25 outubro 2005

Rodrigues dos Santos e Mascarenhas Barreto


José Rodrigues dos Santos apresentou ao público o seu último romance de "investigação". Em pleno rescaldo do vendaval Dan Brown, este Codex 632 surge com um travo de ersatz. Não desconsiderando a inteligência e o activismo do seu signatário, lembramos que o déjà-vu é duplamente penalizador para a obra. Em primeiro lugar, pois pretende constituir-se em êxito literário em pleno descenso de popularidade de um filão que fez história e já só cativa os eternos retardatários. A ficção histórica envolta em mistérios ( com o Graal, o Merlim, os Templários e demais tropos da mitologia new age para consumo de massas) é chão que já deu uvas. Como dizia a Professora Maria Fernanda de Olival, "há sempre alguém a querer viver da História", como quem diz: "mostra-me o teu cartão e dir-te-ei se estás habilitado". Em segundo lugar, julgo inaceitável que José Rodrigues dos Santos, que deu à RTP-1 uma entrevista que vale milhões em publicidade, não tenha feito qualquer alusão ao pai da tese de Colomo português. Foi graças ao trabalho de uma vida que Augusto Mascarenhas Barreto tornou quase imbatível a tese da origem portuguesa do descobridor do Novo Mundo. Sou amigo de Augusto Mascarenhas Barreto, cuja obra Colombo Português: provas documentais, tive o gosto de apresentar publicamente na Sociedade de Geografia. É um monumento à agilidade, à argúcia, à erudição e a essa qualidade tão rara entre os historiadores portugueses que dá pelo nome de coragem intelectual. O Doutor Rodrigues dos Santos bebeu-a sofregamente e verteu-a por completo nas "provas" do seu Codex 632. Parece-me despropositado que não tribute um louvor público ao seu mentor.
Há coisas que não devem ser silenciadas. Tenho consideração por Rodrigues dos Santos. Espero que tenha agora o elementar gesto de retribuição àquele cuja tese está toda - da primeira à última página - no Codex 632.
Lá vêm eles dizer "lá está o Castelo-Branco a arranjar sarilhos". Infelizmente, sou como sou. Há coisas que não consigo calar. Se todos fossemos assim, julgo que poderíamos viver num país melhor.

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