30 dezembro 2005

O INSURGENTE dá-me a Torre e Espada

Não acredito. Este 2006 foi péssimo e na hora derradeira chega-me uma prenda destas. O INSURGENTE - um dos blogues de maior peso nesta comunidade - dá-me um prémio. Fico grato, pois nunca pensei que este pequeno e esconso quarto de arrumações chamasse a atenção do Olimpo. Afinal, para haver milagres importa que não sejam esperados, que violem todos os princípios da física e que toquem ao menos fadado dos mortais. Obrigado, ó Insurgente !

O individual e o colectivo: a propósito do último post

A humanidade divide-se em homens de excepção e homens comuns, homens de elite e homens-massa, homens fadados para mandar e homens determinados a obedecer, alfas e ómegas, inteligentes e broncos, criativos e estéreis, homens de iniciativa e homens amorfos. Por mais que o queiramos negar, a experiência encarrega-se de nos impor tal evidência. O indivíduo sobreleva o grupo, pelo que a condição social do nascimento não tolhe aquela dicotomia. Quando muito, torna-a mais difícil ou, ao invés, facilita-a. A caricatura que aqui produzi ontem - em claro escuro, acentuando o grotesco - não corresponde a qualquer modelo, mas a meras intuições e a flagrante generalização. Há operários alfas e burgueses ómegas; há pequeno-burgueses carregados de predicados e dotados de excepcionais qualidades e potencial, como também há possidenti, nascidos em meio abastados, que nada valem. O velho Pareto lá dizia ser a história um cemitério de elites, uma fórmula tão acertada quanto o nosso D. Francisco Manuel de Mello, que usava a imagem dos alcatruzes da nora: uma em cima que desce, outra em baixo subindo. O que pretendi com aquele textozinho foi acentuar os comportamentos colectivos, a imagem de marca daquela a que chamei microburguesia. É iniludível que aquilo existe, que aquela gente esbarra connosco em todas as esquinas e que o mundo contemporâreo lhe deu um papel imerecido. Ao contrário da classe operária - que quer cervejas, tremoços e futebol, mas produz - a microburguesia é improdutiva mas aspira ao mando. A classe operária jamais esteve no poder em parte alguma; a microburguesia esteve e está no centro do jogo pela conquista e manutenção do poder. Não acreditam ? Pois, abram os tablóides, a televisão, vão ao Parlamento e lá estão eles. O PP lembrou-se há anos do Zé e da Maria. Triste ideia. Tenho para mim que o Uomo Qualunque é o maior inimigo da liberdade, o maior inimigo do espírito e o maior espectro para a cultura. Cada um, quaisquer que sejam as condições sociais do nascimento, pode lutar para dominar em si o elemento subdeterminante da massa e optar, esforçadamente, para fazer sair de si o elemento sobredeterminante da elite. O que não podemos é iludir, terraplanar e dar por iguais acomodados e esforçados.

29 dezembro 2005

O que vão pensar os vizinhos ? A microburguesia

A pequeníssima burguesia (ou sobreproletariado) é, depreende-se dos sociólogos e da História, o maior perigo que impende sobre as sociedades contemporâneas. Ora cadinho de conformismo -reaccionária, convencional, cheia de baias, iletrada, boçal e supersticiosa -, ora agressiva, vindicativa e revolucionária, reclamando direitos e igualdade, enche as fileiras dos exércitos do despeito e é tropa de choque para desvairados messianismos. O perfil do micro-burguês - aqui, sim, Marx acertava na mouche ao intuir características de pensar, estar e agir próprias de cada grupo social - corresponde ao diagnóstico de doença feita virtude a que aludia Nietzsche. Pequena, ridícula, submetida à penúria, transforma o ressentimento em virtude; logo, eriça-se de valores que não produziu, macaqueia a burguesia ou pretende destruí-la. A micro-burguesia é estéril. Como não legisla, policia; como não pensa, censura; como não cria, persegue. Ao contrário da burguesia, cuja tradição autonomista remonta à Idade Média, a sub-burguesia é um estádio equívoco entre o proletariado, de onde provém, e uma ideia fanada e falsificada de respeitabilidade que fazia o múnus da distinção aristocrática. Em Portugal, foi a sub-burguesia dos mestres-escola, hábeis no revólver e na dinamite, quem fez a república. Na Itália pré-fascista, os squadristi de Mussolini eram sub-burgueses, posto a burguesia e a aristocracia fascistas não quererem sujar as mãos com o óleo de rícino. Na Alemanha, os batalhões de choque das SA compunham-se maioritariamente dessa gente, a mesma que tornou possível a revolução soviética. Parasita da classe operária, fez revoluções em seu nome, mas chegada ao poder quis ultrapassar a burguesia e reivindicou a necessidade de uma nova aristocracia. Mussolini consegui controlá-la - dando à burguesia financeira e empresarial, bem como à nobreza, o lugar que o Estado exigia - mas não deixou de a adular, satisfazendo-lhe os caprichos miserabilistas. Na Alemanha de Hitler, foi a arquitrave da ordem social, e concorreu, encanalhando-a, para a destruição da velha estirpe prussiana. Na URSS, foi o núcleo de um sistema que cresceu à sua imagem e semelhança: burocrática, mesquinha, controleira, moralona, insípida e possessiva. O século XX das democracias ocidentais não escapou à sua presença. A América teve nos nefastos Hayes e Edgar Hoover o espelho desta gente incomodada e mesquinha; na Grã-Bretanha do Labour e dos sindicalistas recrutou grande parte dos seus dirigentes entre os profiteurs da classe operária; na França da rive gauche satisfez-lhe os apetites de notoriedade e vingança.
Há, sem dúvida, uma estética pequeno-burguesa que se espraia pela literatura (novelinhas cor-de-rosa, gore, thriller), pela pintura (o academismo segundas águas, o realismo e o naturalismo de segunda, terceira e quarta gerações - carregado de criancinhas ou velhos pergaminhados - a reprodução de obras primas em cartazes de cozinha, o paisagismo dos artista de fim-de-semana), pelo cinema (a comédia para a família) e pelo teatro (a revista). Este estilo kitsch, meio termo entre a tradição reverenciada e assomos de brejeirice, também assume uma dimensão sócio-linguística específica. Assim, sempre que estiverem perante um fulano que se dirige à mulher como "a minha esposa", a uma criança como "o bebé/a bebé; menino/a menina", ao chefe como "o Senhor Dr.", ao dia de amanhã "se Deus quiser", o "DEVE DE SER", entre outras, pode estar certo estar perante um micro-burguês.
Há, entre nós, partidos políticos que são expressão eloquente dos estados de alma e das pulsões micro-burguesas. O PC é uma delas, como também o serão franjas significativas do PPD e do PS. Enquanto tal gente for gente, muito difícil será reendireitar a sociedade portuguesa.

28 dezembro 2005

Grávidos e vénus de Willendorf


O país cresceu: os portugueses estão mais visíveis que nunca. Não em altura, cultura e criatividade, mas em volume: ancudos, barrigudos, rabudos, pescoçudos e chispudos empanturrados ameaçam o delicado equilíbrio da tábua à beira-mar-plantada, ameaçando precipitar-nos no negro oceano. A proverbial tendência do homem branco em acumular gordura nos locais mais incríveis - excepção feita aos hotentotes - atingiu culminâncias neste Portugal, agora e finalmente europeu. Onde antes víamos gente magra, i.e, saudável (vide fotos de Gerardo Castelo-Lopes), hoje só lobrigamos baleias e cachalotes escondendo as carnações abundantes sob o manto das farpelas auriflamantes que os cartões de crédito, as prateleiras dos supermercados e os ágapes dos menús prodigalizam. No passado verão fui uma vez à praia, coisa para mim tão rara, dado a frigidez das nossas águas. Fiquei siderado com a desenvoltura gelatinosa, quase pornográfica, dos corpos - de homens, mulheres e crianças - que se amontoavam na Caparica. Saídas das telas de Botero, aquelas massas de banha e regueifas, aquelas barrigonas tipo queijo-da-serra amanteigado, as protuberâncias de Vénus de Willendorf assentes sobre pilotis verdadeiramente antediluvianos enervaram-me. Queixam-se da quebra da natalidade, da impotência e da esterilidade, mas não mão, a sandwich de seis andares gotejando maionaise, a maldita cerveja, as letais batatas fritas e os venenos achocolatados acusam o mal. Pela boca morre o peixe. Como queremos saúde se consumimos 5 vezes mais calorias que um elefante de circo ? Dizia uma cançoneta italiana dos anos 30, por ocasião da aplicação das sanções que a SDN aplicara ao país pela agressão à Etiópia: "si il fante in guerra va senza paura, chi resta in casa stringa la cintura, anche il digiuno in questo caso per salutar = se o soldado vai à guerra sem fome, o que fica em casa aperta o cinto, pois que a dieta neste caso é salutar". Decerto ninguém pede uma guerra. Pede-se, apenas, que os portugueses se olhem ao espelho, nús, e digam se gostam daquilo em que se transformaram. Faço natação e musculação quatro vezes por semana e, por isso, dou-me ao luxo de comer bolas de Berlim, papos de anjo, toucinhos do céu, queijadas regadas de açucar em calda, suspiros. Não tendo sofrido overdoses de cozido à portuguesa, leitão à bairrada, feijoadas e demais brutalidades gastronómicas, rendo ao ginásio graças por não emular os mister elefant. Se são demasiado comodistas, façam como o Mahatma: bebam leite aguado e comam ervas.

República e desprestígio

Hoje, nas páginas do DN, uma crónica incendiária de Vasco Graça Moura vareja forte e feio o candidato Macróbio. Afirma que Macróbio traz o desprestígio à República, essa entidade abstracta, pródiga, justa e libertadora. República e desprestígio, eis uma redundância. Que eu saiba, nenhuma república jamais se conseguiu firmar - e até justificar - sem o apelo ao que de mais desprezível se esconde no recesso da mente humana: a inveja. Entre nós, a velha meretriz é epítome das vergonhas, desastres e desmandos que se abateram sobre o século XX português.
Ora, há muito que compreendi e resolvi o problema da República. Para mim, ela não existe; ou antes, é-me tão verosímil como serão para os ateus as aparições marianas. Nunca tive ânsias de poder nem fui fadado para servir à mesa uns ricaços broncos com pretensões ao trono de pechisbeque do "mais alto magistrado". Em minha casa, na parede, o retrato do último chefe de Estado português - D. Manuel II - aguarda há 95 anos que um sucessor o venha substituir. Não irei certamente desfigurar as paredes com um "deles" . Essa troupe à Trimalcião que vá buscar votos e serviçais a outros lares.

