12 agosto 2005

O fim do bom lóbi asiático português ? Homenagem a António Vasconcelos de Saldanha


Há bons lóbis e maus lóbis. Por antonomásia, separam-nos a mesma irredutível e inegociável carga semântica que opõe o "bom ladrão" - aquele que pratica com profissionalismo e maestria o crime - do "bom polícia", que não é propriamente aquele que age com brandura, mas o que executa com dureza o combate contra os criminosos.Habituados, como estamos, a encarar os lóbis como escolas oficiosas de venalidade, corrupção, promoção de imbecis e travão à lei - e há tantos que campeiam, que esquartejam, centuriam e dividem a remanescente fortuna do país - a menção de lóbi asiático português transporta intencionalmente uma provocação.Há um lóbi asiático português ? Há um pensamento estratégico português em relação ao imenso continente onde se concentra 60% da iniciativa económica e financeira mundial ? Há uma acção concertada, permanente e intencional da nossa diplomacia, agências governamentais, comunicação social, agentes financeiros, empresariais, produtivos e culturais em relação à emergência de grandes pólos de poder na Ásia do Sul, sudeste-asiático e extremo-Oriente ?Não, não há mas esteve iminte a sua reconstituição. Lembro que da última vez em que se manifestara uma política portuguesa em relação à Ásia foi no último quartel do século XIX., tendo por obreiro o Visconde de S. Januário (Januário Correia de Almeida, 1829-1901), sucessivamente governador da então Índia Portuguesa (1870-1871) e de Macau (1872-1874), ministro da Marinha (1879-1881) e da Guerra (1886-1889). Este bom lóbi asiático viabilizou os vestígios da presença portuguesa em período de assalto imperialista francês, britânico e norte-americano à Ásia, incrementou políticas de salvação para Macau, Timor e enclaves lusos na Índia da Pax Britannica e desenvolveu intensa actividade diplomática junto das cortes de Tóquio, Pequim e Banguecoque. Concomitantemente, seduziu um apreciável escol de jovens diplomatas, que o seguiram nas andanças pelo Oriente, bem como a atenção e o favor de parlamentares e políticos, editores e homens de negócios.Há três anos, o Professor António Vasconcellos de Saldanha, jovem catedrático, autor do que de melhor se produz em torno da presença portuguesa no Oriente, recebeu o espinhoso encargo de dirigir, na Ásia e para a Ásia, o Instituto Português do Oriente (IPOR), entidade acoplada ao Instituto Camões. Julgo conhecer bem a realidade asiática contemporânea, por onde viajei mais de dez vezes ao longo dos últimos anos. O prestígio que ainda envolve o nome de Portugal é capital de primeira grandeza para todas as parcerias, negócios e protagonismo português que os decisores em Lisboa teimam em esquecer, aferrados que estão a uma visão do mundo que recuou até ao século XV, ou seja, à "costa da Guiné, para a barganha dos espelhos, das papas e das missangas, e Antuérpia/Bruxelas, para os empréstimos.Portugal saiu de Macau com honra internacional e sem perder a face. Pesem todas as reservas que poderemos formular em relação ao calendário imposto por Portugal aos chineses, foi aquela despedida sem mácula um acto de grande dignidade. O mesmo não poderemos dizer da despedida "dos portugueses". O mau lóbi asiático português, tão antigo como o governo de "soltura" de Lopo Soares de Albergaria, exibiu nos últimos anos da presença política portuguesa na China a mais perversa demonstração do devorismo dos pequenos soldados práticos ávidos pelas sonantes patacas da árvore dos casinos. Aquela mole de amigos, primos, sobrinhos e protegidos que enchiam os voos da TAP - gente insignificante que, mal chegada à Ásia, se ataviava de sedas e desdenhava qualquer hotel que não figurasse nas listas da Forbes - deu de nós a detestável imagem, exploradíssima e exagerada à caricatura pela historiografia britânica, de um povo predador. Por lá enchiam os bancos, as universidades, as redacções de orgãos de comunicação social sem público, tribunais e demais ficções piedosas com que se entretecia a lenda de uma "Ásia lisboeta". Foram milhares de milhões de patacas que incrementaram, nas naus de torna-viagem, os hotéis, pousadas e moradias de luxo um pouco dispersos pela geografia portuguesa continental.Dir-se-ia que, depois de Macau, estávamos condenados a desaparecer na Ásia, acompanhando a núvem de gafanhotos que regressava a Lisboa após duas décadas de imerecido banquete. Providencialmente, quis o destino que alguém sensato no governo de Lisboa se lembrasse do Professor Vasconcellos Saldanha. Foi para Macau e em três anos incrementou a níveis nunca antes vistos a presença da língua e cultura portuguesas por aquelas paragens. Verdadeira diplomacia cultural, antecâmara das mais valiosas operações comerciais, o trabalho que António Vasconcellos Saldanha realizou foi agora tragicamente interrompido. Soube há dias que a partir de Janeiro de 2006 regressa a Portugal. Quem decidiu, qual o motivo de tão injusto saláriio e quem está interessado no lugar são matérias que desconheço nem tão pouco me interessam, mas sei que a saída de tão relevante empreendor vai assestar um golpe irremediável a um trabalho que medrara em terra tão difícil.Estive há semanas em Banguecoque, a convite do governo tailandês, para proferir uma conferência sobre as abundantes fontes documentais portuguesas relativas ao Sião. Encontrei o Professor Saldanha, em quem reconheci um líder e um homem de enorme mérito intelectual. Bem vi como os tailandeses o tratavam, com as deferências apenas concedidas a pessoas de excepção. Agora que sai, será alguém capaz de o substituir ?Tenho absoluta convicção que há homens insubstituíveis e o Professor Saldanha é, sem dúvida, um deles.
É assim que o Estado ingrato premeia os seus melhores servidores ? Se assim é, repete-se uma vez mais a velha maldição do Oriente português de antanho: voltavam a ferros os heróis, regressavam aclamados os idiotas e os gafanhotos !

