível para a Cruz Vermelha, a CML e outras satrapias.

Cidadãos, iniciem o abaixo-assinado para levar a avó Irlanda a Belém.

Ataúde português


Vivemos numa terra de homens importantes. Todos blasonam de um antepassado ilustre, de um título nobiliárquico, de um brasão de armas, de um título académico, de uma quinta, de uma criada, de um primo, de um tio, de um cunhado, uma mulher-a-dias, de umas férias....sei lá, tanta importância em tão pequeno rectângulo que se vai assemelhando cada vez mais a um caixão aguardando por dois palmos de terra.
As grandezas deste Portugal pequenino, sem futuro, entregue aos delírios de majestade fanada, vivendo de pequeninas coisas de proveito e interesse algum, levam-me a querer o exílio voluntário. A vidinha mansa que aqui vamos jornalando, a sensação de rendição ao desfolhar do calendário que vai inexoravelmente levar-nos ao talhão mais próximo, este sentimento de inutilidade de tudo, é um mal que envolve toda a vida portuguesa.
Esta vida que não merece viver, estes autómatos de olhos vazios que connosco se cruzam - todos envolvidos em "projectos" e coisas importantes - levam-me a pensar se o mal-estar, o tédio, o poseurismo frívolo e o provinciano fechar de horizontes constituirão um atributo do nosso povo ou, antes, o triunfo de uma certa forma de encarar a vida. O fadinho - com sol e toiros à mistura, mais Nossa Senhora de Fátima, mais sardinha assada, mais o vinhinho, o concentrado de tomate, o saquinho dos remédios, a "ursula", a "espandilose", a receitinha para a farmácia - compagina com abrilismo, subsidiarismo, parasitismo, lamechices e neo-realismo requentado que comprazem ao nosso povo. Quando olho para um grupo de portugueses ocorre-me a imagem das velhotas de preto do Stromboli ou a total invisibilidade.
Temos medo no andar, no falar, no pensar em voz alta. Medo das nossas próprias mãos, da mão dos outros. Não arriscamos uma opinião, uma crítica, um comentário. Vivemos como baratas nocturnas, fugindo dos passos que se aproximam, da luz que subitamente se acende. É este o bom povo português, esmagado por séculos de Inquisição e polícias, um povo de navegantes que tem medo da água, chora quando faz calor, aterroriza-se quando chove, apavora-se com os trovões e relâmpagos.
Onde está o país dos Albuquerques, dos Gamas, dos Salvadores Correia de Sá, dos Mouzinhos ?

25 agosto 2005

Rodrigo Emílio e Homem Cristo Filho (5)


Teias que Chronos tece e destece...

Como crónica que é — crónica prefacial lhe chamei eu logo ao começo —, está este meu proémio fatalmente acoplado às coordenadas gerais de tempo que o vêm a assistir ou de que é portador; condenado, de raíz, a fazer-se eco das contingências datadas que o viram nascer, como escrito, e que, como escrito, o vão ver morrer. Está-lhes submetido, sujeito a elas, até por definição: crónica é palavra que do grego vem, que da minha bem-amada língua grega procede em linha recta, ou não derivasse directamente de Chronos, o mítico e helénico deus do Tempo, agente e fautor de cronologias e cronómetros. De onde se segue que uma crónica é invariàvelmente produto de malhas que Chronos tece e que tem ela o dever, etimológico, de deixar transparecer, se não de registar.
E o que dito fica da função, papel e importância capital dos complementos — ou suplementos — circunstanciais de tempo, na confecção de uma crónica, vale para os suplementos — ou complementos — circunstanciais de lugar, que em toda a crónica pròpriamente dita estão igualmente intimados a comparecer. Sob pena de faltar ela àquilo que prometeu ser.

Quis o acaso (ou talvez não...), ou alguém por ele — e ele lá sabe porquê —, que os últimos compassos, os acordes finais desta crónica prefacial ao esplêndido ensaio do Miguel Castelo Branco, os esteja eu a aprontar, em Lisboa, paredes-meias com ess’outro cimetière marin que o Paul Valéry não desdenharia cantar e que dá pelo fagueiro nome de Sumidoiro dos Prazeres (assim os prazeres sejam realmente insepultáveis, como espero, e assim haja no céu vida nocturna para tanto, como também desejo...). Relatando e progredindo: ia ou estava eu a ponto de dizer que entro na recta final desta crónica no dia e hora em que Amália Rodrigues está a deixar transferir dos Prazeres para o Panteão Nacional os seus restos (i)mortais, que é bem e é justo que ali morem e demorem pelos tempos dos tempos. Recolhe à Sala Capitular da Língua Portuguesa, como quem recolhe finalmente a claustro, a portentosa intérprete; e, uma vez transpostos os umbrais do templo e lá depositada, vai achar-se Amália em muito boa companhia e fazer ela, também, a melhor das companhias, ao mais rutilante e passional dos seres: ata a fim do mundo, terá à sua cabeceira Camillo Castelo-Branco — glorioso bisavô do nosso autor. Camillo, ele, será desde agora todo ouvidos a esse canto de eternidade à prova dos tempos, que à sua beira se espraiou com o fim de dar ao silêncio asas de xaile traçado, e então, é certo que hão-de os trinados desse canto fazer-se ali ouvir tanger, per omnia saecula, à guitarra e à viola...

Mas é tempo, isso sim, de ir eu próprio metendo a viola ao saco e de dar lugar, sem demora, a melhor repertório — como é aquele que está para vir já aí ao diante desinquietar-nos, no contagiante e brilhantíssimo excurso traçado pelo punho do Miguel, sobre a figura incomparável de FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO. Já agora pouco falta — menos do que pouco, uma coisa de nada — para singrar até lá e estar lá caído, descansem; de tôdolos leitores, sou eu decerto o mais impaciente por que chegue o aleluiático instante de avistar por perto, com o texto que se segue, a Terra prometida deste livro. Prometida por ele, e por ele devida, desde o título.
Mas crónica é crónica e, enquanto dura, vida doçura (ao menos para quem tenha o bom-senso e o bom-gosto de a não ler nem cheirar e de passar adiante .). Quem tino para tanto não tiver e quem assim não proceder, então que me acompanhe, já agora, de volta à Sala da Língua Portuguesa e à respectiva cripta, onde deixámos tumularmente acamados lado a lado, à nossa espera, Amália e Camillo.

O regresso de Dom Camillo — de Dom Camillo Castelo-Branco, entenda-se — ao campo magnético, e de manobras, desta crónica, numa fase em que a mesma começa a entrar em quarto-minguante e se prepara para exalar o seu último suspiro e para render a alma ao Criador, volta a suscitar — por um fenómeno, digamos, de simpatia, ou como que por tracção e arrastamento — a presença e intervenção expressas do meu também e por demais romântico bisavô Thomaz Ribeiro, no amanho e maneio desta lavoura introdutória que estou eu agregando a trabalho da iniciativa de um bisneto carnal de Camillo. Não é nada que já não tivesse ocorrido à cabeça deste mesmo texto. Parece ser sina dos dois vetustos homens de letras e figadais amigos — amigos que um do outro toda a vida foram, amigos como irmãos de sangue, e de destino — não se largarem de mão, nem de vista, nem de nome, um ao outro, ainda quando a imagem que projectam se lhes reflecte e reacende por conta do poder criador, e da interposta e interactiva escrita, dos respectivos bisnetos. E é esse o caso.
Inseparáveis ao longo da vida — até Camillo pôr termo à dele —, dir-se-ia, do bardo e do seu émulo em prosa, não girar o pião sem o baraço, tão entranhados laços vêm a ser os que entretiveram. Aqui e agora, tão-pouco se deixam, como estamos vendo: fala-se num, e logo o outro acode — logo acorre, de caminho, a juntar-se-lhe.
Sobre o sol-pôr da presente crónica, voltam a ela os nossos dois maiores. Culpa de Amália, neste caso (honra lhe seja!), por ter rumado a Santa Engrácia, ao encontro de Camillo, antes de tudo; e mais por se apresentar entretecida de múltiplas afinidades com a de Thomaz Ribeiro, toda a fabulosa existência da fadista: singularmente pontuada de dados e de datas em comum, do princípio ao fim. Desde logo, o dia (e não sei se a hora) em que poeta e cantadeira deram entrada na vida, já que qualquer deles nasceu num dia primeiro de Julho: ele, a 1 de Julho de 1831; Amália, em igual dia de 1919. Depois, o nome de baptismo que recebeu a artista — esse nome por demais emblemático — era, nem mais nem menos, o mesmo — o mesmo nome próprio — que, na pia sacramental, foi dado à mãe de Thomaz Ribeiro. E não é que desta partem para melhor vida em igual dia de Outubro, as nossas duas Amálias?... Dona Maria Amália de Albuquerque, na noite de 5 para 6 de Outubro de 1866; Amália Rodrigues, de 5 para 6 de Outubro de 1999!...

