19 agosto 2005

Atrás...do Chipre


Não contive enorme indignação ao consultar ontem os últimos indicadores do Banco Mundial sobre o estado da economia e sociedade portuguesas. O país vai deslizando insidiosa, medíocre e impotente para níveis de desenvolvimento que já só encontram paralelo nas mais deprimidas regiões do Leste europeu saídas do concentracionarismo comunista. Há trinta anos estávamos à frente da Grécia e da Irlanda e a par da Espanha.
Flagelavam-nos com os sempiternos argumentos de Antero e Oliveira Martins, depois repetidos à exaustão pela vacuidade de António Sérgio. Causas do atraso: catolicismo, "sociedade rural mediterrânica", autarcia proteccionista das "classes possidentes" (aqui um rodriguinho marxista) e vestígios de "servidão tardia" decorrentes da rejeição da modernidade, sinónimo de industrialização, capitalismo e democracia. Passaram 30 anos e estamos atrás da Grécia, da Irlanda e da Espanha. Portugal passou da 24ª posição mundial para a 39ª. Habituados a assacar culpas aos mortos (a esquerda compraz-se em fixar D. João V, o "rotativismo liberal", o Estado Novo) sofremos dessa tremenda falha de carácter que dá pelo nome de irresponsabilidade. Não há um só desses políticos que nos torturam com a sua presença há 30 anos que assuma uma molécula de responsabilidade pelo plano inclinado em que nos vamos precipitando. O regime tem responsabilidades históricas nesta situação e importa que dele parta a iniciativa de mudar o estado de coisas sob pena de perder definitivamente o direito de nos governar. Com a mão em concha pedimos favores, mendigamos e imploramos em nome da especificidade portuguesa. O esmoler - que por acaso até é um português alcandorado à presidência da União - lá vai contemporizando e improvisando argumentos favoráveis à nossa indignidade. Se Barroso não estivesse onde está, as coisas estariam bem piores. Neste momento em que já se discute o inevitável fim da capacidade de inciativa da sociedade portuguesa em contrariar o espectro da pauperização, impõe-se que tenhamos a humildade de escolher aquela via que outros - bem mais isolados e sem solidariedades esmoleres - adoptaram para se adaptarem à globalização.
Lembro o "modelo tailandês" de Taksin Sinawatra. A Tailândia assumiu nos últimos anos os riscos da dolorosa mudança de um modelo económico proteccionista para a extrema competitividade. Em quatro anos subiu 7 pontos no ranking económico mundial. Estas mudanças foram já testadas com sucesso na Irlanda, na República Checa, na Eslovénia, na Malásia e ... no Chipre (que também já nos ultrapassou). O Chipre ! Por cá, continuamos a seguir os folhetins de Isaltino de Morais, deValentim Loureiro, de Jardim, da canonização de Cunhal e da putativa candidatura do octogenário Mário Soares à presidência da República.

18 agosto 2005

E como Sócrates estava a dormir, os tanques não avançaram



O país devorado de norte a sul pelas chamas, populações há muito escondidas dos olhares da rica Europa - povo medieval, mulheres cobertas de xailes negros, homens quase neoliticos - expostos nas grandes cadeias de televisão como os famintos do Sudão; casas, fabriquetas calcinadas entre gritos de desespero e o correrio de bombeiros rurais; uns helicópteros de brincadeira volteando aqui e ali perante o crescendo do fogo cego; bombeiros carbonizados, poços secos, baldes de plástico e torneiras pingantes para deter a muralha que vai subindo e descendo colinas, montes e montanhas; a pior seca de sempre; as piores colheitas de que há memória desde a Peste Negra....

Sócrates dormia ao som do rugir dos leões quenianos, com o tan-tan dos batuques Massai ao fundo. Sampaio jazia algures numa praia dos Algarves. Soares e Cavaco meditavam.

Este fim-de-regime é verdadeiramente patético. A coisa não precisa de um piparote. Está morta.

Bela Tailândia



Cumprir-se-ão na próxima terça-feira 45 anos sobre a visita de Estado dos reis da Tailândia a Portugal, na evocação das mais antigas relações diplomáticas existentes entre um Estado europeu e uma nação asiática. A dignidade da instituição real - que nenhum presidente plutocrata e burguês consegue copiar, por mais adamanes de realeza que se lhe queiram apor - reside precisamente na autenticidade que a investiu: o voto dos séculos, a força da tradição e a paternalidade dos chefes de Estado dinásticos.
Com um Salazar janota beijando a mão da rainha Sirikit - ah, como são belas as princesas do Sião ! - e um protocolo de Estado lembrando outros tempos e outros modos, o rei Bumiphol (lê-se Pumipon) abandonou a Portela de Sacavém convencido ter estado entre aqueles hirsutos navegantes que, um dia, senhores do Índico e de Malaca, aportaram a Ayuthia ( então capital do Sião) com as armas, os Evangelhos e os fios de ovos. As armas e os arcabuzeiros portugueses fizeram devastações entre os birmaneses, eternos inimigos do Sião; dos Evangelhos ficou a comunidade protuguet luso-descendente); os fios de ovos (kanom protuguet) passaram a iguaria nacional do país.
Um ano volvido, Portugal saía da Índia, 15 anos depois de Timor e 39 anos depois de Macau. A presença política portuguesa acabou na Ásia, mas persiste espiritualmente como algo de verdadeiramente grande que os decisores portugueses teimam em escamotear.