27 dezembro 2005

Afrocentrismo, racismo e idiotia: Cleópatra made in USA

Decididamente, os gender studies, essa moda insuportável que se pegou aos estudos literários, às sociologias, às antropologias, belas-artes e Filosofia (há divisão diática feminino/masculino na Filosofia ?) deram em agarrar-se ao sub-género historiográfico da minha predilecção: a biografia. O politicamente correcto obriga a estas coisas. Quando, de quando em vez, faço o zaping das dúzias de canais empacotados, dou inevitavelmente com uns programazinhos horrivelmente traduzidos que o Canal História - uma coisa espanhola - despeja em caudal torrencial. Ultimamente, para além do Hitler, da Guerra Mundial e das usuais estórias de múmias, abriu-se uma nova frente. A monomania dá pelo nome de Cleópatra. A última dos lágidas, a célebre Cleópatra VII, que foi amante de Júlio César e Marco António, é aí apresentada com todos os atavios de uma "mulher liberada" (sic), "moderna" (idem) e "amiga do povo" (ibidem), "avançada para o seu tempo", quase democrática ! Sei que a historiografia USA não resiste a dois minutos de leitura. Há tempos segui, perplexo, num destes folhetins, à lição da mais desconchavada violação do bom-senso. Queriam-nos fazer crer que os egípcios antigos eram negros. Não deixei passar a provocação e escrevi a um amigo norte-americano, docente numa prestigiada universidade da Califórnia, que não só confirmou como alargou consideravelmente o leque de exemplos da campanha, hoje em curso, de africanização da história universal. A questão egípcia é importante, pois, aceitando uma certa tradição, velha de séculos, a civilização nilótica seria uma fonte matricial para o arranque da civilização no Egeu Oriental; logo, Creta e a Grécia seriam tributárias do Egipto. Ora, para além dos guerreiros da Núbia, que serviam nos exércitos dos faraós, só há registo de uma dinastia negra no alto Egipto: a dinastia Kush, de pouca dura e sem obra de vulto. O lóbi universitário afro-americano - afrocêntrico e com fortes pulsões racistas - desenvolve uma campanha de crescente intimidação sobre a comunidade científica, teorizando e legislando ao arrepio da metodologia que valida o trabalho de investigação historiográfica. Para essa corrente, fanatizada pelo preconceito ou espicaçada por motivos de natureza auto-terapêutica, toda a história mundial, codificada pelos europeus, esconde outra realidade. A génese das grandes civilizações dever-se-á ao protagonismo e engenho do homem negro: da Índia dos dravidianos aos "negritos" do sudeste-asiático, das civilizações pré-colombianas às mongólicas, todas teriam sido, primitivamente, tributárias da "civilização africana".
O fecho de abóbada desta tremenda mistificação incide, fatalmente, sobre uma das grandes figuras da Antiguidade. Cleópatra - mulher, satisfazendo o feminismo - seria, inevitavelmente negra. Só falta dizer que era toxidependente, deficiente, anti-globalização e ambientalista. Se as elucubrações arianistas de finais do século XIX são hoje objecto do riso, o que dizer de uma historiografia feita sem arqueologia, sem decifração e hermenêutica ? Sei que pelas américas tudo é lícito: vende ou não vende, cumpre ou não cumpre a agenda dos grupos de pressão. Se não, não interessa.

23 dezembro 2005

Natal, mau grado a Weltentzauberung


O "desencantamento" do mundo, resultante do choque do secularismo - tópico recorrente nos escritos de Max Weber e Ernst Troeltsch - manifesta o fim da visão do mundo cristã, que o século XIX parece ter, desapiedadamente, assassinado. Mau grado Deus ter morrido com Nietzsche, o homem é naturalmente um animal religioso, pelo que o Natal - pesem todas as hipocrisias, todo o mercantilismo e reconciliações intentadas, que logo se esboroam no início de um novo ano de guerra - continua a ser "A FESTA" por antonomásia. O desencantamento, que rima com razão, análise crítica e dessacralização, não enterra a sede de libertação e esperança, ancoradas no coração dos homens. O Natal - interpretem-no como bem entenderem - é trégua e convite ao apaziguamento dos demónios que nos devoram. Com ou sem Deus, com ou sem fé, é a própria vida que se interroga; é o absurdo que, pelo menos uma vez por ano, se senta no banco dos réus; é o sentido que se procura no caos do febril entretimento da vida que tenta iludir o fim inexorável. Para todos, um Feliz Natal e um aconchegante Solstício de Inverno, umas boas Suturnais e diveridas Dionisíacas. No dia 26 recomeça a guerra, as vagas lançar-se-ão de novo sobre os parapeitos das convicções alheias, o arame farpado das convenções, a metralha da intolerância !

22 dezembro 2005

"Respeito muitos as fezes das pessoas" (MS)


Afirmou Macróbio, num dos últimos debates televisivos, respeitar profundamente "as fezes das pessoas". Tal desabafo escatológico-coprófilo deixou-me aterrado, mas já tudo aceitamos dos outros conquanto não nos conspurquem. Anteontem, a figura sujou-se publicamente, sujando-nos enquanto espectadores do wrestling de lama. Tenho para mim que o cavalheirismo não é algo de intermitente. Ou se tem, ou não passa de uma máscara. Não se pode ser cavalheiro na rua e, transposto o umbral da casa, espancar a mulher, maltratar as crianças e seviciar os animais domésticos. Não se pode ser cavalheiro no clube, entre iguais, e humilhar os pequenos, os serviçais e subordinados de serviço. Mais grave ainda, não se pode proclamar urbi et orbi o democratíssimo respeito pelos adversários e, em flagrante, dar-lhes tratamentos de polé dignos de qualquer galego contratado nas esquinas de Alfama. O homem demonstrou, finalmente, o seu carácter assomadiço. Foi um debate bem elucidativo. Eu, monárquico, não me devia envolver nestas coisas da republiqueta. Anteontem, quase senti necessidade de votar no insultado. Não o farei, mas não desanconselharei nenhum dos meus amigos a contribuir para o desterro do energúmeno.

20 dezembro 2005

Je Maintiendrai

Um blogue a não perder. Citem-no, difundam-no e fruam. Ao Misantropo e ao Jansenista, associa-se agora mais uma excelência.

Socialismo salazarista


Já alguém avisado chamou a atenção para as características socialistas da visão salazariana. Não há dúvidas que, como lembra Oliveira Marques, Portugal nos anos 50 e 60 encontrava-se algures entre o mundo socialista e o mundo capitalista. Regime paternalista, autoritário e isolacionista - não obstante a OTAN e a EFTA - o salazarismo promovia a conformação, assossegando o homem comum facultando-lhe escola gratuita, rendas e pão tabelizados e mesmo congelados, "emprego para a vida", segurança nas ruas e nos espíritos. Na azáfama das compras de Natal, regalei-me ontem numa loja especializada em produtos portugueses dos anos 40, 50 e 60. O cabaz da dona-de-casa da era de Salazar reproduzia o condicionamento industrial, a moderação e o recato, virtudes por excelência do tempo dos meus pais e avós.
"- Ó senhor António, são 50 gramas de manteiga, 30 de marmelada, um litro e meio de vinho, 2 decilitros de azeite, um pacotinho de pão ralado e meia dúzia de laranjas ! "
A estes pantagruélicos acepipes juntavam-se os 8 ou 9 produtos de luxo, genuinamente made in Portugal: uma água de colónia, um perfume para menina, dois sabonetes, lâminas para escanhoar, pincel para a barba, um limpa-pratas e um verniz para madeiras. O Sr. António embrulhava-os no papel pardo - havia três tonalidades ao gosto da gentil cliente: azul, vinho e pastel - e lá saía ela, porta fora, para entrar na papelaria onde ainda comprava uma cola Sino, papel de lustro, um caderno pautado e uma tesoura Nacional para os trabalhos escolares do filho. Deliciada, folheava a Eva, adquiria o Cara Alegre para o marido e metia no saco de compras o Mundo de Aventuras, povoado pelos heróis nacionais a que Victor Peón dava vida. Em casa - numa casa rica - havia a "telefonia", onde as meninas da rádio - na Rádio Graça e na Emissora Nacional - enchiam os serões, que se prolongavam até horas tardias, por volta das 11 da noite. Pela meia-noite, o hino nacional e...cama !

O Pasquim da Reacção

Não tenho por hábito replicar perante a inteligência. Calo e registo. O Pasquim da Reacção, animado por uma das mais lúcidas, informadas e interventivas penas da direita portuguesa - fossem todas assim - assinala a minha "mudança" política num texto que a todos recomendo, pois não soa a réplica nem a atoarda vã, e confesso bastante mais interessante que o texto que Walter Ventura teve a bondade de publicar no último número de O Diabo. Sim, o Corcunda tem razão. A vida é feita de mudanças e reconheço que o meu mundo já não é aquele em que vivi, como não o será para todos nós que nascemos ainda sob o Estado Novo, assistimos à revolução, ao colapso do sovietismo e à globalização da América. Não bebo a cicuta, pois não traí as minhas primícias, nem defraudei jamais amigos e adversários. Aliás, não sou ninguém para exacerbar uma excessiva auto-estima e cultivar uma coerência de Catão que se pede aos homens públicos. Limito-me a viver e seguir o rumo do tempo, sem apostatar, sem esconder as minhas convicções mas ousando sempre o desafio das ideias. Continuo patriota e monárquico como sempre, mas não me podem pedir o sacrifício de viver com o mundo, as referências e paixões de um homem de 80 anos.

19 dezembro 2005

Pacheco Pereira aborda o inabordável: a omerta no PCP

No terceiro volume da monumental biografia política de Álvaro Cunhal, agora dada à estampa, Pacheco Pereira comprova a prática, costumeira entre os partidos comunistas, da aplicação da pena capital a dissidentes. O método: tiro na nuca, seguindo o infalível modus operandi dos esbirros de Lavrenti Beria. Na obra, dotada de impressionante aparato documental, afirma-se expressamente a adesão de Cunhal a tal solução expedita. Mais, implica directamente funcionários do partido – nomeando-os – na morte de pelo menos dois militantes. Sabemos que aquilo era, sem tirar nem por, um grupo de fanáticos e uma escola de crime. Com todos os contornos de uma seita, o “partido” direccionava profissionalmente os seus, exercia chantagem, compelia à emigração ou à clandestinidade, não permitindo a funcionários desiludidos o elementar gesto de renúncia e afastamento. Máquina de intimidação e alienação, o partido fabricou um universo vigiado, de catacumbas e segredos, violentando e desfigurando psicológica e moralmente gerações de militantes. Microcosmos daquilo que poderia ter sido um Portugal socialista, o PCP foi um poderoso agente de aculturação e inculcação de tiques totalitários: das "companheiras" (criadas para todo o serviço - daí a monomania pró-aborto do partido) aos pistoleiros, aos infiltrados, aos denunciantes e agitadores, o "partido" nunca se libertou da fama de ser uma das mais enigmáticas organizações políticas do século XX europeu.
É de estranhar que a Procuradoria Geral da República não abra um processo de averiguações para tais crimes de sangue – mesmo que prescritos - pedindo emissão de mandado de apreensão aos ficheiros desse partido-igreja que, presumimos, devem conter matéria escaldante. Compreendemos por que razão o “partido” se quis apossar dos ficheiros da PIDE-DGS logo após o 25 de Abril. Por toda a Europa Ocidental, os PC’s disponibilizam a investigadores impressionante documentação comprovativa do dirigismo exercido pelo governo soviético sobre as organizações do Comintern/Cominform. De fora, com estatuto de intocável, fica o PC”P”. Coisas portuguesas...

