12 Setembro 2005

Venha daí a educação sexual, com ou sem a aprovação dos paizinhos


Leio sempre com agrado o blogue da Aliança Nacional, uma direita-extrema que mantém a coerência dos seus princípios sem ceder ao roncante racismozinho suburbano e à exibição de parafernália "directamente vinda da Alemanha". Hoje, porém, atrevo-me discordar de um comentário que o Dr. Manuel Brás lançou na conclusão de um excelente texto a propósito da pressão exercida pela escola laica sobre os símbolos religiosos. Afirma M. Brás, extrapolando o tema do proibicionismo anti-confessional: "assim se aproximam as afortunadas crianças das modernas práticas de educação sexual nas escolas".
Creio que a educação sexual deve impor-se curricularmente, mesmo que ao arrepio da vontade das famílias. Grande parte dos problemas que ultimamente têm concitado foros de polémica na vida pública portuguesa constituem o normal tributo pago à ignorância e ao obscurantismo que envolvem questões relacionadas com o amor, a paixão, a iniciação sexual, a fruição do prazer sexual, a contracepção, as doenças sexualmente transmíssiveis, o aborto e as escolhas sexuais.
Não deve caber a pais educados na cartilha das "públicas virtudes, vícios privados" (que eu substuiria por "públicas hipocrisias, dores privadas) o papel de fazer pelas suas crianças aquilo que lhes não foi ensinado. Não cabe aos púlpitos pronunciar-se sobre os segredos da sexualidade, pois à Igreja cabe um outro magistério: o de ensinar a doutrina da Igreja a quem dela se quiser abeirar.
Deixai às criancinhas conhecer aquilo que lhes está infuso, deixai aos jovens viver a naturalidade das suas pulsões sexuais e grande parte dos transtornos, dos medos, das ansiedades e flagelos de intolerância e falso pudor desaparecerão.
Alguém disse que a civilização victoriana caminhava de braço dado com a sifilização. A civilização burguesa erigiu-se sobre uma dupla mentira: os valores e as bons costumes. Ora, nunca a Europa conheceu tantos bordéis, tantas meretrizes e tanta pornografia como durante o império dos bons costumes. O ensino da educação sexual não é uma violência: é um dever de inculcação que cabe ao Estado. Os homens livres devem começar por obter a sua liberdade antes de pensar na teórica liberdade que as leis lhes oferecem. A liberdade de que falo não é sinónimo de promiscuídade e deboche: é um direito elementar à felicidade. Vão à Dinamarca, à Suécia, à Noruega e a outras paragens respeitadoras dessa liberdade e verão quão mais responsáveis são os indivíduos na assunção dos seus deveres e direitos. Aqui, o sexo é proibido, pretendemos não ver aquilo que salta aos olhos menos avisados. A chalaça portuguesa - a piadinha de mau gosto - contém sempre uma alusão ao sexo e à comida, duas privações crónicas num povo esfomeado e vigiado.

2 comentários:

FSantos disse...

Este postal suscitou-me a seguinte resposta:
http://santosdacasa.weblog.com.pt/arquivo/2005/09/sobre_a_educaca.html

Lucas disse...

Certo. Aceite-se, entao, a necessidade de uma educacao sexual (autónoma e desintegrada do ramo mais geral da biologia).

Em que consistirá? Como diminuir o risco de, constituindo-se uma disciplina de 'Educacao Sexual', a coisa nao descambar para 'deseducacao centrada no sexo'? Será mesmo possível diminuir esse risco, ainda para mais, no ambiente de promiscuidade generalizada que se vive hoje(muito por culpa dos media e do espírito comercialista que rege a sociedade actual)?

Tem Portugal um número suficiente de professores sérios e confiáveis para a 'pedagogia sexual'?

Tenho bastantes dúvidas...

E, olhando para o panorama geral da educacao em Portugal, é este, de facto, um problema premente? É esta, de facto, uma prioridade no ensino em Portugal? O ensino de outras disciplinas mais importantes (Religiao e Moral, Portugues, Matemática, História...) está de boa saúde o suficiente para a 'Educacao Sexual' poder vir a ser o prato do dia?

Continuo com muitas dúvidas sobre a suficiente relevancia do tema 'Educacao Sexual'.

Quanto mais se insistir, se debater, se dissecar o 'impulso sexual humano', mais ele se tornará banal, inconsequente, realidade desligada da sua verdadeira funcao. Mais terá o efeito de Deseducar o Homem, primarizá-lo, afastá-lo da sua natureza racional.

Continuo a achar que a 'Educacao Sexual' se aprende, nao se ensina.