09 agosto 2005

Fará a universidade falta ao país ?



A cultura de referência foi, durante o transcurso do século XX, a académica. Circunscrita à Universidade, ou seja, à provinciana Coimbra, com posterior como tardia criação de novos pólos de magistério em Lisboa e no Porto, preservou e permaneceu com a indelével marca de superiorização social e exibição de status, lembrando a academia medieval, convocando os rituais do Ancien Régime e a nobilitação meritocrática pombalina.
A profunda fractura entre cultura popular e cultura erudita manteve-se, não obstante as campanhas educacionistas e a tímida emergência de iniciativas marcadas pela preocupação de difundir o conhecimento e a ciência entre as classes populares, graças ao sucessivo esforço – baldado – de particulares, instituições públicas e privadas. Ocorre-nos, à laia de ilustração, os exemplos de Rocha Martins, Bento de Jesus Caraça (animador da mítica Cosmos), de António Ferro, da Direcção Geral do Ensino Primário, de Rómulo de Carvalho, José Hermano Saraiva, mais recentemente, a surpreendente popularização da paleontologia, iniciativa devida a Galopim de Carvalho. Ao contrário do que aconteceu na Europa Ocidental e nos EUA, onde a cultura de massas encontrou mediadores e líderes de opinião com real capacidade em influenciar o curso dos acontecimentos sociais e políticos, os intelectuais portugueses não só nunca lograram tal desiderato como aprofundaram a incomunicabilidade entre elites e massa, com as raras excepções de um Vitorino Nemésio, de um Pedro Homem de Melo, António Lopes Ribeiro, António Pedro, João Vilaret, José Hermano Saraiva, Natália Correia e David Mourão Ferreira, exímios em tirar partido da televisão, medium por excelência da nova galáxia da comunicação caracterizada pela opção por conteúdos pseudo-científicos, utilizando uma consabida como feliz expressão de Fernando Savater. O catedratismo, complexo de superioridade a que aderiram muitos autodidactas merecedores do estatuto de “mestres” (de Herculano a Oliveira Martins, de António Sérgio a Aquilino), foi particularmente bem sucedido na altaneira postura evidenciada pelas escolas de pensamento propugnadoras de uma “reforma profunda das mentalidades”. A Seara Nova – com excepção para o benjamim José Rodrigues Miguéis – não se distinguiu neste particular da atitude dos seguidores do Pelicano (Integralistas). Ao povo mitificado, confiscado pelo cálamo destes Pigmaleões – o povo virgiliano, o povo da epopeia dos homens anónimos, o “bom povo português” – opunha-se a ralé embrutecida pelo obscurantismo, pela superstição, pelo fado, pelos futebóis e, agora, pela televisão. Acresce que, em agravo desta atitude, os intelectuais portugueses – as mais das vezes estrangeiros no seu próprio país – devotaram à crítica mais ácida parte apreciável dos seus talentos literários, comprazendo-se em diminuir, ridicularizar e enegrecer o meio que os viu nascer. A personagem de Reinaldo, do Primo Basílio, constitui emblema desta faceta, infelizmente tão cultivada pelos autoproclamados membros da “comunidade científica”. Fernando Pessoa – fazendo coro com António Sérgio, não tinha rebuço em afirmar haver “menor diferença entre um operário e um macaco que entre um operário e um homem culto”.