Ora, por ser homónima de minha vaga trisavó (e tia-trisavó) paterna — a mãe de Thomaz Ribeiro chamava-se AMÁLIA, como ela, repito —, ocorreu-me compôr, ùltimamente, e ofertar, de caminho, à própria AMÁLIA RODRIGUES, um fado, ainda inédito, que baptizei, para já (e até mais ver...), de “Poema-Balada das 2 Amálias» e que, acto contínuo, remeti à imortal destinatária e intérprete — teria ela ano e meio de vida pela frente —, com o oferecimento que segue: «Para a voz enfeitiçante de AMÁLIA RODRIGUES, que já um dia vestiu, de forma sumptuosa, versos de meu Pai: os do «FADO DA ADIÇA». Homenagem do Rodrigo Emílio.”
O fado, pròpriamente dito e textualizado, esse, rezava:

Era Amália, como tu,
Uma das minhas avós.
Vim marcar-lhe um rendez-vous
A bordo da tua voz.

Em cada face, uma dália...
Em cada veia, um tinteiro...
Era Amália, sim, Amália,
A mãe de Thomaz Ribeiro.

Mãe de poeta, e avó
d`outro poeta que cantas,
era Amália minha avó
— e bondosa, como só
o costumam ser as santas!

Numa coisa, mete dó;
numa sòmente, entre tantas:
tal como tu, minha avó
era Amália, era. Só
não tinha a voz com que cantas!

Em tudo o mais te imitou,
fina-flor de flor`s e damas...!
Era Amália, sim; e amou
tanto ou mais do que tu amas!

Em cada face, uma dália...
Em cada artéria, um tinteiro...
Era Amália, sim, Amália,
a mãe de Thomaz Ribeiro.

Por ser Amália, lembrou-me
de te dar notícias dela
e de gravar o seu nome
nessa voz de barco-à-vela!

Tão bela, ou mais, que o teu nome
(que era o nome próprio dela),
diz quem sabe — e não o esconde,
que `inda mais bela que o nome,
que tinha e tens, era ela.

Vestia d`azul lusíada:
ao sorrir, franzia a testa...
Era o seu rosto, uma orquídea...
Era o seu corpo, uma orquestra...

Reduzida a cinza e pó,
a sombra de minha avó
risca um vôo de asas brancas...
Mas o vulto que a sagrou,
esse, agora, habita só
álbuns d`imagens e estampas...

Hoje em dia, a minha avó
é uma estampa igual a tantas...!

Vem, de noite, visitar-me;
e, às escondidas da morte,
fascinar-me com o seu charme,
deslumbrar-me com o seu porte!

Em cada face, uma dália...
Em cada veia, um tinteiro...
Era Amália, sim, Amália,
a mãe de Thomaz Ribeiro.

Era Amália, como tu,
a mãe dos meus bisavós.
Vim marcar-lhe um rendez-vous
a bordo da tua voz.
Na tua voz, há um nó
que bem pode erguer do pó,
e tornar inteira e eterna,
a sombra da minha avó:
dessa trisavó paterna.

Mãe de poeta, e avó
d`outro poeta que cantas,
era Amália minha avó
— e bondosa, como só
o costumam ser as santas!

— É na mais firme certeza
de a poderes livrar de ausência
tão soturna como atroz,
que te rogo uma audiência
e aqui te peço eu licença
para marcar comparência
a bordo da tua voz.


Rodrigo Emílio.

(Casa de São José, em Parada de Gonta, à passagem do primeiro centenário da morte de HENRIQUE RIBEIRO, o mais novo dos filhos de minha trisavó paterna, DONA MARIA AMÁLIA D`ALBUQUERQUE, que ao chão da Capela desta Casa se acolheu e que lá dorme, a sono solto, desde há século e meio... Entre 8 e 12 de Janeiro de 1998.).

A imagem de HOMEM CRISTO FILHO já não é mais, agora, uma estampa esbatida, delida e desfocada, como aquelas que guardo de minha avó Amália. É, doravante, um retrato vivo e palpitante, reproduzido d’après nature e restituído à desbordante plenitude do modelo. Mais: é, esta, uma fotosíntese (mental, comportamental e temperamental) tão ou tão pouco bem sucedida, do fascinante e fascizante mosqueteiro, que os traços do seu perfil e o contorno da aventura que incarnou — a aventura de ser jovem levada às últimas consequências — resultam simplesmente inolvidáveis. Graças a si, Miguel, que em boa hora propôs a destino a contemplação de um ser irrepetível. Graças, também, à NOVA ARRANCADA que operou mais este novo prodígio. Graças a ele, que teve, se não o bom-senso, ao menos o bom-gosto de “reaportuguesar Portugal, tornando-O europeu”, em tempo-relâmpago, sem, para tal, ter necessidade de abrir mão da nossa cosmoprojecção transoceânica, pela qual rijamente intercedeu junto dos hierarcas ítalo-fascistas e do próprio Duce, no transcurso da encapelada década de 30. Graças a HOMEM CRISTO FILHO, sim! Graças a ele, a quem nunca será demais agradecer o simples facto de ter existido — e de ter emergido, finalmente, da postiça e forçada hibernação, do eclipse geral e da ameaça de morte póstuma que sobre ele impendiam. Graças a si, está são e salvo. Graças a Deus, Miguel! Graças a Deus!...

Rodrigo Emílio


(Lisboa. Do dia 1º de Julho de 2001 ao 9º dia do mesmo mês e ano)

Rodrigo Emílio e Homem Cristo Filho (4)




De como o Almada viu Aveiro e vislumbrou a sua Avis Rara

Nos livros escolares de soletrar, de antigamente, afiançava-se, a páginas tantas, que o viúvo viu a ave. Almada Negreiros também a viu; e viu-a ele em Aveiro, que é onde aves e aviões devem ser vistos, como o próprio nome dá a entender. Se pretenderem saber como viu ele a ave, venham daí ouvi-lo que não se arrependem. Venham daí:

