18 Outubro 2005

Instituições Portuguesas (VI): o grupismo

Em Portugal todos fazem parte de grupos. Sem o grupo, o português sente-se perdido. Este grupismo atravessa transversalmente os domínios público, privado e íntimo, apossa-se do desporto, da religião, da política, da educação, das artes e do espectáculo, da comunicação, da moda e das empresas. Todos são casados com todas, todos são primos, tias, irmãos, ex-colegas de escola e universidade, ex-camaradas de tropa, amigos de amigos, com sobrinhos, afilhados frequentadores dos mesmos cafés, das mesmas livrarias, dos mesmos teatros e bancadas. Este grupismo deu em lóbis para todos os gostos, havendo quem pertença a vários ao mesmo tempo, solicitando um favor aqui, uma isenção ali, um lugar para um amigo desempregado acolá, um julgamento brando para um conterrâneo, uma medalha para um ignoto - e muitas vezes ignaro - protegido, um doutoramento, um programa de televisão, a chancela para uma editora ou uma nota nos jornais lidos. Da senhora das limpezas - como eu as admiro, caramba - ao Presidente da República, a regra do jogo é pertencer a um grupo. O sacrifício que se tributa é tão diminuto quanto escravizante, mas de bom grado o português prescinde da liberdade, pois é coisa perigosa e inútil numa sociedade em que o singular é olhado como aberração. O que se pede ao grupista ? Encontros, reuniões, convívios que se arrastam por anos - a ordália de se fazer "parte de algo" - e o prémio final: um lugar.
Qual o fundamento do grupismo ? A crónica pobreza do meio, a promessa do caldo e do naco de pão do dia de amanhã, a inexistência de um Estado imparcial e abstracto. Em Portugal, as instituições são pessoas, património de grupos, pelo que o juíz, o polícia, o general, o médico, o ministro, o padre, o banqueiro e o catedrático não o são pelo talante mas pelo grupo em que estão inseridos. A sedimentação do grupismo provocou três desastres irreparáveis: a incompetência triunfante e aplaudida, o atrevimento criminoso e a protecção. É por isso que temos um Estado de Leis e não um Estado de Direito. As leis existem e só se aplicam como retaliação a quem não faz "parte do grupo". É por isso que temos uma Universidade miserável e improdutiva, uma Igreja rural de seminário de "manhãs submersas", umas forças armadas amarrotadas e gordas, uma polícia dormitante, umas academias de velório, um jornalismo de vão de escada, uns partidos políticos mentecaptos, um desporto de voyeurs e estridências e um meio artístico postiço.

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