18 dezembro 2005

A França reconcilia-se com Maria Antonieta e Luís XVI


Perdulária, espia, traidora, meretriz, insensível e - pasme-se - pedófila e incestuosa; estas foram algumas das pérolas lançadas pela ralé dos jurisconsultos revolucionários sobre a infortunada rainha de França ao longo de um sórdido processo judiciário que a levou ao patíbulo. Hoje, pouco menos de 20 anos passados sobre as comemorações faraónicas realizadas em Paris por Mitterrand (outro bandido sem escrúpulos), os escaparates das livrarias e os catálogos das editoras enchem-se de obras alusivas à rainha trágica. Mãe dedicadíssima, mulher de grande carácter e dignidade, protectora de crianças desvalidas e mães solteiras, Maria Antonieta é vista como uma das vítimas dessa revolução terrível que partejou o totalitarismo contemporâneo, o terrorismo de Estado, as guerras do ditador Napoleão e as matanças que cobriram, de Lisboa a Moscovo, toda a geografia europeia.
Quanto a Luís XVI, a historiografia oitocentesca cobriu-o de ridículo: frouxo, comilão, impotente, fraco de espírito, corrupto e enganado pela consorte, realizava a caricatura perfeita do fim do Antigo Regime. Os estudos mais recentes vêm provar o contrário. Era um homem dotado, trabalhador e interessado pela governação, leitor dos Filósofos e apostado em regenerar o crónico despesismo herdado de Luís XIV e Luís XV. Tolerante em matéria de religião, restituíu aos Protestantes os direitos de que haviam sido privados por Luís XIV; respeitador das magistraturas, prefigurou a separação dos poderes e devolveu aos parlamentos provinciais novas competências; consciente da irreversível ascensão do Terceiro Estado, pretendeu renovar a proporcionalidade da representação dos três estados nos Estados Gerais.
Foi traído, não pelo seu povo, mas pela alta nobreza, apostada numa nova Fronda que lhes restituísse os privilégios que o rei queria abolir. O tiro saíu-lhes pela culatra. Traindo, foram ultrapassados no torvelinho revolucionário pela escória dos desocupados e dos eternos invejosos que se apoderam de todas as revoluções: os Dantons, os Marats e os Robespierres.
As livrarias francesas estão cheias de novas abordagens de Luís Capeto, um homem decente dos pés à cabeça, amante das coisas simples - da comida, dos divertimentos e da carpintaria, a que hoje chamamos bricolagem - mas um príncipe que se deixou imolar na convicção de que um rei é um pai, mesmo que dele não sejam dignos os seus filhos.

16 dezembro 2005

Mourinho, Cristiano e José Manuel


Fazemos os possíveis para exibir a nossa europeídade, mas os europeus desprezam-nos. É um dado assente que sentem por nós uma incontida superioridade que se expressa nos estereótipos e, até, em algumas frases-feitas onde a rima sobrepuja a verdade: "les portugais sont toujour gais" (que tolice rematada). Nós, por cá, fazemos-lhes a vontade e cultivamos, até à náusea, a ideia de um povo escuro, tristonho, folclorizado, de homens bisonhos de bigode e boina acachapada e mulheres de buço, xaile às costas e saco plástico. Vivi e convivi durante anos em paragens nebulosas e colhi, com incontida fúria, de criaturas supostamente superiores - uns branquelas com assomos rubicundos, cabelos esfiapados, fei(o-a)'s como demónios - os mesmos comentários, os mesmos dixotes. Não gosto do meu país como está, mas amo-o como um amante repelido. Detesto o comezinho português, com a sua cobardia, a sua inveja, o seu conservantismo lamechas e a sua falta de horizontes, mas persisto em acreditar que este povo, que foi grande e único, ainda se pode reerguer e encontrar um futuro que passe fora da Espanha, longe dos supermercados e do plástico. Olhei ontem para o "mega-cartaz" do Cristiano Ronaldo patente na fachada de um dos prédios do Marquês e descobri que, graças a esse miúdo, ao Mourinho e ao José Manuel Barroso, esses horríveis branquelas das europas nevosas têm de bater palmas aos pés do gaiato madeirense, ouvir e calar as atoardas do treinador vitorioso e obedecer ao Presidente da Comissão. Calculo como ficarão os patetas dos castelhanos, os casmurros dos franceses e os cervejómanos dos britões.

Ao Camisa Negra

O caro colega blogosférico Camisa Negra é, para além da antologia do pensamento proibido que vem paciente e inteligentemente construíndo ao longo de meses - já a tenho, devidamente arrumada em pastas - um exagerado. Aos fascistas arrumo-os em duas categorias: os péssimos e os aristocratas. O Camisa Negra é, necessariamente, um aristocrata. Estou-lhe grato por repetidas mostras de cortesia e pelo muito que nos vem, fatia a fatia, gostosamente, oferecendo. Coloca-me o caro Camisa Negra na "elite" dos blogues que consulta. Ora, eu não sou ninguém e penso já não poder remediar o mal de haver dado o primeiro passo. A continuar, certamente, é a Antologia a que, em boa, lançou mãos. Bem-haja.

15 dezembro 2005

Camarada Sousescu


Não se cansa a criatura da geringonça novecentesca. Aquela langage de bois, novilíngua de mentiras e superstições - que toldava as salas de tortura da Lubianka, os casebres de tifosos do Gulag, o verde natural dos T52 esmagando a Hungria, a Polónia e a Checoslováquia, as bichas de 10 horas para 100 gramas de manteiga rançosa, os apartamentos-colmeia com 5 quartos, 5 famílias e uma sentina pútrida, os fuzilados de Havana, Maputo, Luanda, Adis Abeba, os hospitais psiquiátricos, a devastação algodoeira dos mares Aral e Cáspio, as denúncias, as auto-confissões de "sabotadores industriais", "sabotadores mineiros", "sabotadores florestais" e "sabotadores tecnológicos", as oitenta mansões de Breznev e as 60 de Ceaucescu, o napalme sobre o Afeganistão, as ninfetas estupradas de Mao, as conspirações "desviacionista", "titista", "sionista", "cosmopolita"e "zinoviana", as fomes artificiais na Ucrânia, a deskulaquização, o pacto Ribbentrop-Molotov, a proibição da arte burguesa e "escapista", os BIBIS violadores de crianças alemãs, as matanças de Espanha, as injecções de benzina no coração dos terminais, as experiências atómicas sobre divisões de infantaria em manobras no Cazaquistão - revolve-me o estômago.
Ontem, de papel em riste, com um sorriso de Testemunha de Jeová, uma turiferária do Camarada Sousescu, perante a minha recusa em aceitar tal impostura, perguntou:
- Então, tem medo ?
- Não, minha senhora, tenho nojo !

Refinado Jansenista, Misantropo e Pedro Guedes.

Tenho, impante sobre a minha secretária, um útil dicionário de sinónimos da língua portuguesa, que foi propriedade de António Valdemar. Dele me apossei por usucapião. Aqui o deixou Valdemar, posto que ocupo presentemente o gabinete e funções que o preclaro aríete literário exerceu nesta casa que Frei do Cenáculo fundou. O refinado a que aludi ontem - compulso o dicionário - não gera, obviamente, associações malsãs. Refinado ("grandíssimo", "perfeito", "rematado", "transparente") remete-me para uma ideia de mundanidade plena, de elegância intelectual e superioridade que não se proclama: sente-se, tão naturalmente, como o acto de respirar. Numa terra em que a clareza filosófica raramente se manifesta - exige muito estudo, total despojamento de defesas literárias - o Jansenista devia ser nomeado, de imediato, Imortal da Academia.
Sensibilizam-me, também, as palavras de estímulo do Misantropo Enjaulado - que tamanha dedicação enciclopédica e vocação pedagógica sirvam, também, para abrir processos na Causa dos Santos ! - pelo muito que me vem ensinando.
Ao Pedro Guedes, nem vale a pena acrescentar uma palavra. Depois de 18 anos de amizade, as palavras já não têm valor ritual. Ele faz o favor de ser meu amigo. Eu tenho a obrigação de lhe lembrar que é um homem superior.
Feitas as vénias, nas quais incluo o João Ribeiro - que no meio da azáfama de um doutoramento e com crianças de colo reclamando o biberão ainda tem paciência para ler este blogue miserável - gostaria de informar que doravante este V. criado irá mais vezes ao café (sem bagaço, mas com a ginginha de Miss Pearls) e será o mais piedoso com as teclas.

14 dezembro 2005

Quatro meses na blogosfera: merecerá a pena ?

Não sei que utilidade terá este blogue. Depois de quatro meses de escrita - entre os afazeres académicos, as obrigações de servidor do Estado e um livro por acabar sobre as relações entre Portugal e os potentados asiáticos nos século XVIII e XIX - impõe-se-me um balanço. Aos meus leitores - amigos, não-amigos, críticos e censores - os mais sinceros agradecimentos pelo trabalho que tiveram na divulgação, na contestação, nos aplausos e apupos. Provada ficou a minha heterodoxia, a crescente desideologização e desafectação de credos, convicções e rótulos. Terei chegado - finalmente - àquela idade em que já não se pode ser jovem sob pena de cair no ridículo, nem ser velho antecipando a vida por viver. Retirei desta experiência uma grande admiração por pessoas com as quais me teria sido de todo impossível conviver intelectualmente. Lembro os seus sítios: o refinado Jansenista, o enciclopédico Misantropo Enjaulado, o vibrante Último Reduto, o seguríssimo Sexo dos Anjos , a boa-fé da Nova Frente, a simpatia do Bic Laranja, a perfumada Miss Pearls, a segurança da Aliança Nacional. Também, sempre presentes, A Arte da Fuga, o determinado Buiça , o temerário Geraldo Sem Pavor , o sereno Corcunda , o fidelíssimo Monárquico e outra meia dúzia de locais de fruição de bons ares e boa prosa. Não esqueço, também, aqueles - de esquerda como direita - que me consideraram, desde a primeira hora, intruso, inimigo e até provocador, dizendo-lhes que nunca tive inimigos e que respeito tudo que se revele verdadeiro para aqueles que acreditam em algo.
Sempre busquei a coerência. Não procuro mais agradar nem tão pouco angariar simpatias onde estas jamais medrarão. A grande reforma que aguarda os portugueses desde o século XIX é a das mentalidades. Nenhum regime, sistema, partido, movimento, revista ou jornal pode mudar o país se não se alterar o talante dos portugueses. A questão é dilemática, pois mudar parte de um acto de volição. Todas as cosméticas - "revoluções de cima", "revoluções de baixo", "reformas", "involuções" - primam pela artificialidade. É tão fácil mudar tudo - até transplantar o rosto, como o demonstraram agora os hospitais franceses - quando o que fica é o mesmo. Confesso que estou cansado do país e dos portugueses. Fartei-me de fados, ranger de dentes, difamadores, mentirosos, hipócritas, biliosos e grosseiros. Fartei-me de falsidades moralonas, de despudores atrevidos, de intriga e mexericos, de invejas e queixumes. Parece estarmos enterrados-vivos, iludindo com palavras o vazio da alma. Se o homem problemático - desvendado pelos grandes diluídores: Marx, Freud, Nietzsche - existe, estará certamente bem representado nos nossos concidadãos. O que poderá um mísero blogue fazer, para além do atrevimento narcísico, do acto inútil, da poeira dourada de uma frase mais ou menos bem talhada ? Valerá a pena ? E o tempo investido ? E os livros que ficam por ler ? E a investigação que se vai atrasando ? E a família e os amigos que não visitamos ? Não sei, sinceramente, se por aqui andarei por muito mais tempo.