“Ave... Ave... Lá está! Lá está a ave ao centro das armas de Aveiro! Uma ave sobre céu verdadeiro. Fizeram bem em circundar a ave com o céu e os astros. Nada da terra e nada do mar. O ar e a luz, apenas. É de heráldica feliz. A linda e luminosa região de Aveiro, rica de terra e de mar, não pôde deixar de prestar, no seu próprio escudo, a sua melhor homenagem ao ar e à luz. É prova de gratidão perene! Achamos certo e justo”. Só uma pausa para dizer que nós também. E que também HOMEM CRISTO FILHO, se bem formos a ver, tem muito de ave, ele próprio: de avis rara. E é ou não é ele, também ele, digam-me cá, um ser alígero e luminoso?...
A palavra a Almada, novamente.
Nota, posto isto, e de caminho, o inventor do Dia Claro: “Os xailes das mulheres têm mais de ave do que parecenças com qualquer coisa da terra ou do mar. Mais do que nada, foram, sem dúvida, o ar e a luz que fixaram Aveiro aqui, neste largo de terra mesmo ladinho ao mar. O ar parece mesmo daqui de Aveiro, e a luz, essa, entorna-se aqui por cima, fora de todas as regras de iluminação, esbanjadoramente, milagre do disparate de aprendiz que não estivesse prático em manejar as torneiras da luz. Autêntico milagre do Sol, não ter espírito de economia. Precisamente: mãos rôtas de luz!” Mais uma pausa na transcrição, ainda uma, tão-só para acentuar que as mesmas e espraiadas cambiantes que Almada Negreiros afirma detectar nas alvinitências solares de Aveiro, as espelha e reflecte em si FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO, na medida em que é apanágio também seu estar “fora de todas as regras da iluminação”, desmedir-se “esbanjadoramente” na luz que também ele irradia a jorros, ser, ele, e também ele, um “mãos rôtas de luz”, “não ter espírito de economia” no grau de empenhamento que aplica à luta nem no dispêndio de energias que consome e queima a eito, despesas que o batalhador nato que era tão-pouco contabilizava — tudo, isso tudo o tomou ele, nìtidamente, da totémica abóbada que o contemplou e assistiu na hora de nascer.
“Aveiro” — continua Almada — “não tem fronteiras, nem no mar, nem em terra, nem no ar”. (FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO também não, também ele as não tinha, acrescento eu. Nunca as teve. Fronteiras foi coisa que ele nunca por nunca soube o que fôsse. Nem pouco mais ou menos.). “As fronteiras do mundo não passam por aqui”, jura, a pés juntos, Almada Negreiros. (Não passam por lá, tal como não passam, nunca passaram por HOMEM CRISTO FILHO, considero eu.). “Em todas as direcções, o horizonte ou o zénite estão no infinito”, segundo Almada. E observa ele: “Não há aqui possibilidade de obstar ao além”. (Não havia ali, na zona, tal possibilidade, nem ela existia, arrisco eu, por minha conta, em HOMEM CRISTO FILHO. Ninguém se pode gabar, tanto quanto sei ou julgo saber, de se ter metido jamais de permeio entre ele e o além.). De acordo com Almada: “Todas as alturas, incluída a aviação, serão infrutíferas para abrangermos com a atmosfera esta paisagem de mar e terra, ambos ao mesmo nível e metidos um pelo outro, com promiscuidade, sem os naturais limites da personalidade”. E segue Almada, soma e segue: “Algumas das célebres aguarelas de Turner podiam ter por título Aveiro. Turner, sobre um centímetro de terra na tela punha-lhe quilómetros cúbicos de ar e nuvens iluminadas com aquela extravagância que a imaginação não supera”. (E aqui, há que dizer que FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO é a expressão viva e personificada dessa “extravagância”. É a “extravagância que a imaginação não supera” — em carne e osso, em pessoa, em figura de gente.). De volta a Turner, conclui Almada: “Como as cores mal lhe cabiam no fiozinho de terra, vá de estendê-las pelo ar e pelas nuvens com uma prodigalidade para muitos irreconhecível. Pois vinde a Aveiro: as côres que o ar e as nuvens usam aqui são uma homenagem permanente da natureza ao fantasista Turner. O pior é que a homenagem desbota Turner”.
Desbotará Turner, não digo que não. Por mim, não creio é que desbote ou afecte HOMEM CRISTO FILHO, isso não. Nem pouco mais ou menos que seja. Porventura, não será ele a maior e a melhor homenagem de sempre que Aveiro já prestou a si mesma?... — pergunto.
A resposta quer-me a mim parecer que só pode ser uma.

A comoção rural, em todo o caso, não está com ele, como já vimos; e já vimos que a comoção litoral também está longe de mexer consigo, de conversar com a sua sensibilidade, ao ponto, pelo menos, de prender, de corpo e alma e de alma e coração, ao terrunho natal, o grande coleccionador de exílios que ele foi e eterno candidato a deportado.
Para HOMEM CRISTO FILHO, como para Afonso Lopes Vieira — se bem que por uma ordem geral de razões algo diferenciada —, o euro-território português “é tão estreito que tende, só por si”, e só por isso, “a estreitar as mentes nacionais”.
Um e outro sabem que não é possível defender horizontes ou ideais de imperium com mentalidades de microcosmo; e HOMEM CRISTO FILHO, até por factores do fôro temperamental. O microcosmo não lhe vai a carácter, não está pròpriamente na sua índole, que é naturalmente expansiva, extrovertida e de registo amplamente evasionista.
Vôos de raio doméstico não são lá com ele, não se acomodam de todo em todo ao seu quadro morfológico. Meios e mentalidades miniaturais não são fôrma para a passada — eminentemente cosmopolita — do seu pé de sete léguas; um pé que, para circular à son gré, precisa, no mínimo dos mínimos, de galgar barreiras oceânicas ou de transpôr as escarpas pirenaicas, sob pena de tudo se tornar irrespirável e infinitamente asfixiante ao fundador e criador da Cosmopolia, ao animador da Pan-latinidade.

Antes que uma grave crise de claustrofobia se produzisse ou se declarasse, e um acesso de apoplexia aguda o acometesse, tomou ele a iniciativa — a iniciativa privada — de se pôr a milhas, e de se fazer transplantar, com sucesso, para espaços bem mais amplos e bem mais dilatados horizontes: os da Europa. Os de uma Europa acesamente criadora, diletante e militante, combativa, heróica e combatente, frívola e lúdica, mundana e artiste, que caldeava n’Ela, como em cadinho de crepitante efervescência, todo um profuso e miniante caleidoscópio de escolas, tendências, correntes e não poucas outras manifestações de cariz estético, encaradas também, e/ou sobretudo, como estilos de vida, esquemas-padrão de feição existencial, ubicados à boémia secular da época, tais como o snobismo, o dandismo, o esteto-diletantismo decadentista, e, à mistura com uma boa dose de cabotinismo sócio-literário, um neo-isabelismo de toque maneirista, — fenómenos que encaixavam a primor no figurino geral da personagem.
E o caso é que todas as alfândegas, portagens e aduanas — culturais, sociais, ideológicas e políticas — dessa Europa eruptiva, altamente dinâmica e repleta de fulgores e sensações, mais parecem ser fronteiras abertas de par em par ao cativante invasor, — homem que, em Roma, não é nem se faz romano, porque em Roma, em Paris, em Madrid, onde quer que esteja, faz ele questão de continuar a ser o Português sui generis que foi sempre, mas que o era da cabeça aos pés. Olá se era!...
Embora à distância e geralmente longe, acompanha de perto os múltiplos abalos sísmicos de carácter histórico que se vão sucedendo na sua terra, cada um mais fragoroso do que o outro. E é em função deles que age ou reage. Por saltos. Por sobressaltos.

Ora, por estas — por estas todas juntas — e por outras — quase tantas como estas —, uma coisa há que se torna mais do que elementarmente justo advertir sem dilacções. Esta: se FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO lá acabou, enfim, por emergir do denso apagão interno e da cerrada quarentena que sobre a sua individualidade se abateram (e há que tempos!...), se sempre logrou aflorar à tona do silêncio estridente instaurado à sua volta e que pesava sobre si, aporrinhava a sua imagem como laje de gelo ou como chapa de chumbo, — ao Miguel Castelo Branco o fica, para já, a dever, e nós com ele: ao Miguel Castelo Branco e a esta esmerada bio-narrativa — vibrante e, ao mesmo tempo, rigorosa — que do estaleiro lhe saíu enorabuena, para os prelos redencionistas da NOVA ARRANCADA.

