27 outubro 2005

A guarda negra do Papa


Sempre tive uma admiração sem limites pela Companhia de Jesus. Compreendo que o ódio, a inveja e teoria da conspiração que a envolveu durante séculos tenham origem na qualidade excepcional dos seus sacerdotes e na absoluta liberdade por que ingressaram nessa elite da Igreja Católica, sem acicate da fome, da segurança e de uma vida fácil. A Companhia nunca foi benquista pelo Santo Ofício, pois pregou a heroicidade onde os outros semeavam resignação, temor e conformação. A Companhia nunca foi instrumento de governos e poderosos, procurando antes a eles aceder para melhor exercício da sua missão. Acresce que, como português, lhes devo a extrema dedicação às causas que durante dois séculos e meio se confundiam com a ideia de Portugal. Os jesuítas eram os primeiros a chegar, os mais ardorosos na permanência e no exemplo e invariavelmente os últimos a partirem. Os Holandeses e o Ingleses temiam-nos e por algum motivo confundiam-nos com os Portugueses. Cometeu S. Francisco Xavier excessos ? Cometeram os religiosos das missões da Ásia abusos na conversão forçada de nativos, nos jogos de poder pela supremacia na luta pelo monopólio da evangelização ? Sim e não. Sim, se nos submetermos ao capricho do anacronismo - misturando sensibilidade contemporânea com as de tempos passados - ou de uma visão do "perigo jesuíta" que floresceu sob os despotismos Iluministas ou sob o Liberalismo.
Vem este textozinho a propósito de uma conversa que tive ontem o privilégio de travar com dois sacerdotes da Companhia. Homens lúdidos, cultos, abertos à discussão honesta, fluentes em várias línguas mortas e vivas, carregados de boa-vontade e dedicação. Homens alegres, sem o ciciar de outros padres, radicais no seu cristianismo mas sem mácula de intolerância. Com eles pude falar. Nunca daquelas bocas saíu uma condenação, uma apóstrofe, um comentário intimidatório. Sabendo que perdi a fé há muito, senti-me, com eles, de novo atraído para uma visão heróica que, como a Companhia o demonstrou, não é incompatível com a ética cristã. Infelizmente são poucos, raros e sem meios. Outros, ricos, ciciadores, chegam mais alto e recebem a gratificação pelo emprego arrumadinho e rotineiro que vão fazendo !

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