A não perder

Dois textos, diversos quanto à natureza, mas de imprescindível leitura: A direita segundo Alain de Benoist, no Sexo dos Anjos, e Lobo Antunes descripto , nas páginas sempre avisadas do Jansenista. Decididamente, a blogosfera vai corroendo as fragéis estacarias da imprensa de papel.

13 dezembro 2005

Henrique de Senna Fernandes: até às lágrimas


Assisti ontem, comovido, à intervenção que esse grande português de Macau que é Henrique de Senna Fernandes produziu na RTP-1. Caramba, que amor, que veneração e fidelidade a Portugal. Como muitos outros macaenses - e timorenses, e caboverdianos, e goeses - este homem, produto da teimosa vontade de resistir que Charles Boxer encontrava nos portugueses - separando-os dos vis mercadores e colonialistas de outras paragens - Senna Fernandes deu voz a uma realidade escondida. Essas dezenas de milhares de sino-portugueses, indo-portugueses e afro-portugueses que se emocionam ao ouvir as estrofes do nosso hino, que choram quando vêm a nossa bandeira, que querem manter viva a memória do Portugal Antigo são, habitualmente, esquecidos por uma certa fulanagem que canta loas ao multicularismo e ao multirracialismo, mas esconde a verdadeira face da empresa portuguesa no mundo. Para encontrar portugueses daqueles, é preciso ir a Macau, a Goa e à Praia.
Aviso os meus caros leitores que no próximo domingo, passando 44 anos sobre o ataque do pacifista Nehru à Índia Portuguesa, os canais das nossas tv's prepararão - é limpinho - a habitual sabatina de incoerências, dislates e verrinas. Lembro que a invasão de Goa foi um acto vergonhoso à face do Direito Internacional - acerbamente condenado pelo Tribunal da Haia - e dela resultou a saída voluntária de largos milhares de indianos que se consideravam portugueses. Diga-me, quem puder, se não há maior demonstração de amor que o de sair da sua terra, abandonar tudo, para afirmar a determinação em continuar a ser português.

Uma polémica imerecida: a propósito de um texto n' O Diabo

Saíu hoje, nas colunas do semanário O Diabo, um texto de minha autoria. Confesso que o escrevi com a máxima reserva, porquanto a temática envolvida - definição, tipologia e atitudes da(s) direita(s) em Portugal - é passível de grande celeuma. Como é meu timbre, disse o que pensava, mas pensei certamente na forma como o apresentar. Não querendo ferir susceptibilidades de quem quer que fosse - pois são de respeitar todos os quadrantes, indiferentemente da maior ou menor simpatia que nos mereçam - afigurou-se-me importante a oportunidade para assinalar alguns elementos definidores dessa nebulosa a que se convencionou chamar de "direita portuguesa". De um salazarista indefectível recebi um contundente mail, lamentando a minha "deserção". De um nacionalista revolucionário, uma simpática mas incisiva prosa afirmando estar eu a confundir a área em que este leitor se situa e a "direita burguesa e capitalista". De um tradicionalista, uma mensagem de repúdio por menosprezar o Integralismo Lusitano, o "miguelismo" e o relevante papel do catolicismo na história e cultura portuguesas.
Ora, relendo o texto de O Diabo, reafirmo o que aí escrevi. O salazarismo sem Salazar é memorialismo, o tradicionalismo um quixotismo e a direita revolucionária - a única que desenvolve actividade política - um purismo. Ninguém pode impedir quem quer que seja de relembrar o Estado Novo e suas realizações, mas o Estado Corporativo desapareceu e seria hoje tão absurdo aplicar o programa de Oliveira Salazar como restaurar o Absolutismo Régio do século XVIII. Ninguém pode impedir quem quer que seja de olhar para uma Europa medieval, de catedrais e cavaleiros, como um tempo de ouro perdido, mas a vida deixou de ser ritmada pelas matinas, a dinâmica económica já não espera pela rotação dos solos e o horizonte geográfico dos homens não se reduz às ameias dos castelos. Niguém pode impedir quem quer que seja de esperar o grande resgate e a grande revolução que partejarão o Homem Novo, mas o meu pessimismo antropológico, experiência e percepção do mundo impedem-me de acompanhar tais esperanças. Sinto-me novo de mais para ser "salazarista sem Salazar", realista q.b. para romantismos tradicionalistas e velho de mais para sentir a chama crepitante das barricadas e das colunas em marcha.
Li e reli durante anos os textos representativos dos maiores autores da(s) "direita(s)" em Portugal - de José Agostinho de Macedo a António Sardinha, de Teixeira de Vasconcelos a António de Oliveira Salazar, de Homem Cristo Filho a António José de Brito - e não tenho por eles outro interesse que o de um historiador das ideias. Tenho, até, alguma reserva em voltar a obras que me entusiasmaram na juventude, com receio de grandes desapontamentos, pelo que prefiro deixá-las em sossego e agradecer àquele que fui a oportunidade de as folhear no momento exacto. Sou patriota, amo o meu país e sofro enormemente com o estado a que chegámos, mas sei que o futuro já não depende da minha entrega. Ah, como trabalhei pela "causa", anos a fio de privações, ingratidões e ataques ferocíssimos daqueles que se diziam do mesmo campo. Agora, sou um observador. Foi nessa condição que escrevinhei a meia dúzia de linhas que o nosso amigo Walter Ventura teve a gentileza de publicar nas páginas do Diabo.

12 dezembro 2005

Freitas do Amaral: finalmente algum pensamento estratégico


Como não sou sectário - lobista, partidista, curibequista - não posso deixar de apontar aspectos positivos em políticas sectoriais que estimo positivas para o país. A política externa portuguesa está de parabéns, pois ao longo dos últimos meses tem desenvolvido iniciativas várias que tendem a retirar as Necessidades do ramerrão do pensar-pequeno e do miserabilismo a que nos habituáramos. Depois de duas décadas de especialização em paternalismo - leia-se ajudas a fundo perdido à Guiné-Bissau e S. Tomé - e vassalagem ao maná da Europa-balsa-de-salvação, Freitas do Amaral quebrou o mau feitiço e obrigou os funcionários do MNE a evoluírem e aceitarem os dados da cultura diplomática hodierna, marcada pelo profissionalismo, pelo estudo e por uma postura pró-activa. A recente aproximação à Rússia, a resolução de graves mal-entendidos com o Brasil e agora a assinatura de um histórico acordo comercial com a China são demonstrativos da emergência de uma nova atitude da dioplomacia portuguesa. No que respeita à gestão interna do Ministério, Freitas do Amaral domesticou alguns abusos, retirando privilégios escandalosos e impôs concursos públicos para provimento de lugares de adidos, contrariando o sempiterno amiguismo.
Um país pequeno deve ter uma forte como criativa diplomacia, pelo que aos diplomatas compete contrariar por todos os meios a precaridade do orçamento que o Estado lhes faculta. Freitas do Amaral parece estar a ensaiar uma nova cultura num ministério que se fora apagando, menorizando, quase demitindo, do papel cimeiro que lhe cabe. Estes primeiros sinais são auspiciosos. Importa que se mudem hábitos, preconceitos e atitudes e que a especialização dos diplomatas se aprofunde, afastando um certo amadorismo diletante. Lembro que aos diplomatas franceses, alemães, britânicos e holandeses exercendo actividade em regiões-chave do planeta são requeridas qualificações específicas para o desempenho de tais funções, nomeadamente um conhecimento profundo da cultura, da história, da vida institucional e da língua dos Estados em que trabalham. Ora, no MNE tudo se passava como nos séculos XIX e XX. A um diplomata exigia-se um apelido sonante, um francês à Eça e o domínio das elementares regras de cortesia. Isso já não é suficiente. Há, decerto, diplomatas inteligentes, esforçados e empreendedores. Infelizmente, a velha cultura persevera. Importa que os diplomatas sejam avaliados pelo desempenho, que as carreiras sejam julgadas pela qualidade - tal como todos os quadros dirigentes da função pública - e que a recompensa seja proporcional aos serviços prestados. Quando isso acontecer, o MNE será um veículo relevante da imagem e dos interesses de Portugal no mundo.

09 dezembro 2005

Weltanschauung taxista do mundo


"Enforquem esses porcos", "vamos a S. Bento e fuzilamo-los todos", "era já encostados à parede", "bandidos, escroques, impostores, mandriões". Entrei no táxi pelas 8.30 h e tive de ouvir uma cascata de adjectivos ao gosto do Sr. Gil Vicente. O taxista, com iras celestes, lá berrava, sobrepunha-se ao noticiário da rádio, repetia "precisamos de 10 Salazares", "isto só vai com um Hitler", "vão engolir-nos a ficar com isto" e outras manifestações de espírito. Fartei-me de rir, pois sei que tais discursos fazem parte da animação de [alguns] profissionais do volante. Não de todos, pois até há os que já nos brindam com música clássica. Repentinamente, na paragem de um semáforo, passou uma mulatinha elegante e bonita, dengosa e vaidosa como as "cabritas" angolanas. O homem ficou mudo, acalmou-se. Virou-se para trás, piscou-me o olho lúbrico e disse: "aquela mulatinha é muita boa. Até me dá saudades o tempo em que estive na guerra". A visão do mundo de um taxista está carregada de surpresas.