Rodrigo Emílio e Homem Cristo Filho (3)


Têmpera mental e comportamental do retratado

Viveu HOMEM CRISTO FILHO a cem-à-hora e morreu à mesma velocidade, ceifado do firmamento temporal e espiritual em que gravitava, quando justamente mais fulgôr emitia.
O aerodinamismo alucinante do seu estilo de ser e da sua arte de estar, ao mesmo tempo, em toda a parte, à queima, sempre em brasas e de partida para outra, ou é impressão minha ou dir-se-á ter tido o alto poder de contagiar vivamente a pauta da própria composição escrita adoptada, nesta obra, pelo cronista que a rubrica, imprimindo ao fraseado do relato um andamento tal, um tal élan e cá uma destas senhoras pedaladas, que chega a ser, com frequência, galvanizador de ler.
Daí que bem possa dizer-se que o presente trabalho é uma peça textual aliciante — e, não raro, empolgante —, a bordo da qual “se viaja bem e depressa”, conforme acentuaria o António Ferro. Até por isso, se pode também dizer, do discurso plasmado nesta fotonarrativa, que o mesmo reproduz, à letra, o bulício electrizante e a trepidante e pegada roda-viva em que toda a vida andou metido o incendiário jornalista e homem de acção.
Distinguiu-se HOMEM CRISTO FILHO, lá mesmo onde o direito de admissão mais reservado era, — distinguiu-se... e logo se extinguiu.
Se o contra-quilómetros não tem dado conta dele, como deu, o conta-quilómetros cardíaco não o teria poupado por muito mais tempo.
Primo-expoente consumado de uma nova e intemerata casta de espíritos fundadores e resolutos, que segregam o mundo como representação da vontade, se não como projecção operativa da mesma, e que como tal o vão talhando à medida do seu querer, cientes de que querer é poder e de que crer também o é, não o é menos: crer é saber — e eles sabem-no —: saber a fundo, de fonte limpa e segura, de ciência certa e absolutamente infalível; protagonizando, inclusive, à sua conta — e sem conta, peso e medida o evidenciando, no espírito de apego e entrega à causa que cedo abraçou e à qual acabou por morrer abraçado —, uma das mais viscerais, fulgurantes e irresistíveis vocações ideológicas que já algum dia terão medrado em solo indígena, — o que é certo, o que é facto é que, não obstante esta sua folha toda de serviços e o supra-somatório de singularidades extra que reunia em si, FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO permanecia, até ao momento, literalmente cindido da vista e do ouvido do vulgo aborígene, mais do que de largos sectores da euro-estranja onde ainda agora se lhe vai rendendo culto aturado, e onde as vias de acesso ao conhecimento dos pensamentos, palavras e obras que produziu estão longe de se terem tornado (ou de jamais terem sido) inobtíveis, como pràticamente o foram sempre em Portugal, até ao advento da tese que estamos apresentando. Mais: até à data, o nome de HOMEM CRISTO FILHO jazia soterrado a mil braças de profundidade, nem de pouco lhe valendo (quanto mais de muito ou de qualquer coisinha que fosse!), não lhe havendo rigorosamente valido de nada, a aura de notoriedade, o halo de prestígio, de sucesso, de renome e a cota de visibilidade coruscante que adregou alcançar, por mérito próprio e de mais ninguém, com a reputação que granjeou, e que conquistou a pulso e a justo título, por essa Europa (quase) toda a cabo!
Configurando embora um dos mais invulgares destinos humanos, e um dos mais vertiginosos também — e de mais alto-risco —, que já por cá abeberaram; fenómeno ímpar e primus inter pares, de vitalidade ontológica, e caso nunca por nunca visto, entre nós outros, em todo o século que passou, de rasgo, dinamismo e autenticidade (com uma única excepção a abrir: a que é devida, na minha fraca e modesta, mas pessoalíssima opinião, ao vanguardismo desbordante do seu émulo António Ferro); homem capaz de remover montanhas e de as obrigar a parir mais do que uma ou outra ninhada de ratos iguaizinhos ao da fábula ou ao Mickey de certos desenhos (des)animados altamente desanimadores..., — cometeu FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO o múltiplo e nefando crime de incarnar, num viveiro de gente caduca, a inovadora aventura de ser jovem, e de não ter abdicado dessa jovialidade, nem quando a morte lhe saíu ao caminho e o colheu, à falsa fé, na plenitude da vida, já que pertence ele, hic et nunc et nunc et semper, ao número dos mortos que não envelhecem. E, depois, incorreu HOMEM CRISTO FILHO num outro e não menos inominável crime: o de se perfilar como titã em terra de lémures, e em tempo deles, conforme diria o Junger; o de se comportar e conduzir como tal sem folga nem descanso, ao ponto de parecer directamente saído das mãos e do imaginarium de Swift para se entrosar em Portugal como Gulliver no país de Lilliput e botar figura de colosso no meio de nove milhões de anões. (Se em terra de cegos quem tem um olho é rei, ele, que tinha dois, e cada um mais vivaço do que o outro, reinava, imperava duplamente. De fóra-parte que fôsse...).
Em estilo e estatura, atentou HOMEM CRISTO FILHO, de forma sumamente ofensiva, contra a pequenez ambiente e envolvente, ao revelar-se ousado e decidido no seio de uma população formada e constituída à base dos tíbios que Deus rejeita e que a porca suína da política mete sempre ao bucho.
Falta juntar a este imperdoável rol de crimes sem remissão, um outro ainda, praticado por ele em permanência: o de se afirmar activo e eficaz no reino da inércia e dos ineptos.
É este o HOMEM CRISTO FILHO que ressalta das páginas impressivas que o leitor tem aí ao diante à sua espera.

Com alma de precursor e de vindouro, não cabe o monografado na caixa social, mental e até mesmo paisagística da Aveiro natal. Extravasa dela(s), desde logo. Demais a mais, a comoção rural não está com ele, nunca o esteve, como esteve (e estaria...) com o Sardinha, por exemplo — e com tantos, tantos mais, com tantos outros! —, para o agrafar medularmente aos vínculos e liames, de raiz telúrica e sanguínea, consubstanciados no genius loci das origens.
Não. De facto, não: nem a comoção rural o habitará ou agitará mìnimamente, nem o abalará tão-pouco, que se saiba, a comoção litoral, intrínseca ao décor que lhe talhou o berço, essa, inerente a ele, e como que magnèticamente transmitida, como que màgicamente comunicada a quemquer que de Aveiro se abeire.
O Almada, por exemplo. O Almada que o diga. E é que nem é tarde nem é cedo para isso, porque vai já ele dizê-lo, na forma do costume. Prodigiosamente. Conforme se verá.
Num trecho atinente às “Primeiras Impressões” que colheu de passeio e de passagem por lá — trecho que o António Manuel Couto Viana, mais uma vez ele, salvou da obscuridade, ou até do eclipse, e fez afixar na montra de uma sua sumptuosa antologia —, nesse primor de texto, desmonta e decompõe Almada Negreiros, como só mesmo ele seria capaz de fazer, a simbiose de elementos naturais e sobrenaturais que ali convergem, o espectro de aéreos e luminosos sortilégios que Aveiro prodigaliza, o feixe de resplandecentes transparências que concita e concentra, e que concorrem para o maravilhoso da apreensão que Almada faz do miraculoso cenário.
A par disso, faculta e fornece Almada Negreiros, sem mesmo o saber, preciosíssimas chaves e um bem sortido leque de pistas para a decifração — mais que não seja, parcelar — desse fenómeno humano lampejante que foi FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO.
Dados não faltam, para tal, consoante vai ver-se já, no portentoso texto de Almada. Tudo depende do tratamento que nos merecerem essas poucas de achegas e aportações. Convém não as deixar exorbitar da utilidade funcional que podem ter, bastando, para isso, convocar a capítulo os pontos cardiais aduzidos no texto do incrível Almadense e ter, então, a sábia e elementar precaução de os não mobilizar senão como contributos instrumentais, de cariz subsidiário, para a descodificação cortical da figura e percurso, envergadura e destino, de FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO, e nada mais.
Quer-nos realmente parecer que o contorno geral da silhueta que o Miguel Castelo Branco em boa hora colocou no nosso ponto-de-mira não tem nada a perder, e pelo menos algo ou até bastante a ganhar, com mais esse género de abordagem. De pronto se verá que tanto a insustentável leveza deste ser impertinente e pertinaz, como a fogosa cadência de son allure e o recorte incandescente do seu perfil de lidador insano, adquirem logo um substancial acréscimo de nitidez se FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO também fôr tomado como produto e portador de algumas das componentes e envolventes geo-ambientais incursas no seu habitat mesológico — atributos do fôro, sobretudo, da feeria, do alado e do volátil —, sinergias que ele bebeu, captou, incorporou, afeiçoou a si, e que há-de, ao depois, transportar consigo o tempo todo — até nas asas de Mercúrio que se diria ter nos pés e que o fazem chegar sempre, num ápice, num instante, a todo o lado, conferindo-lhe como que o dom da ubiquidade; até na reverberação dardejante que alimenta o febrão sonhador e a inapagável combustão daquele olhar incessante e obstinado...
A par e para além de tudo, foi HOMEM CRISTO FILHO uma espécie, também, digamos, de viva fotosíntese desse alquímico acervo de élans e de centelhas com que o horizonte natal, por deferência especial, o cumulou, e de mais umas outras quantas purezas em depósito, que fizeram dele o bólide que foi, o faíscante meteoro que acabou por ser, cometa humano esfuziante que, num abrir e fechar de olhos, cruzou a sensaboria do nosso firmamento, para o alumbrar a transfigurar com o advento e a instauração de uma era novinha-em-folha: a do sonho em acção.