17 agosto 2005

As três gerações do regime


Afirmou Pound, num daqueles brilhantes ensaios sobre teoria da literatura que continuou a produzir quando toda a tragédia em que se afundara a sua vida pouco presdisporia para tais reflexões, que os movimentos literários duram três gerações: o tempo dos génios fundadores, o tempo dos mestres e o tempo dos diluídores.
Muito se tem escrito nos últimos meses sobre a morte desta III República. Com a morte de Cunhal - que não era propriamente um génio - o regime perdeu um dos seus fundadores. O friso dos constituintes de 75 atingiu a idade da "retraite" (lê-se retrete) e, mau grado a quixotada de Mário Soares, toda essa geração está prestes a abandonar o palco. Nascidos nas décadas de 20, 30 e 40, contemporâneos dos comboios a vapor e das meninas da rádio, homens da Guerra Fria, são tão estranhos à sensibilidade hodierna como o teriam sido os barões do Liberalismo para o imediato pós-5 -de-Outubro.
A segunda geração, a nefanda "geração do Maio de 68", está pelos sessenta. Viveu ainda o tempo da cultura de referência da Rive Gauche, do francês como esperano cultural univeral, dos marxismos e marxianismos, dos Guevara, dos Mao e dos Ho Chi Mihn e das sucessivas libertações proporcionadas pelo conforto do capitalismo. São os filhos da burguesia, da ociosidade, do pleno emprego, do "Estado social", dos subsídios, do contestarismo adolescente e da descoberta dos charros. Um revolucionarismo de estilo que convive, regalado, com o poder na alta hierarquia do Estado-devorador-de-impostos-e-pagador-de-favores-a-amigos. Esta geração inunda o governo Sócrates, as universidades, os institutos, as fundações e demais tentáculos da máquina tributária.
A terceira geração, a que acolita os "velhos", já só fez carreira de pincel em riste a colar cartazes, a distribuir autocolantes e em lutas intestinas nas concelhias, nas regionais e nas "juves" dos partidos-empresa-de-empregos. São nulos, ignorantes, analfabetos, incapazes: a geração dos diluídores.

15 agosto 2005

José Hermano Saraiva: despeito e vesgo ódio





Não deixa de ser curioso que a esquerda intelectual e académica, que se apossou das editoras, dos jornais, dos prémios literários e das cátedras universitárias desde os idos de 60 - com pico no imediato pós-25 de Abril, graças aos saneamentos, às RGA's e à intimidação física exercida sobre a nata cultural das universidades portuguesas, então obrigada a emigrar - não haja produzido um só educador.
Para eles, com o falar hermético, pomposo e cinzento, a "cultura" é uma propriedade. Numa terra de pelintras, o lugar na universidade é sinónimo de ordenado e de trabalho para "toda a vida". Comunicações em congressos despovoados, recensõeszinhas em revistas "culturais - só a palavra enche-me de erisipela - e torrentes de citações dão-lhes a ilusão de importância. Estas figuras irritantes e irritadas - o típico intelectual é uma criatura gorducha, careca e barbado, ostentando o sorriso idiota da geração de todas as facilidades, a maldita de 60 - são todo-poderosas entre os seus factotuns, mas mal transpõem as portas barricadas das "suas universidades", já não são reconhecidos na primeira paragem de autocarros.
O que mais os transtorna é a falta de reconhecimento. Ávidos de prebendas, reconhecem intimamente que vivem na dourada ilusão de um papel social que, afinal, não conseguem exercer. Veja-se o descalabro da cultura média, o apodrecimento do espírito cívico, a menoridade da produção académica nacional e aceitemos o veredicto que as provas enunciam.
A esquerda "intelectual" portuguesa - que rima com servilismo, falta de ousadia e criatividade - espuma de despeito pelo - esse sim - papel de educador que José Hermano Saraiva vem desenvolvendo desde há décadas. Para o Professor, o interlocutor e destinatário é o povo chão. Este, reconhecido, cultiva pelo brilhante educador uma simpatia e admiração nutrida pelo agradecimento.

14 agosto 2005

Ordem da Liberdade !

Já dizia António José de Almeida - um dos presidentezinhos que enchem 95 anos de "história contemporânea" - que "quando ouço a palavra Liberdade corro à varanda para ver quem está a ser preso". Em nome da Santa Liberdade, milhares de desgraçados foram afogados nos rios de sangue da dita revolução de 1789 que marcou o advento da era totalitária sob cujo signo persistimos em viver. Em nome da Liberdade, povos, grupos sociais e indivíduos foram imolados, tragados no esquecimento das valas comuns, dos pogroms, dos campos de concentração e dos arquivos de Estado. Foi invocando essa Liberdade que todo o pensamento heterodoxo, todas as expressões de inteligência inconformista, todas as marcas de um passado remoto - intemporal e genético - foram varridos. A Liberdade é inimiga da igualdade, mas a liberdade que mais tem ceifado vidas tem sido praticada na invocação do "espírito cívico", pura macaqueação do verdadeiro heroísmo que é, como não podia deixar de ser, aristocrático, singular, privado.

A República inventa heróis, mártires e santos laicos. No seu panteão entram argentários, demagogos, palhaços, bombistas, "revolveristas" e desertores de todas as causas, em tão grande número, em processo tão escancaradamente fordiano que a condição dessa nobilitação acaba por sofrer uma desvalorização absoluta. A Ordem da Liberdade que por aí se tem esbanjado acaba, pois, por valer bem menos que o grande colar que a exprime. A enumeração dos seus agraciados é, por si, expressão dessa desqualificação. Uns tão pouco relevantes que nem para arrumadores de cinema serviriam !

Agora, depois de Paulo Martins (deputado da UDP na Madeira), Isabel do Carmo (ex-animadora do PR-PBR) e Carlos Brito (PCP), à mistura com Natália Correia e David Mourão-Ferreira, surgem os U-2 !!
Dir-se-ia que quem se pretende homenagear é o Presidente quase-cessante que, assim, num prodigioso malabarismo de marketing, quer saltar para as notas marginais do pequeno noticiário internacional. Coisas da republiqueta !