07 dezembro 2005

Leopold Trepper: o Grande Jogo nazi-comunista

Já havia devorado o livro na minha juventude, como quem lê uma novela de espionagem.
Confesso que tenho um fraco por estórias de espiões e por enredos onde, no fio da navalha, heróis de máquina fotográfica em riste, debruçados sobre arquivos ultra-secretos, sacam ao inimigo os arcanos e roubam-lhes a vitória. Os espiões são homens de uma coragem excepcional, vivem sós, ocultados no total anonimato como sombras deslizantes numa noite de nevoeiro. Para eles, um copo a mais, um envolvimento amoroso, um telefonema ou uma simples palavra proferida durante o sono pode desencadear consequências desastrosas como letais. Desta vez, ao ler a auto-biografia de Leopold Trepper, cruzando-a com perspectivas mais recentes facultadas pelo acesso aos arquivos soviéticos, compreendi o alcance tremendo das até aqui meras suposições sobre a luta de bastidores que se travou durante a 2ª Guerra Mundial. Trepper foi, como sabem, o arquitecto da Orquestra Vermelha - a rede de espionagem soviética na Alemanha e países ocupados - emparceirando com Richard Sorge e Garbo (Juan Pujol) entre os maiores mestres do ofício. Foi uma enorme dor de cabeça para a Abwehr de Canaris e Schellenberg da GESTAPO, mas não deixou de desenvolver - no limite da duplicidade - um papel na intriga política e diplomática a que obriga a grande estratégia. Afinal, a Alemanha e a Rússia estiveram em contacto permanente e desenvolveram múltiplas iniciativas para encontrar uma solução negociada para a contenda. Não fosse Himmler - partidário de um acordo com os Aliados - e Martin Borman e Goebbels lá teriam conseguido fazer as pazes com os arqui-inimigos comunistas. Como dizia um general alemão a Trepper, com o petróleo soviético os panzers chegaram a Paris, com o couro soviético se calçou a infantaria alemã e com os cereais da Ucrânia se alimentou a frente interna do Reich até àquele fatídico 22 de Junho, quando a Whermacht desencadeou a Operação Barbarossa. Estaline e Hitler ainda tentaram, em 1942 e 43 encontrar um compromisso, e mesmo após a tremenda batalha de Kursk, espantados com a ainda forte capacidade ofensiva dos alemães, se falou no Kremlin numa paz separada.
A política é uma coisa verdadeiramente suja. Não sabiam os camandantes alemães que a localização exacta suas unidades, efectivos e estado de prontidão era passada aos russos, como demonstração de "boa vontade"...pelos próprios serviços secretos alemães.

06 dezembro 2005

60 anos no trono do país dos sorrisos



Comemorou-se ontem o 80º aniversário do Rei Bumibhol da Tailândia, o decano dos chefes de Estado. Dia nacional, as comemorações foram grandiosas em Banguecoque, com a tradicional parada militar na grande avenida fronteira ao Throne Hall (Anantasamakhom) e as festividades populares - genuínas e sentidas - de um povo que se revê no seu rei. Homem de grande visão, pai da reforma agrária, arquitecto da modernização e garante da liberdade de um povo jamais aviltado pela colonização ou ultrajado pelo comunismo, Bumibhol (Rama IX) ocupa o trono desde 1946. Em Lisboa, participámos na cerimónia que a embaixada do antigo reino do Sião organizou para o efeito. É deveras tocante o afecto que os siameses exprimem pelo seu rei. Dizia-me ontem uma diplomata que o rei é sagrado, pois representa a perdurabilidade da comunidade nacional, a força da memória e das tradições, pelo que - e estou certo da fiabilidade das suas palavras - "em caso de necessidade, todos os tailandeses oferecerão voluntariamente a vida para defender o seu rei e o trono". Que bom seria se a Europa aprendesse algo com os tailandeses e não seguisse as pisadas dos "pais fundadores" da oclocracia: os Marats, os Dantons, os Robespierres e demais ganga.

Aniversário de SAR


Lembrado pelo insubstituível Misantropo - um daqueles que escreve muito e bem - assinalo o aniversário natalício de SAR o Senhor Dom Duarte Pio de Bragança, legítimo herdeiro dos Reis de Portugal, que tanta faltam fazem num país que esgravata putativos a Belém. Por quanto tempo mais teremos de suportar o pesado fardo da republiqueta à El Salvador ou à Dominicana ?
Quantos mais generais, almirantes, banqueiros e demais homens de negócios ? Quantos mais atropelos às elementares regras de comer à mesa ? Quantas mais "primeiras-damas"? Quantas mais casas civis e sacos azuís ? Quantas mais eleições para o menos mau entre os piores ? Já jurei a mim próprio que não ponho os pés - nem o óbulo - na urna. Pela República não aposto; aliás, como nunca apostei em cinódromos e hipódromos !

05 dezembro 2005

Dois minutos com a Deusa




Creio ter sido em 1997 ou 1998. Estava em Paris a terminar o meu mestrado, quando um fotógrafo amigo me perguntou: "então, amanhã queres ir comigo à sessão de lançamento das Memórias da Leni Riefensthal ?". Fiquei encantado, pois tinha pela realizadora de Olympia: Fest der Volker e prodigiosa fotógrafa dos Nouba uma verdadeira veneração. Conhecia as Memórias, pois havia adquirido a edição espanhola um ou dois anos antes, mas a perspectiva de ver a deusa empurrou-me. Confesso não gostar de sessões de autógrafos. Aquilo é demasiado fordiano, cheio de automatismos e rituais, mas estar perto dela, mesmo que no meio da multidão, enchia-me de satisfação. Lá fui. No momento em que me aproximei, não me ocorreu outra coisa - pateta, confesso - que "Leni, adoro-a". Ela riu-se muito e perguntou-me de onde vinha. Depois, falou no Sol, no mar e nesse povo de marinheiros que são os Portugueses. Acho que falou demais, pois a seu lado alguém lhe terá dito para continuar a "produção de autógrafos". Acho que simpatizou comigo (ou com a extravagante ideia de encontrar um Português) e chamou-me de volta para me oferecer um postal. À distância olhei para aquela senhora franzina, de noventa e tal anos, cuja vida fora tão terrível como maravilhosa. Irradiava eternidade. Obrigado, Leni.

04 dezembro 2005

Defendam o nosso património dos gatunos


Já se deu conta o caro leitor da expansão do negócio de Antiguidades no nosso país? Já percorreu as artérias onde tal negócio prospera a olhos vistos ? Já atentou nas grutas de Ali Babá, carregadas de obras de arte sacra, supostamente oriundas de "capelas particulares" ou do recheio de colecções "particulares"? Acredita ? Não, eu também tampouco ! São obra dos bucaneiros que assaltam inpunemente as nossas igrejas e mosteiros votados ao abandono, espalhados pela geografia nacional e visitados por falsos turistas que, armados de câmaras fotográficas, fazem o prévio reconhecimento para o saque subsequente. Alguém ouviu, até ao momento, um só dignitário da Igreja, do IPPAR ou das associações de defesa do património bramar contra esta verdadeira praga que está a matar a cultura portuguesa? Sei que em tempos padres houve que trocavam talhas douradas por carros e cuecas, que autarcas fechavam os olhos a um retábulo desviado em troca de uns quantos favores ou de crentes que permitiam que se fizesse mão-baixa de uma escultura, de uma alfaia ou de uma naveta em prata se a contrapartida fosse uma casa de banho nova para o centro paroquial, um televisor para o centro de dia ou umas quantas cadeiras para a sede dos escuteiros. Mas agora a coisa está mais grave. Dir-se-ia que os bandidos de Napoleão voltaram e estão a delapidar, do Algarve ao Minho, tudo o que os nossos antepassados, com amor e sacrifício, nos deixaram. Isto é uma vergonha...de bradar aos céus !

02 dezembro 2005

Porque acredita nos Portugueses

Ouvir os Portugueses

República e Laicidade: a resposta de Luís Mateus

Do Arquitecto Luís Mateus, dirigente de República e Laicidade, recebi a seguinte mensagem, que publico na íntegra, remetendo os leitores deste blogue para o texto que aqui publicámos na passada terça-feira. Como mandam as regras da elementar boa-educação, pedi ao autor, pela mesma via, autorização para a divulgar.
MCB
"Caro Miguel Castelo Branco,
Espero que não me leve a mal pelo comentário que aqui lhe deixo.De uma breve leitura do blogue COMBUSTÕES, retive as suas seguintes afirmações:"Tenho para mim que antes um crucifixo que um crescente, um orixá, uma estrela de David ou um qualquer penduricalho plástico saído do modismo americano. Antes D. José Policarpo que um tele-evangelista; antes a Bíblia que o Corão; antes a Moral e Religião que a doutrinação política intoxicadora; antes Cristo que o "mercado". Pessoalmente -- e porque, ao jeito de Condorcet, imagino um mundo onde "o sol só ilumine homens livres, tendo com único senhor a sua razão" (citadode cor) -- não entendo porque há-de ser, hoje, um crucifixo preferível a um crescente, a um orixá, a uma estrela de David ou a um qualquer penduricalho plástico saído do modismo americano; tal como não vejo qualquer vantagem naBíblia relativamente ao Corão, na Moral e Religião relativamente à doutrinação política intoxicadora, em Cristo relativamente ao "mercado" -- concedo que ouvir José Policarpo em vez de um tele-evangelista teria a eventual vantagem de uma maior moderação do gesto e de uma garantidaentoação portuguesa no falar do português...Ficou-me contudo uma questão: para além daquelas suas (a meu ver discutíveis) preferências -- e porque claramente as não assume como preferências absolutas, porque claramente as afirma como um «mal menor» a que estaríamos condenados --, não haverá alguma perspectiva, algum caminho, alguma política que, efectiva e positivamente, deseje para este nosso(velho/envelhecido e pobre) país?Desculpe-me esta intromissão na sua caixa de correio e aceite as minhas saudações (republicanas e laicistas)
Luís Mateus"

30 novembro 2005

A Nova Rússia

A Nova Rússia, de Nuno Castelo-Branco. Óleo sobre tela (100x60 cm), 2003.

Os nossos amigos exterminados

Não sendo propriamente um misantropo, a verdade é que tenho uma preferência especial pelos quadrúpedes caseiros. Os "bípedes implumes" - não-galináceos - saturam-me, entediam-me, irritam-me ou espantam-me pela maldade, pela inconstância, pelo chupismo, pela infidelidade e fealdade. Crianças lindas - como tadas as crias humanas - transformam-se em sacas de carne e chispe carregadas de maldade, violência e remoques, manias e vícios de carácter. Quem diria que criaturinhas tão simpáticas - que temos a obrigação de mimar e proteger - se transformem, por infusa determinação genética, nos homens e mulheres que nos rodeiam. Dir-se-ia que a razão e as hormonas trabalham em parelha para afundar a espécie, acicantando-lhe a cobiça, a crueldade, a venalidade e a violência gratuita contra os seus semelhantes. Se a violência humana tivesse, ao menos, efeitos malthusianos, como as trepadeiras que se garroteiam umas às outras para atingir a copa das árvores, ainda seria capaz de compreender. Mas não, os filhos dilectos de Deus vivem para mentir, são hipócritas, são inteligentemente predadores e desertificadores daqueles afectos singelos, simpáticos e empáticos, que encontramos nas crianças. O humano diverte-se com surplus killing, gosta de fazer sofrer.
Estas pulsões violentas desacarregam-se, naturalmente, sobre os nossos melhores amigos animais. Impossibilitados de falar - não têm polícias, tribunais, lóbis, leis e prisões - os desgraçados cães e gatos são objecto do mais vil destino. Comprados, trocados, pontapeados, abandonados, abatidos ou atropelados, andam por aí aos milhões, expostos à crueldadezinha de bípedes frustrados em busca de vítimas compensatórias.
Para quando uma política eficaz que leve à prisão os torturadores de animais ?
Para quando a legislação draconiana que leve à barra dos tribunais atropeladores, patrocinadores de lutas de cães, angariadores de espectáculos "tauromáquicos" e fetichistas do gatilho que aos fins-se-semana inundam os nossos bosques e charnecas a matar tudo o que se move ?
Lá vêm eles com as sacrossantas tradições, com a "cultura" e outras hipocrisias desculpabilizadoras, próprias das hormonas armadas com a maldita razão !