Rodrigo Emílio e Homem Cristo Filho (2)





Diz-me de quem falas, dir-te-ei quem és e o que vales

A simples escolha de HOMEM CRISTO FILHO para epicentro, sujeito e objecto desta tese de dissertação, é, logo em si, um título e um certificado geral de garantia quanto à sageza do Miguel Castelo Branco, um auto-atestado de competência e de lucidez absolutamente a contrapêlo de ventos e marés, uma certidão de habilitações a toda a prova, em toda a linha.
Subtrair, à vala-comum dos obliterados, o rosto incomum, de um nome já de si bastante fora-do-comum — que, se silencioso andava, mais silenciado tenderia a estar — e contar à gente a história enfeitiçante que ele teve; disputar às vagas do olvido, em que artificialmente haviam submergido, e trazer de volta para o proscénio cultural e da História, as linhas do perfil senhorial de um activista de ponta, que deve e merece, como poucos dos nossos pré-contemporâneos, ascender ao galarim dos memoráveis, é iniciativa que denota desde logo sagacidade de lince, a par de um superlativo instinto de caça ao homem certo na hora certa; empresa que remete para o apurado sentido de reparação histórico-cultural, do investigador que a tomou a peito, e para a alta cirurgia do seu modus operandi.
Vem a ser esta, que o Miguel tirou — que ele acaba de tirar, com distinção —, uma especialidade caída em desuso ou a caminho disso... Consiste em deambular por “entre as brumas da memória, ó pátria!”, remotas ou mais recentes que sejam, tanto dá, jornadear através delas — mas não a passo de antílope, isso não, digamo-lo já, nem pròpriamente como gato por brasas, e menos ainda, muito menos como cão por vinha vindimada: frequentá-las, sim, em palpos de prospecção e vistoria ao que tenham deixado as brumas mergulhar na sombra ou no sfumato que projectam; revistar bruma atrás de bruma com òlhinhos de ver, consultar e compulsar as mesmas, uma e outra vez, revolver e vasculhar de comble en bas o mais ou menos inextricável maciço que elas formem, passá-las e repassá-las ao pente-fino da inspecção e da pesquisa, submetê-las ao crivo da razão aferidora, sujeitá-las à prensa do juízo crítico; examinar e visionar a fundo, a eito, à lupa, a teoria de hiatos e de huecos, de sonegações e de expurgos, detectada durante a expedição e anotada, minutada ao longo dela, marcar falta agravada aos elementos não comparecentes, bem como aos agentes geradores dos desvios e desvãos que ao correr do traçado se houverem sinalizado e ficado sob registo, promover a listagem de uns e de outros e, do meio das brumas, tratar de exumar, enfim, os seres de excepção lá retidos, e a que tenham tentado as mesmas dar sumiço. Ir lá por eles, ir até lá, a resgatá-los das alfurjas e “brumas da memória, ó pátria!” para onde se tenham visto remetidos, agindo sempre no sentido de proceder e de prover à sua plena desocultação, até os patentear a céu aberto, tendo em vista o serviço de utilidade pública que representa, que comporta essa purificadora e laboriosa operação de recuperação, restituição e salvamento.
FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO foi mais ou menos assim que cobrou forças para aceder à nova e renovada vida que o espera, a partir de agora, com a simples declaração a público deste livro — deste livro apaixonante e não sei se apaixonado. O leitor dirá...

Eu, por mim, não começarei se não por dizer que a vedeta deste estudo se me estampa em cheio na menina dos olhos por transportar com ela os traços tipológicos que mais prezo: HOMEM CRISTO FILHO é um desses rebeldes puro sangue, que fizeram sempre o meu encanto e que sempre me encheram as medidas... e os olhos de lágrimas, inclusivamente.
Nisso, como em quase tudo mais, está ele, infelizmente, nos antípodas da média geral de gente que a actual direita portuguesa continua a privilegiar, varrendo para dentro dos seus próprios arraiais toda a sorte de broncos e calinos, como se essa fonte de recrutamento já agora não estivesse plenamente satisfeita, e ainda precisasse de ser reabastecida; como se não fossem já suficientemente tôscos, boçais e ronceiros os efectivos gerais da sobredita direita. Uma direita, essa — não me canso de o dizer —, com movimentos mentais tão empenados e tão ou tão pouco empezinhados que dir-se-ia padecer ela de uma espécie de prisão-de-ventre mental de tipo renitente e sei lá se maligno, sei lá se indebelável...
FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO era o contrário disso tudo — ele, e o seu monógrafo também, valha a verdade. Para um, como para o outro, operar e discorrer nunca foram motivo de embaraço, e sim, de desembaraço: de grande desembaraço.
Se querem mesmo que lhes diga, FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO sempre se me recortou na retina mental como o primeiro moderno representante que o nosso nacionalismo, de linha tradicional-revolucionária, teve o bom sestro de gerar.
A direita desinibida e desenvolta a que estruturalmente pertenço (e a que pertence, igualmente, louvado seja Deus!, segundo julgo saber, o Miguel Castelo Branco) descende directamente do faseado e agitado itinerarium deste agitador nato; revê-se nele(s) como no espelho de um rectrovisor; tem, no vulto do euro-aveirense, e na sua fotogenia de homem das Arábias sediado urbi et orbi, um dos seus marcos de referência tutelares.
A muito antiga direita portuguesa só com HOMEM CRISTO FILHO principiou a ser moderna; e não foi senão com ele — e com António Ferro, verdade seja — que o nosso nacionalismo começou a ganhar aquela consistência poliédrica ou poligonal que, até então, não possuía.
É FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO, a meu ver, quem primeiro lança, entre nós, os fundamentos — e quem primeiro, entre nós, delineia, também, o firmamento — de um nacionalismo de longo curso, que deixa nas lonas o de via reduzida; um nacionalismo de largo espectro, dotado, finalmente, de cabeça, tronco e membros, quer dizer: com princípio, meio e fim... e pernas para andar, como fenómeno, como doutrina e como destino. Um nacionalismo, que se quer ou que se declara: tradicionalista, do ponto de vista histórico; aristocrático, do ponto de vista espiritual; cosmopolita, do ponto de vista estético; justicialista, do ponto de vista social; revolucionário, do ponto de vista ontológico; vanguardista, do ponto de vista cultural.
Estava escrito que FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO acabaria os dias a propugnar um romanoromantismo apaixonado. Tentar inscrever conteúdos fascistas na órbita de regimes com invólucro monárquico, foi a última luta que travou, e bem, este incondicional sequaz do malogrado Presidente-Rei Sidónio Paes, este lusitano delfim de Mussolini. Nacionalista por princípio, monárquico e fascista por conclusão, — ninguém mais habilitado para saber, do que ele — para saber como sabia — que a componente fascista ou fascizante não só não neutraliza nem invalida o monarquismo ou o nacionalismo de ninguém, como até os reforça.Se há preceitos de validade permanente, este é um deles.

Rodrigo Emílio e Homem Cristo Filho (1)



Em meados de 2000 telefonei a diversas editoras, sondando-as para a possibilidade de editarem a tese de mestrado em Cultura e Política intitulada Homem Cristo Filho: do Anarquismo ao Fascismo, que defendera anos antes na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Sem resposta, entrei em contacto com a Nova Arrancada, então animada por António Cruz Rodrigues e por José Luís Henriques.
Receberam-me de braços abertos e disponibilizaram-me todos os meios. Foi nas instalações da Editora que reencontrei o Rodrigo Emílio, por quem tivera sempre uma enorme admiração pessoal e literária. O Rodrigo ofereceu-se de imediato para prefaciar a obra, mas contratempos impediram-no de terminar o seu trabalho a tempo de poder acompanhar o meu texto. Há dias, o nosso caro Bruno Oliveira facultou-nos o texto do Rodrigo. Fiquei comovido, pois não sabia quão excessivo e benevolente era o Rodrigo na apreciação dos amigos. Roproduzo hoje o texto - que vale bem mais que o meu Homem Cristo Filho - como tributo a esse grande ausente a que futuros estudos da história da literatura portuguesa no século XX farão justiça. Afinal, a minha relação com o Rodigo não era nova. Era de família, e já durava há mais de 100 anos.


"FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO E O FASCÍNIO DO FASCISMO, NO LIVRO D’UM PANORAMISTA FASCINANTE


Crónica prefacial de Rodrigo Emílio


"Diz um velho aforismo romano que “pelo dedo mindinho se (re)conhece o gigante”.
Creio que, em português corrente e escorreito, será esta uma, entre tantas outras formas ou fórmulas possíveis, e igualmente boas, de plasmar o teor do sábio e saboroso rifão do Latium, o que não isenta, ainda assim, o translator do mesmo, do indeclinável e elementar dever de refundir, no metal nativo, o enunciado verbal da máxima com todas as (suas) letras. Que, ao mais, não são muitas...
E volto ao ponto: não há rectrovertor, por mais encartado ou por mais pintado que ele seja — e não é decididamente o caso deste que têm por diante de momento... Longe disso...! — a quem assista o tortuoso direito de deixar ficar em branco esse indeferível trabalho de casa, de se lhe eximir e/ou dele pedir escusa. Aferir e conferir correspondências linguísticas, por parte de quem as propõe a destino, é matéria que reclama sempre, e desde logo, jogo limpo — jogo límpido.
Em meu pronto-socorro aí vem, já de caminho, D. João da Câmara, homem que sabia da poda como poucos outros, e que me cai, na circunstância, como sopa no mel, em virtude de ter lapidarmente advertido, um dia, que “Há milhentas maneiras de dizer”, ou de transpôr, “uma coisa. A melhor é a única boa.”, declarava ele. E é. Não há outra que a valha ou equivalha.
Ora, trocado em miúdos e vertido, convertido que seja, à taxa de câmbio da Antiguidade Clássica, afiança o venerável ditado que “ex digito gigas”.

Deu-me na tineta para inscrever, à testa deste texto, uma tal sentença, por ter ela directamente que ver com as primeiras abordagens que fui servido fazer do prefaciado, há-de haver uns dois a três lustros bem estirados, era ele, por então, menino e moço, sem favor, mas a agir, a pensar, a falar e já a escrever como gente grande... que o não fosse. Um menino sabedor entre doutores horroris causa...
Não tinha o Miguel começado senão a despontar pùblicamente para as lides da intervenção politico-cultural e da criação pura ou aplicada, quando alguém — que tirou, em novo, a alta especialidade de saber o que é bom, e o que é mais ainda: de saber render culto ao que é bom ou do bom e do melhor — fez a fineza de presentear-me com a “tranche” de uma palestra proferida, dias antes, em Lisboa, pelo jovem que então era, e seria..., e ainda é hoje, o nosso autor.
O trecho que, da sua conferência, me tinham regalado, não ia além de um magro troço da mesma. Mas essa amostra com valor, e não sem ele, deu logo para avaliar da excelência do pano a que pertencia. E por isso vos dizia, ainda há pouco, há poucochinho, que, pelo dedo mindinho, se (re)conhece o gigante. Ex digito gigas...

Daí por diante, nunca mais perdi eu de vista o traçado ascensional do seu percurso, o espírito inovador do seu discurso, a presença de espírito que, em permanência, assiste e subjaz os pensamentos, palavras e obras (literárias, e nem só...) que promove ou potencia, o brilhantismo, clarividência e a eficácia da acção que tem ele desenvolvido em múltiplas frentes de debate e de combate, de duelo e de diálogo consigo e com os outros, em suma: a esclarecida e esclarecedora proficiência do seu polivalente magistério, e o mais e muito mais que me coíbo, para já, de enunciar por extenso.

A respeito da arte de dar na vista e de dar no ouvido

Miguel Castelo Branco possui, de resto, a real particularidade — que cada vez mais incomum se vai tornando — de me dar na vista e no ouvido sempre que escreve ou toda a vez que fala, proezas que só um, mais dois ou três (se tanto!) dos seus jovens semelhantes se podem gabar de alcançar junto de mim, hoje por hoje.
Aqui há anos — nunca mo esquece! —, estava eu congediado a penar de grande nas babeis da Alta-Beira, quando me entra televisivamente pela casa dentro a imagem do Miguel Castelo Branco, abancado, na circunstância, a uma mesa-redonda, que, por sinal, me pareceu logo oval à brava. Passava por ser redondo, passava, o dianho da távola, mas ou a trôpega vista que vou tendo me deformava as coisas, ou apostaria que a mesa era bastante mais oval do que redonda. Oval como um ovo de Colombo!
A ela sentados — mal sentados, como de costume: nunca souberam estar a uma mesa, oval que fôsse... —, cinco ou seis indigentes mentais, com pretensão a usufruírem de um estatuto que estava fora do alcance de qualquer deles: o de se arvorarem em interlocutores do Miguel. Mais: o de quererem armar em seus contendores e contraditores encartados.
Eram tão parecidos, face ao Miguel, como meia-dúzia ou meia-dezena de ovos chocos, de ovos chôchos, de ovos moles, face a um espeto acerado e cintilante.
O Miguel Castelo Branco correu aquele naipe de falsos trunfos a piparote, assestando réplicas doutrinárias fulminantes e certeiras, sobre todos e cada um deles.
Resultado: entre mortos e feridos ninguém ali escapou ileso, a não ser o Miguel, que intacto e imperturbável se mantinha, depois de ter levado às cordas o círculo oval dos seus antagonistas e de os ter feito ir, variadíssimas vezes, aos arames...!
Ninguém como ele mereceria ter ouvido uma ovação de estrondo à mesa oval em peso...
Tributou-lha, decerto, o auditório... E eu com ele.
Passados tempos, voltaram a pôr outra vez o Miguel à mesa, e a pôr a mesa ao Miguel, para o repasto ideológico que é de tom servir à boca dos écrans que vamos tendo...
A sobremesa ficou, mais uma vez, por conta dele. Do espeto. Para não variar, de novo se bateu a um pratinho de doce de ovos — de trouxas de ovos moles, melhor dizendo —, que devia estar uma delicia. O Miguel Castelo Branco, que saboreou sòzinho toda aquela gemada, e que com ela se deleitou e delambeu a olhos vistos, é que pode dizer...

Malhas que Chronos entretece...