29 novembro 2005

República e Laicidade: associação cívica


O pedido para que se removam os crucifixos nas salas de aula da rede escolar oficial, apresentado à Ministra da Educação no passado dia 30 de Março, a que aludimos anteontem , já deu os primeiros frutos públicos.
O inefável seguidor de Trostky, Francisco Louçã, afirmou que a retirada de crucifixos das escolas públicas portuguesas devia ter acontecido na tarde de 25 de Abril de 1974 ou, quando muito, no dia em que a Constituição foi aprovada. Passe o aproveitamento político, típico do populismo da extrema-esquerda caviar, a agenda da Associação República e Laicidade estava há muito confeccionada. Poucos dias após a tomada de posse do XVII Governo Constitucional, dirigido por José Sócrates, realizada no dia 12 de Março, a sobredita associação, há muito familiarizada com a estrutura, competências e procedimentos do Ministério da Educação entregou à nova titular, Maria de Lurdes Rodrigues - curiosa em temas relacionados com a História da Maçonaria portuguesa - a carta que só agora transtornou o noticiário nativo.
A Associação República e Laicismo é, sem tirar nem pôr, uma entidade nascida da convergência de figuras do PS e da Maçonaria. Não gostamos, decididamente, das teorias da conspiração, mas atente o caro leitor à relação que em baixo facultamos e retire as conclusões que julgar oportunas.
Orgãos Sociais da República e Laicidade
1) Luís Mateus, membro destacado da Maçonaria Regular.
2) Maria Helena Carvalho dos Santos, historiadora e professora universitária, responsável pela secção "Problemas da Intolerância" no Instituto de Estudos Portugueses, Presidente da SociedadePortuguesa de Estudos do Século XVIII, militante socialista,ex-Secretária de Estado Adjunta do Ministro da Educação no IX Governo Constitucional presidido por Mário Soares e Grã-Mestre da Grande Loja Feminina da Maçonaria Regular.
3) Maria Helena Corrêa, professora universitária, subscritora da lista de proponentes de Mário Soares à Presidência da República.
4) Francisco Carromeu, militante do PS e verador municipal.
5) Ludwig Krippahl, um dos responsáveis pelo blogue Diário Ateísta de cujas páginas se desprendem pérolas de doutrina anti-cristã que fariam corar o pornógrafo autor do "clássico" Bispo de Évora: "Quiçá o tornou intolerante a velhice ou o Alzheimer. Deus andava tão enxofrado com o divertido método que os humanos tinham engendrado para se reproduzirem, que encomendou um filho a uma pomba. Esta recorreu a uma barriga de aluguer e sujeitou a mulher a uma cesariana para a manter virgem, indiferente aos murmúrios e chistes que sofreu um pobre carpinteiro de Nazaré."
6) Ricardo Alves, o mais destacado colunista do Diário Ateísta.
Não deixa de ser anedótica a notória incompatibilidade entre os pergaminhos e atributos a que se arrogam os "valentes zurzidores da fradalhada"e o tom, no mínimo indigno e tresandando a falta de respeito, dos escritos de alguns dos dirigentes de tal associação. Não sou crente nem pertenço a qualquer agremiação confessional, pelo que se me impõe a obrigação de não me pronunciar sobre as crenças e convicções religiosas dos meus concidadãos. Ora, pelo que se desprende de alguns textos - senão de todos - assinados por dirigentes da insigne confraria, não há ali nem laicismo nem civismo. Tudo aquilo fere as narinas pela grosseria, pela afronta e pela baixeza. Julgo que a Maçonaria nada ganha com esta quixotada, posto que regressa em força à visibilidade com os desbragamentos que terão ditado o clamoroso fracasso da 1ª República.
Julguei que o PS se curara da "doença infantil" do ateísmo, filha do positivismo militante e do cientismo substitutivo da religião. Julguei que os anos haviam serenado as excitações primo-republicanas - que trouxeram Salazar - mas não. Afinal, enganara-me ao presumir que esta confraria seguia a onda zapaterista, com o mimetismo provinciano próprio dos portugueses. A coisa estava há muito preparada. Só espero que não tenha sido cozinhada com os de cá e os de Madrid !
Começo a compreender por que razão Maria Barroso não aparece nos actos públicos do Dr. Soares...

28 novembro 2005

Livros para o Natal: Quando a China mudar o mundo


Vinte por cento da população do planeta, 60 milhões de pianistas, multiplicação do PIB por cinco desde 1978, 97% da população alfabetizada, quintuplicação do rendimento médio por habitante desde 1980, 170 cidades com mais de 1 milhão de habitantes e outras desmesuras fazem do Império do Meio o grande protagonista da cena internacional, anunciando a emergência de uma mega-potência capaz de equiparar os EUA por volta de 2050. O bater de asas deste Ganso Selvagem gigante provoca ciclones nos mercados mundiais. A China, ao aderir à Organização Mundial do Comércio, ditou a morte a muitos proteccionismos e indústrias cuja existência era há muito artificial, pelo que toda a histórica hodierna passou a ter um antes e um depois medido a partir da aberura chinesa.
Quando a China mudar o mundo, de Erik Izraelewicz, agora publicado pela Ambar, é um daqueles livros que se impõe ler. Destrói mitos, consolida apreensões e oferece um quadro explicativo acessível a um grande público. Qualquer decisão e investimento estratégico decidido em Pequim afectam inexoravelmentre o maior banqueiro e empresário ocidental, o mais modesto accionista, a dona-de-casa, o consumidor e o simples cidadão, pelo que acabou o tempo em que o exotismo e as anedotas ditavam a lei. De nada nos serve defender aquilo que se vai esboroar no choque inevitável da realidade. Se a China é uma ameaça, também pode ser uma oportunidade única de mudança estrutural de economias adormecidas. A revolução globalizadora, que já nada pode deter, alterou as relações internacionais e firmou o capitalismo. Quaisquer reacções e tentativas involucionistas serão doravante retaliadas. A China aceitou o repto e ganhou, por ora. Cumpre-se saber se as consequências da adopção do capitalismo e das regras do mercado - a democracia e a ascensão de uma classe média exigindo participação na vida política, até hoje monopólio do PCC - permitirão a manutenção da ascensão do país. Quanto à Europa, terá de rever o seu modelo sob pena de morrer sufocada.
Recomendo vivamente a sua leitura.
Izraelewicz, Erik
Quando a China mudar o mundo. Porto: Ambar, 2005

27 novembro 2005

Cristianismo

Sou a-confessional e, como tal, não terço armas por questões que não me dizem respeito. Contudo, não posso deixar de me sentir agredido quando um governo toma a decisão - tirânica, isto é, sem auscultar quem quer que seja senão os inimigos do cristianismo - de mandar retirar os crucifixos das escolas. Irrita-me tanto o ateísmo militante como a religiosidade que se impõe, pois uma e outra atitudes tresandam a falta de respeito. Esta iniciativa da Ministra da Educação é tipicamente portuguesa. Na onda do zapaterismo, que ao menos tem a provelbial coragem espanhola de abrir uma guerra civil, aqui faz-se tudo em pequeno: é o liliputianismo português no seu melhor, à escala da missanga e da filigrana. O cristianismo é, quer queiramos ou não, a matriz fundamental da nossa cultura. Bem sei que a Europa seria outra se os nazarenos a não tivessem evangelizado. Bem sei que a imposição do cristianismo foi, ao contrário do que rezam os piedosos revisionismos, uma revolução cultural que provocou a morte a milhares de sacerdotes pagãos, queimou-lhes os templos, intimidou os crentes de Júpiter, de Saturno, do Sol Invicto, de Mitra e de Mani, abateu as árvores sagradas dos Saxões, levou à fogueira legiões de adivinhos, arúspices, "bruxas e bruxos", queimou bibliotecas e provocou um recuo evidente do pensamento filosófico, científico e estético que se edificara desde o primeiro milénio a.C. até ao século III da nossa Era. Sei que a imposição do suave jugo de Cristo foi, em grande parte, obra da engenharia da imperatriz Helena, mãe de Constantino, que pela Terra Santa andou a recolher provas e relíquias para legitimar o poder absoluto e jus divinista do novo totalitarismo cesarista. Pesem as malfeitorias da génese, o Cristianismo deu provas de fortaleza e dedicação ao abeirar-se das grandes esperanças e sofrimentos dos fracos, dos doentes e desvalidos, promovendo uma nova antropologia fundada na caridade e na salvação. Intelectualmente, lançou as raízes das ideias de liberdade, igualdade e fraternidade entre todos os membros da espécie humana - que a Revolução usurparia - e deu à Europa a unidade de destinação que lhe permitiu expandir-se e sobreviver. Devemos-lhe muito. O laicismo - que compreendo - não transporta nenhuma fundamentação essencialista, pelo que as sociedades em que se impôs são menos estáveis, mais conflituosas e mais atreitas a cíclicas doenças colectivas vicariantes da sede do sagrado. O século XX foi marcado pelo totalitarismo, que não teria sido possível numa Europa cristã. A necessidade do sagrado é consubstancial ao humano, pelo que, quando a religião é atacada, rompem-se todos os liames que unem o corpo social. No caso pendente, o dos crucifixos retirados das escolas, trata-se, mais que um gesto inútil, de um gesto gratuito. Tenho para mim que antes um crucifixo que um crescente, um orixá, uma estrela de David ou um qualquer penduricalho plástico saído do modismo americano. Antes D. José Policarpo que um tele-evangelista; antes a Bíblia que o Corão; antes a Moral e Religião que a doutrinação política intoxicadora; antes Cristo que o "mercado".