Miguel Castelo Branco e o cara que estas normas de prelúdio está urdindo e está tangendo, chegaram à fala en propre personne, pela primeira vez em dias da vida, há-de haver para aí meio-ano (ou nem isso...).
O gosto que fiz em dele me abeirar e em poder abordá-lo ao vivo, questioná-lo, enfim, de frente, cara a cara, olhos nos olhos, ouvi-lo e interpelá-lo de viva voz, é da ordem do incalculável, e tem que ver isso, creio eu, primordialmente, com uma bela e abastada herança, como vem a ser aquela que nos concerne e nos transcende, aos dois, baseada que é num tesouro de afectos e afinidades ancestrais anteriores e superiores a qualquer de nós. Em termos sucintos e muito concretos: ambos somos bisnetos carnais de duas frondosíssimas figuras literárias decimonónicas, toda a vida ligadas entre si por indestrutíveis laços de estima e de admiração recíproca. A saber: Camilo Castello-Branco, segundo avô do Miguel, e o por demais romântico poeta Thomaz Ribeiro, meu bisavô paterno, eram amigos-como-irmãos; foram-no para a vida e para a morte.
Se o bom-senso não estava — nunca esteve — pròpriamente do lado de nenhum, o bom-gosto, esse, contemplava Camilo a quase cem-por-cento e não deixou de assistir também o bardo político, se bem que em doses e bases percentuais infinitamente mais comedidas. Foi este, de resto, a suscitar, sem querer, a escaldante questão do “Bom-Senso e Bom-Gosto”, em que Camilo se envolveria por isso mesmo, só por isso, nada mais que por isso e por mais nada, não se lhe dando de estar, dessa feita, a militar ele do lado errado, comprometido com uma causa comprometedora, porquanto estèticamente insustentável. Mas o descomunal polígrafo era assim e assim mesmo (honra lhe seja!): capaz de defender o indefensável, por mais indefensável que o indefensável fôsse, se imperativos de toque afectivo a tanto o obrigassem. Era Camilo fidalga e figadalmente amigo do seu amigo a esse ponto! Inimigos de amigo seu, seus inimigos mortais passavam a ser. E em se tratando de Thomaz Ribeiro, pior um pouco: a coisa, para ele, fiava ainda muito mais fino, nesse caso. Que querem?!... O génio irascível do senhor Visconde de Corrêa Botelho teve um apara-raios permanentemente às ordens, a receber-lhe as descargas estentóreas e a aveludar os ribombos e coriscos de que eram as mesmas portadoras, na pessoa do vate, — dele, sim, pois de quem mais é que havia de ser?!... No meio da pouca sorte toda que sempre teve, teve o romancista a sorte — a sorte grande — de ter tido um pára-choques assim, ao seu dispôr, na pessoa de Thomaz Ribeiro — que foi, de facto, de longe, e sem favor, o mais atento, constante, paciente e devotado Confrade, Confidente e Amigo intimo de Camilo. Entre outros eloquentes testemunhos disso mesmo, atestam-no, à saciedade, as primorosas e humaníssimas “CARTAS DE CAMILO CASTELLO-BRANCO A THOMAZ RIBEIRO”, declaradas a público pela Portugália Editora, a bordo de uma recolha aliciante, da responsabilidade e iniciativa de minha prima e tia-avó, Branca de Gonta Colaço, que coligiu e introduziu magnìficamente esse epistolarium, e o fez imprimir em 1922.
A devoção a Camilo e por Camilo, da parte do meu ramo paterno, não se extinguiu nem secou, esgotou ou morreu com Thomaz Ribeiro, tendo continuado a ser timbre de pràticamente toda a sua sanguíneo-literária descendência, até mim, — mas muito particularmente por banda de meu homónimo pai, Rodrigo de Mello, crítico, poeta, dramaturgo, e ele, sim: camiliano inveterado, camilista e camilianista impenitente. Nesse aspecto, ao menos nesse, lia ele, e também ele, pela mesma cartilha do avô Thomaz Ribeiro. A retoma desse velho culto ganhou, inclusivé, rosto, corpo, alma e expressão numa das três colossais e paradigmáticas antologias críticas que deixou prontas a publicar e que, à semelhança de todo o seu espólio, ainda agora se mantêm inéditas, cabendo acentuar que cada uma das mesmas se apresenta precedida de um inestimável e singularíssimo antelóquio ensaístico sobre o perfil criador da personalidade seleccionada e o significado textológico da obra em apreço ou da matéria abordada.
Camilófilo como era, camilómano que foi sempre, mal pareceria — e mal feito fôra — que um desses monumentais estudos antológicos não o tivesse consagrado ele a “CAMILO”.
Assim fez.
(À atenção do Miguel Castelo Branco — e, também, à do João Bigotte-Chorão, que sobre o torturado de Seide continua a dar cartas —, a existência deste corpus textual criterioso, sem paralelo no seu género e de capitalíssima importância, a premência de incorporá-lo, quanto antes, aos espraiados anais da camilografia disponível, a excelência, em suma, de um trabalho de tomo que imensa falta lhes faz, e a nós, por tabela: a todos nós, os do ramo.).

E entro, finalmente, no sumário da matéria afixada a publico no frontão deste livro, não sem antes dizer, mais ainda, e só mais, o seguinte: Camilo e Thomaz Ribeiro prefaciaram-se um ao outro por mais do que uma vez. Os respectivos bisnetos dá ideia de não quererem por nada ficar-lhes atrás, e começam agora a imitá-los nesse ponto. Palpita-me que não haverá quadro mais grato de mirar, aos olhos tutelares dos dois nossos letrados avoengos, do que verem-se, um e o outro, projectados em nós outros, cento e tal anos depois de haverem deixado os caminhos deste mundo e de se terem alado aos do Reino dos céus. E quem, afinal, tornou possível tudo isto foi o próprio Miguel Castelo Branco quando quis passar pelo escusado e bem escusado vexame, a desnecessária afronta, a suprema injúria de dar, a esta obra preclaríssima, tão fraco e indesejável anfitrião. Valiosa como é, merecia ter a mesma melhor sorte... Por mim, não me dispenso de declarar, já e sem demora, que é com toda a honra, com todo o orgulho... e sem nenhum proveito para o Miguel, que eu marco comparência no atrium do seu livro. Assim me ajude Deus, e toda a benta côrte celeste, a não ficar aquém do que quero dizer e do que o Miguel merece ouvir: ele e o seu biografado, bem entendido.

Tal como qualquer outro habitante do planeta político ou literário, também HOMEM CRISTO FILHO não estava eventualmente livre ou a coberto de atrair sobre si — mais tarde ou mais cedo — a atenção profanatória, se não mesmo difamatória, de algum cronista de ocasião, com alma de toupeira; a duvidosa curiosidadezinha de um ou outro tarèfeiro da vida alheia, doublé de falsificador profissional; a solicitude despeitadita de um ou outro perito em falsos testemunhos, beneditino e malévolo, deferente e rafeiro, caviloso e aplicado.
É de ter por certo e adquirido que ele seria, no entanto, o primeiro a reagir, se se visse confrontado post mortem com uma situação do género; e também, garantidamente, seria o primeiro a prescindir de semelhante demonstração de interesse pela sua ilustre pessoa, o primeiro a dispensar perfeitamente essa atenção, se tal e tamanho fosse o preço a pagar.
... E talvez por pressentir, talvez..., ou talvez por bem saber — por já saber, lindamente — que todo o homem biografado a título póstumo é, no geral, um homem duplamente liquidado. (Só mesmo por acaso ou por um bambúrrio da sorte o não será.).
Estaria nesse ponto ele — como, aliás, em muitos mais —, plenamente de acordo com Henry de Montherlant, quando o mesmo considera que “é preferível não se ter vivido, a ser um homem de quem se escreva, depois de morto, a respectiva história”.
E não estaria naturalmente menos de acordo com Oscar Wilde, quando este adverte que “entre os amigos e admiradores de um (grande) homem, há sempre, como no meio dos Apóstolos, um Judas: o que põe por escrito a sua vida”.
No caso concreto de HOMEM CRISTO FILHO, a sorte sorriu-lhe, sob esse aspecto, por ter tido a tratar dele a caneta ideal — e a mente indicada. Ao menos nisso, foi afortunado.