25 novembro 2005

X Files


Sei que em tempos de crise campeiam os medos, companheiros inseparáveis da fome, da peste, das guerras e da morte. A nossa pacata sociedade de modorra e conservantismo vai na onda da depressão. Abro os jornais do dia e aí estão, em tinta negra sobre papel reciclado, os textos que farão as delícias dos historiadores de mentalidades daqui a 20 ou 30 anos: sequestros, matricídios, parricídios, pedofilia, assaltos, infanticídio, mendicidade, desemprego, encerramento de fábricas, predicadores de dedo em riste apostrofando contra forças diabólicas, conspirações, seitas, terrorismo, cheias e secas e demais castigos divinos, bruxos, predições, sinais nos céus...
A depressão chama Thanatos, a crise desiquilibra os fracos, os vulneráveis, os sugestionáveis. Parece que o mundo está prestes a cair sobre todos nós, vítimas da luxúria, do luxo, da abundância e de todas as pragas mosaicas que o Deus de Israel lançava sobre os desgraçados que a Ele obedeciam como escravos. Abro os jornais de 1898 elá estão as mesmas coisas. O mundo não muda; os homens são iguais. É a crise mental cíclica anunciando a nova Aurora ! Metade da humanidade vive imersa no medo da outra metade. Tudo o que se nos é dito carrega armadilhas diabólicas, fantasias e historietas que pensava estarem há muito confinadas ao universo infantil. Ontem apareceu-me um louco, que sempre havia tomado por uma criatura minimamente equilibrada, dizendo-me que os anjos estão a surgir a muitos "puros". "Anjos? Essas entidades aladas?" Sim, os anjos são emissários e estão a alertar-nos para o cataclismo que se aproxima". A criatura é professor de Filosofia. Se até a Razão e o Fogo Grego, que tanto riam da pistis dos pobres pregadores, se deixaram vencer pelos terrores, não sei em que mundo vivo.
Espero, sinceramente, e para bem da nossa pacatez burguesa, que a pistis desses loucos de Deus não os transforme em guerreiros de Deus. O ex-filósofo, confrontado com uma simples pergunta, respondeu-me: "foi Deus que me enviou". Respondi-lhe à letra, como o Senhor Voltaire:"se vem em nome de Deus, mostre-me a procuração". Acrescentei: "entre numa livraria, vá a uma biblioteca, leia um bom livro, compre um CD de boa música, acalme-se e deixe as coisas passarem". A resposta à infantilização, ao desiquilíbrio, à histeria e ao afã de fazer coisas péssimas está na cultura. "E porque não também na ocupação do corpo ? Vá a um ginásio, faça luta e essas toxinas desaparecem. Amanhã acorda outro." "Deixe-se de esgravatar no lixo que inunda a Internet, lixo pseudo-religioso tão nocivo como a pedofilia". Ficou furioso. Espero não o voltar a ver.

24 novembro 2005

A CIA e Portugal



Anda por aí um alvoroço dementado - próprio de um país sem notícias - a propósito da utililização de aeroportos portugueses por aeronaves da CIA. Que mal há nisso? Não somos aliados dos EUA? Não têm as nossas autoridades, especialmente os nossos serviços de informações, contactos, protocolos e obrigações perante os seus congéneres europeus e norte-americano? Persiste a ideia, bolorenta como a Guerra Fria, que os serviços a que chamamos secretos se dedicam a conspirações, conjuras e atentados contra a paz e segurança dos povos. Nada mais errado, pois devemos-lhes a nossa segurança. Não existissem tais instituições e estaríamos (ainda) mais expostos a bombistas, terroristas, kamikazes e demais celerados. Os comunistas são, obviamente, os mais exaltados neste coro de protestos contra a CIA. No seu tempo - quando a defunta URSS dirigia uma rede de espiões, sabotadores, agitadores e informadores - os partidos de Moscovo inventaram a cabala da CIA ao mesmo tempo que davam guarida aos comissários enviados pela Inteligência soviética. O mito do espião malfeitor é, claramente, uma velharia. Neste caso, uma velhacaria.

23 novembro 2005

Mama Sume, Mama Sume, Mama Sume


Foi ontem a enterrar mais um combatente de Portugal. Sobre o ataúde, o vermelho da sua boina brilhava como a consciência do dever cumprido. No passado como no presente, depositárias da unidade e preservação da Pátria e do bom nome de Portugal - na paz e na guerra, em defesa da África Portuguesa, nas trincheiras da Flandres, em Goa, Damão e Diu, em Timor e Macau, mas também na Bósnia e no Afeganistão - as Forças Armadas foram e ainda são um dos esteios essenciais da nossa sociedade. Para além da política, do falso pacifismo e de um certo civilismo que reproduz o gosto pelo caos, pelo contestarismo burguês e pela irreverência que mascara o ódio contra toda e qualquer autoridade - quando não a expressa vontade de dar por encerrada a existência de Portugal - a ética militar, a voluntária renúncia da liberdade civil e a disciplina são um exemplo para todos. Há, decerto, péssimos militares, mas felizmente sobrelevam as brilhantes tradições castrenses de um povo que soube, ao longo da História, fazer da fraqueza força e manter viva a chama que tem mantido, nos bons e maus momentos, a permanência deste povo quase milenar. Fui miliciano durante cinco anos e foi-me oferecido o que de pior e melhor encerram as Forças Armadas. Lembro-me do melhor: da camaradagem, do esforço colectivo nas marchas, na fome, no frio e na sede, da disciplina e na hierarquia que se aceita como algo de tão natural como o acto de respirar. Pena é que a nossa sociedade não saiba acarinhar aqueles milhares de homens e mulheres que se profissionalizaram na arte de bem morrer por todos nós.
Ontem como hoje, na guerra e na paz, não há praças nem galões em torno da bandeira de Portugal. Há, só, portugueses. Mama sume, mama sume !

22 novembro 2005

Rodrigo Emílio: PEQUENO PRESÉPIO DE POEMAS DE NATAL




Com a chancela da editora Antília, animada por esse português de primeira linha que dá pelo nome de Alberto Araújo Lima, será apresentada ao público no próximo dia 30 de Novembro, pelas 19 horas, no Círculo Eça de Queirós, a obra póstuma do nosso Rodrigo Emílio Pequeno Presépio de Poemas de Natal. Confesso que me perturba ler esse grande príncipe do nosso sofrimento colectivo. Há em Rodrigo Emílio o gesto largo e o verbo crepitante da tradição camoniana, o bocageano desassossego e irreverência, a dor resgatadora de Monsaraz, a gravidade de António Corrêa d'Oliveira, a permanência inegociável da tradição e do amor ao povo de um Pedro Homem de Mello e a grandeza solene de Couto Viana. A Estrada Real que percorreu o Poeta de soldado vestido não foi a via crucis , quase suicidária, que muitos teimam retratar. Rodrigo foi o primeiro, o maior, o mais puro e o mais valente. Não foi o poseur que se deixa morrer para exemplo. Vio-o sempre como um homem único, inimitável, calcorreando aventuras espirituais a que o vulgo não pode aceder. O sorriso, a finura e a candura não escondiam violência sublimada, nem acrimónia escarninha. Dizia-me sempre, sem querer ensinar, que o melhor triunfo é aquele que brota do Amor. Vivia perplexo com a maldade dos homens, a inveja e a má-fé dos medíocres, mas não percepcionava o mal como uma entidade transcendental, eterna e absoluta; antes como uma privação de luz e verdade. Nestes Poemas de Natal - cuja aquisição É OBRIGATÓRIA - está, totalmente, a mão do criador. Agora que está longe, ausente, apercebemo-nos da sua absoluta grandeza. É essa a maldição daqueles que são superiores. Só hoje lamento, egoisticamente, não ter sabido estar mais tempo com o Ausente.
Rodrigo Emílio é, com António Manuel Couto Viana, que prefacia a obra, o espelho de virtudes de uma velha raça que se eleva sobre o cascalho da mediocridade roncante em que se precipitaram as belas-letras portuguesas. Ler um e outro, tributar-lhes respeito e admiração, não basta. Importa que a cultura portuguesa os reconheçam e lhes confiram o lugar hoje ocupado por ídolos.


FÉERIE DE NATAL:
DA TALHA DO RETÁBULO À TÁVOLA DA CONSOADA


Enluminura natalícia

Rojam-se aos pés de Jesus
os reinos da Natureza...
O mundo fende-se em luz:
— fica a luz do mundo acesa...

Pelo Sinal da Santa Cruz,
juntam-se à volta da mesa
entre iguarias de truz,
a agonia dos perus
e acepipes de princesa
à sobremesa
— os bons, os justos, os crus,
quebrando, em bodas comuns,
penitências e jejuns
de penúria ou de pureza...

(As ementas e menus
fazem jus, mais do que jus
à liturgia burguesa.).

A estrela alumbra e seduz
de arrebalde em redondeza,

Maria mira essa luz.
São José medita e reza...
Quanto ao Menino Jesus,
Faz ó-ó. Dorme em beleza!...

(Casa de São José, em Parada de Gonta,
às portas do Natal de 1994)



Antília Editora Lda.
Rua 15 de Novembro, 43 - 2.º4100-421 Porto
Telef.: 226068828
Telem.: 917885190Email: antiliaeditora@gmail.com

21 novembro 2005

Sessão espírita


Um domingo perdido em frente da nefanda caixa-maravilha. Chuva e vento convidando a uma boa leitura, a uma visita à exposição da colecção da galeria do Rei D. Luís ou a uma hora de braçadas na piscina. Mas não. Cismei que não saía para assistir a oito horas de documentários que o canal Historia dedicaria aos 30 anos sobre o passamento de Francisco Franco. Uma perda de tempo, um clister, uma purga, um vomitório que envergonharia o mais empedernido mentiroso. Fiquei a saber que:
1) Franco era um semi-analfabeto, com a formação intelectual de um homem medíocre;
2) Franco era enfermiço, complexado e debatia-se com fantasmas edipianos;
3) Franco era um militar sem imaginação;
4) Franco e Salazar detestavam-se;
5) Franco erigiu um regime corrupto;
6) Franco desposou uma "pega ladra" coleccionadora de jóias;
7) Franco sempre quis ver a neta no trono e tentou derrogar a cláusula sucessória;
8) Franco tinha por irmã uma locupletadora de terrenos;
9) Franco era uma criatura fria, calculista, cruel e "medieval";
10) Franco atrasou em décadas a prosperidade espanhola.
Testemunhas ? Nenhuma, com excepção de uma sobrinha de Dona Carmen e de Ricardo de la Cierva. Acusadores? Meia dúzia de jornalistas carregados de baias, despejando banalidades e ódio quimicamente puro, bem como uns velhos lacrimejantes - bons guerrilheiros obedientes a Carrillo - e um fradeco cantando hossanas à Frente Popular, a Azaña e à Passionária. Esta gente não consegue um pouco de distanciamento ? Já não tenho paciência para fanatismos, para ódios cansados e coisas velhas. Dou graças por ter saído a tempo desse mundo de superstições e vistas curtas das crenças políticas e do caudal de banalidade em que vivem enterradas as pessoas que teimam em tiranizar o próximo com convicções nascidas da ignorância e da má-fé.
Depois, perguntei-me, aturdido ainda:
1) Ganhou ou não ganhou Franco a única guerra vitoriosa travada contra o comunismo, a corpo limpo e a tiros ?
2) Devolveu ou não Franco a Espanha a monarquia, travejamento fundamental da unidade do país ?
3) Foi ou não Franco o obreiro das revoluções industrial, social, urbana, tecnológica e científica que permitiram à Espanha ocupar a 10ª posição mundial ?
4) Foi ou não a Franco que se deveu a criação e riqueza dessa classe-média, carregada de brilhantina e chique de Holla com que se pavoneiam os espanhóis por meio mundo ?
De facto, foi graças a Franco que a Espanha se tornou democrática, tolerante e próspera. A democracia decorre da síntese de mudanças de atitude que só se podem afirmar depois de vencidos os atrasos económico, cultural e científico. Perguntava o Caudillo a Adolfo Suarez se julgava inevitável a mudança do regime autoritário após a sua morte. Suarez disse-lhe que sim, que a Espanha seria inexoravelmente democrática. Franco ficou absorto e respondeu com um gesto de ombros. Sabia que aquela Espanha deprimida, negra, esfomeada e rural do passado havia sido revolvida pela sua governação. Sabia que a prosperidade pede liberdade e participação e que aqueles que o haviam secundado seriam os primeiros a denegri-lo ou a esquece-lo. O que não se pode compreender é o afã, que diria quase esquizóide, em perpetuar ódios, ressentimentos e a damnatio memoriae sobre um homem que salvou a Espanha do comunismo e que retirou o país da medievalidade.

18 novembro 2005

Instituições Portuguesas (VII): o doutorismo


Em Portugal é mais fácil encontrar um doutor que um sapateiro, um estivador, um camponês, um operário ou um padeiro. A infestação de doutores assumiu proporções tais que quase arrisco afirmar haver um doutor em cada esquina, em cima de cada árvore ou em baixo de cada pedra da calçada. Há doutores a servir cafés, doutores a vender telemóveis, doutoras a tomar conta de crianças, doutores a fazer cargas e descargas ou a impingir-nos férias poligrupo, tapetes marroquinos e cristaleiras nas ruas . A universitarite não conhece limites sociais, mentais e etários, pelo que vemos verdadeiras criadas de servir, autênticos deficientes mentais e sem-abrigo a estender o doutorismo na ponta de garras verdadeiramente zoológicas ou no prolongamento de queixadas paleontológicas que nem Bosch ou Zurbarán, por amor à espécie humana, se atreveriam pintar. Como disse com piada e acerto Alçada Baptista, após os 30 anos de idade cada um é responsável pela cara que tem. Estes doutores, saídos em ranchos dos viveiros-universidades, quase ágrafos, exibindo um português de vão-de-escada e uma total incapacidade para o uso de faculdades intelectivas básicas, impuseram-se-nos com a arrogância de uma praga que ameaça destruir o que de distintivo a Universidade havia laboriosamente erigido desde a Idade Média; a saber, a superiorização pelo duro labor do estudo, a humildade cultural e a sede inextinguível de conhecimento. Abandonam as universidades como entraram: vazios, mas mais perniciosos porque arrogantes no manuseio da granelagem de tópicos científicos; bárbaros, mas mais especializados, pois aprenderam as técnicas de vendas, a programação de computadores, as técnicas da análise psicanalítica, o cálculo de resistência dos materiais, os sistemas constitucionais, a mecânica dos fluídos, a periodização das eras históricas, a desconstrução de um texto literário mas nunca leram uma obra literária, nunca entraran numa biblioteca ou num museu, nunca foram tocados pelo inebriante, pelo inefável ou pelo indizível da contemplação de tudo aquilo que nos diz "eis-me diante de ti, partilha da minha grandeza". Tenho vivido décadas cercado de doutorecas e doutorzinhos com estantes pejadas de Saramagos, Lobos Antunes, Joões de Mello e restante cardápio de intocáveis - em sentido literal - daquela que se transformou em carta de alforria para o reconhecimento social. São produto da escola portuguesa, que parece ter sido concebida por um deus louco. É apenas no ridículo que se aparenta com a abadia de Theleme, mas aqui não se cultiva o poliglotismo, a nobreza, as artes e o convívio. É uma anarquia de programas e teorias pedagógicas, ministros que entram por uma porta e logo se volatilizam, novos ministros que de camartelo em punho lançam o fogo sobre a seara do predecessor, stôras e stôres proletárias que se deliciam, à hora dos intervalos, a falar do cocó do menino, das peúgas do marido, na saída do Mário Frota ou da última chicotada psicológica do jogo de Domingo. São, sem tirar nem por, iguaizinhos aos queridos papás e mamãs dos monstrozinhos barulhentos, insolentes e grosseiros que os esperam para mais 50 minutos de terapia ocupacional em que devieram as aulas. O panorama não sofre alterações, do básico ao universitário, com a agravante do acesso à docência universitária, que no ensino básico e secundário decorre de concurso público, ser claramente marcada pelo grupismo, pelo lóbismo e servilismo.
O doutorismo escalona-se internamente pela corrida aos títulos. Há milhares de doutorecas e doutorzecos, aos encontrões, espezinhando-se, comprimindo-se, aguardando a abertura de uma pós-graduação, de uma especialização, de um mestrado, de um doutoramento, que até dos já inventados pós-doutoramentos, uns com 25, outros com 27 anos - sem referências, sem bases - exibindo certidões de triunfo para o "mercado de trabalho". Externamente, é a corrida às fórmulas de tratamento. Há os dr's (com minúsculas), isto é, os licenciados; há os doutores (com doutoramento), os Prof.'s dr.'s (os licenciados que leccionam como assistentes dos Prof.'s Doutores, que possuem doutoramente mas não agregação), e os Professores Doutores, que exercem nos pináculos. Esta fantasia de títulos não resiste, muitas das vezes, a um dedo de conversa. Figuras cinzentas, monocórdicas, invisíveis, capazes de anestesiar um tigre da Sibéria, de petrificar o mercúrio ou transformar a Amazónia numa cratera lunar.
O doutorismo é um mal menor num país de analfabetos? Não creio. Falseia, mascara e esconde o perpétuo divórcio da inteligência com a nossa sociedade. Enquanto assim formos, seremos, sem apelo, os últimos.

17 novembro 2005

Coroas e monarquias (II)


Objecções adicionais que se produzem amiúde a respeito da instituição real, toldadas por um véu aparente de racionalidade, prendem-se com a suposta superioridade subjectiva dos detentores da chefia de Estado republicano - cooptados ou eleitos pelos seus concidadãos - face aos chefes de Estado dinásticos, ou ainda, no exagero da manutenção de uma custosa representação - apanágio da sumptuária régia - quando comparada com a modéstia da vida dos presidentes. São dois tópicos pequenos, quase insignificantes a roçar a banalidade, mas que escondem o maior inimigo das monarquias contemporâneas. Estes argumentos exprimem, com disfarce, o mito igualitário; por outras palavras, escondem a inveja. " Se eu não posso ser rei" - dirá o capitalista - "por que razão terão eles o direito de o ser" ? "Somos todos iguais, logo não pode ser tolerada a manutenção de privilégios familiares e de linhagem numa sociedade de cidadãos". É consabida a estreita relação existente entre o poder do dinheiro e a fabricação e rotação das elites no mundo moderno. Os cidadãos são, de jure, iguais, mas os que detêm o dinheiro - empresas, comunicação social e protagonismo - são, de facto, os únicos com aspirações perduráveis ao poder. Os outros, ou são excepcionalmente dotados, ou resignam-se ao papel de caudatários das cortes plutocráticas. O poder do dinheiro garante vantagem social: educação esmerada, influência e profissionalização política. Ora, os filhos dos ricos são, por inerência à sua fortuna, os únicos que aspirarão à chefia de Estado republicana. Olhando para o friso dos presidentes desta 3ª República apercebemo-nos da evidência desta afirmação. Com excepção do General Eanes - produto do thermidor revolucionário - todos os outros são homens oriundos de berços dourados.
No que concerne aos candidatos às eleições que se avizinham, com excepção de Jerónimo de Sousa e Cavaco, os restantes são homens saídos da elite endinheirada. Sobre Cavaco recai, de forma toldada mas perceptível, o sorrisinho crítico das alusões à "bomba de gasolina" de Boliqueime. As repúblicas libertaram-se menos da sua matriz liberal-burguesa de Oitocentos - do enriquecei e prosperai - que as monarquias contemporâneas. Os monarcas do liberalismo português foram todos, sem excepção, homens altamente qualificados do ponto de vista cultural. Os monarcas constitucionais das coroas europeias e asiáticas destacam-se pelo exercício de qualidades humanas e intelectuais que concorrem directamente com muitos nomes grandes da comunidade científica mundial, pelo que está demolida, pelo facto, a tese da congénita incapacidade dos chefes de Estado dinásticos.
Quanto à sumptuária, gostaria de lembrar que o orçamento que cabe à instituição Presidência da República Portuguesa é três vezes superior à dotação atribuída a Juan Carlos de Bourbon, rei de Espanha. A quem beneficia a República ? Quem perderia com uma Restauração ?

16 novembro 2005

Coroas e Monarquias


Sei que algumas das minhas opiniões a respeito da questão monárquica chocam a sensibilidade de muitos simpatizantes da causa real; muitos mais situados na aurea mediocritas sentir-se-ão revoltados por atentar contra convicções do tempo presente. Que sensibilidade será aquela e que convicções serão estas ?
1) Estima-se que os chefes de Estado dinásticos ( vulgo "reis") são pessoas como quaisquer outras, com direitos e obrigações similares aos demais concidadãos, mas carregando o pesado ónus de uma privação da liberdade individual dos titulares em prol do interesse colectivo. As monarquias constituicionais - que estabelecem o princípio do carácter eminentemente arbitral do chefe de Estado na fórmula "o rei reina mas não governa" - quebraram há muito o conceito de monarquia (mono-arquia), ou seja, da irresponsabilidade do soberano perante os outros poderes, que historicamente eram subsidiários ao desempenho da monarquia, mas hoje dele se autonomizaram e até a sobrepujaram. O rei constitucional submete-se a um texto fundamental, às leis e às instituições que, separadas, são fontes de soberania. Resta-lhe desempenhar funções - relevantes, sem dúvida - de representação do Estado, interptretando perpetuidade da comunidade de valores e memória que representa a nação e intervir, em situações extremas, como figura apaziguadora de tensões que possam quebrar a unidade e coesão nacionais. De facto, numa perspectiva rigorosamente politológica, já só existem coroas e não monarquias.
2) Afirma-se que a subsistência de regimes monárquicos se prende mais com características específicas de algumas sociedades, posto que a fórmula republicana se enquadra melhor no espírito do tempo presente, caracterizado pela afirmação da igualdade, da participação livre dos cidadãos e no correspondente direito destes a ascenderem a todos os cargos e funções de um Estado fundado na soberania do povo. Assim, se ainda se explicava a sobrevivência de uma "monarquia constitucional" sob o Liberalismo - que se caracteriza pelo primado da soberania da Nação - não restariam grandes argumentos para a manutenção de tal instituição quando o princípio democrático de soberania popular é o único tido por legítimo.
Porém, como a história recente demonstrou, as "monarquias" são mais eficientes que as repúblicas na gestão das crises internas, são mais representativas que as chefias de Estado republicanas - eleitas ou impostas - e melhor interpretam o desejo de unidade e bem-comum dos cidadãos. Não será por acaso que os países mais civilizados, prósperos, livres e progressivos da Europa se mantiveram monarquias, quando os mais pobres, conservadores e propensos à demagogia e ao neo-feudalismo devieram repúblicas; por outras palavras, os países onde as superstições comunista e igualitária nunca tiveram qualquer expressão eleitoral mantiveram a monarquia e os países com forte tradição autoritária escolheram a república. Não será por acaso que, em África, exceptuando a República da África do Sul, só há um país que escapa ao flagelo dos tiranos ubuescos. Esse país é Marrocos e é monárquico. Na Ásia, o Japão, a Tailândia, o Sultanato de Omã e o Reino da Jordânia fazem a excepção num continente marcado por ditaduras sanguinárias ou por integrismos de toda a sorte.