Tão mais bem-sucedido — com esta obra, que o concerne — foi FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO, quanto é certo que não se limitou o autor da mesma (e já não seria isso coisa pouca...) a tirar, nela, o retrato — um expressivo retrato, e retrato de corpo inteiro — ao carismático polemista.
Não. Miguel Castelo Branco foi mais longe e mais alto, mais fundo e mais além, tendo acabado, sim, por consumar todo um luxuriante cosmorama, um poderoso e fervilhante afresco, um miniante e abrumador painel, em que se estampam e retinem nada mais (ou nada menos) do que cerca de sessenta anos interseculares da História de Portugal e da Europa, que bem nevrálgicos foram, por sinal, — já no plano político-factual, de cariz militar ou de teor diplomático, já nas áreas da fenomenologia sócio-ontológica e estético-científica, já assim nos domínios da filosofia antropológica e dos tropismos geo-ideológicos, de tónus estrutural mais criador e/ou de mais densas consequências práticas.
Nesta sua belíssima produção, o panegirista de HOMEM CRISTO FILHO acabou assim, pois, por projectar, em pano de écran-gigante, um filme documental de fundo, cheio de acção, e uma sequência de grandes-planos epocais, desde onde ascende, sobressai, avulta e se alevanta, sobrepairando tudo e quase todos, como um grande isolado — que o era, afinal, pelo selo do seu mesmo génio pessoal de franco-atirador incorrigível —, o retrato de HOMEM CRISTO FILHO. (Épocas há, em que o melhor soldado regular é o franco-atirador. Em época disso mesmo, foi esse o caso de HOMEM CRISTO FILHO, que toda a vida se conduziu, e bem, como free lancer, quantas e quantas vezes condenado a dar o corpo e o talento ao manifesto, cercado de ninguém por todos os lados...)
Um acabado e insinuante retrato é esse que o Miguel obteve, pois, de FRANCISCO HOMEM CRISTO FILHO. E se, como retratista, não é fácil fazer igual e é difícil fazer melhor, como panoramista é que o Miguel Castelo Branco explode mesmo. Explode e esplende.
As páginas de caracterização da atmosfera-ambiente finissecular, bem como aquelas que contemplam a intrincada teia-de-aranha sócio-ideológica em que se inscrevem os mais marcantes sucessos primo-seculares, contam-se entre as de lugar mais selecto que há no livro.
Igualmente antológica se me afigura, ainda, a visão-de-conjunto que o Miguel nos faculta da fenomenologia inerente ao transepto de entre-guerras.
Chega a dar vontade de dizer que, quanto mais complexo é o conspecto, tanto maior é o à-vontade com que se move e o grau de perícia com que o trata.
Não é todos os dias que se traçam, entre nós, panoramizações e tapeçarias como estas."

24 agosto 2005

Camarada Jerónimo sai da reserva













O conselho dos Anciãos dos Bedonkohe, consultadas as vísceras e os astros, decidou-se pelo abandono da reserva. A capitaneá-los na última empresa, o inefável camarada Gerónimo. O remanescente da tribo, dizimada ao longo dos anos pela cólera e pelas deserções, é hoje inteiramente constituído por idosos, um punhado de exaltados xamãs e algumas crianças.

23 agosto 2005

Satisfeito por tantos inimigos


Desde que iniciei esta pequena prestação bloguista, tenho sido literalmente bombardeado por emails de valentões [incógnitos] que se dão ao trabalho de malbaratar o seu tempo e parcas meninges com os insultos mais desbragados. Todo o arsenal de impropérios, dos mais reles e brejeiros àqueles que poderíamos apodar de simplesmente vulgares aqui têm aterrado, num tal sortido desencontrado de acusações que me enche de satisfação aferir o impacto desta humilde tribuna.
Estas atitudes reflectem o nível - ou falta dele - em que caíu a sociedade portuguesa, convulsa, medíocre, superficial e estridente. Futebolizados e telenovelizados, maledicentes e frustrados, os portugueses são, na sua grande maioria, seres inquietos e patéticos cuja capacidade reactiva se evidencia no que de mais indigno e inferior pode o género humano produzir: inveja, cobardia e renúncia.
Da breve leitura dos soezes díscolos, depreendo que tão odiado sou pelos "lost boys" suburbanos do nazismo saloio - o que vive na zona saloia - como pelos seguidores do messiânico Louçã. Esta conjugação de ódios enche-me de orgulho, porquanto essa marginália política é feita do mesmo barro. Tenho excelentes amigos "fascistas", como os tenho entre esquerdistas não confessionais, i.e, não-marxistas. A ganga de lugares-comuns, sub-cultura de migalhas, minimalismo intelectual e fetichismo cola-se-lhes à pele e aos gestos, transformando-os em caricaturas dignas do mais pio desprezo. Compreendo agora o fracasso absoluto dos movimentos da direita saloia - uma crónica infindável de grotesco numa floresta de siglas vazias - mas, também, o aparente sucesso do louçanismo. Uns e outros expressam o que de pior transborda na vida pública portuguesa nestes tempos de lusco-fusco.

21 agosto 2005

Camboja (1). Os olhos do inimigo















Estive há semanas na Tailândia para proferir uma conferência sobre as nossas relações ininterruptas com o Sião, que datam deste 1511 quando Albuquerque, conquistada Malaca, enviou a Ayuthia um emissário ao rei thai. Terminadas as jornadas, que foram um grande sucesso, decidi-me abandonar a confusão de Banguecoque - contrariando as expectativas de tantos amigos que por lá tenho - e continuar as incursões aos países limítrofes, tarefa a que tenho dedicado muito do meu tempo de viajante ao longo da última década. Depois do Laos, de Myanmar e da Malásia - que me permitiram, nos anos precedentes, fazer o périplo dos vizinhos da Tailândia - faltava o Camboja. Já lá tinha estado em 1998, mas acontecimentos políticos no conturbado país, então em preparativos para eleições, frustraram os meus planos. Lembro-me ainda daquele dia chuvoso e quente. Havia transposto a fronteira, para me dirigir a Sihanoukville quando, na estrada lamacenta, a pouco mais de 300 metros surgiu da floresta um grupo de rapazes vestidos de negro, saco às costas, lenço vermelho ao pescoço e espingardas automáticas a tiracolo. Olharam-me durante uns largos minutos e, depois, com indolência, regressaram ao emaranhado da frondosa vegetação. Eram os restos dos khmer vermelhos, empurrados para a selva depois da queda de Pol Pot, aquando da invasão vietnamita. O guia que comigo estava entrou literalmente em pânico. Achei que não havia tanto perigo naquelas criaturas e forcei o passo, dirigindo-me para o local onde aquelas haviam estado. Qual não foi a minha surpresa quando, ali chegado, os vi, encolhidos, acossados e inertes. Aquele grupo era, então, o que sobrevivera à impiedosa caça que o exército vietnamita havia movido ao longo de 18 anos aos acólitos de Pol Pot ? Quase insignificantes, rotos, visivelmente doentes e sub-nutridos, estes homens haviam sido o flagelo do seu próprio povo. Em momentos como aquele, nós, que estamos habituados a abstrair e intelectualizar tudo e mais alguma coisa, não resistimos. Cumprimentei-os em tailandês e um deles, talvez o chefe do bando, levantou-se e sorridente perguntou-me se tinha cigarros ( khun suburi may krupp ?). Ofereci-lhe o maço e, naquele preciso momento, todos se levantaram e, com o "sorriso khmer", irromperam em perguntas sobre quem era, de onde vinha, para onde ia. "Phom ma jaak protuguet" - sou português. Riram e um mais avisado disse: "ah, protuguet.....Kristôô". É assim que nos conhecem na Ásia. Não por sermos brancos ou europeus (seremos realmente brancos?), mas por sermos cristãos. Naquele momento dissiparam-se-me os temores e olhei para aqueles pobres diabos de forma diferente. Afinal, não seriam eles bem melhores que muitos bandidos de gravata com quem convivemos diariamente ? Teria alguma vez um destes bandidos de escritório e ar condicionado abandonado tudo e lançar-se numa guerra antecipadamente perdida ?Teria um destes nossos brilhantes burguesitos manientos sacrificado uma unha por uma crença ou um ideal ? Aqueles eram soldados políticos. Os olhos do inimigo eram límpidos e cheios de força. Saí dali abalado e regressei ao jeep. Agora penso que o Sr. Louçã, a Drago e demais não passam de garotos inofensivos e mimados a brincar às revoluções !