19 Abril 2014

Apresentação pública de Portugal-China: 500 aos




Terça-feira, às 18 horas, na Biblioteca Nacional. Apresentação do livro Portugal-China: 500 anos.

Na evocação dos 500 anos da viagem que levou Jorge Álvares de Malaca ao Mar da China Meridional com um carregamento de pimenta da Samatra destinado a Cantão, a Biblioteca Nacional de Portugal abriu ao público uma exposição evocativa do longo historial das relações luso-chinesas; relações e não apenas contactos, desdobrando-se em linhas de força paralelas, intensas e complementares que resistiram a conjunturas, encontros e desencontros e são as mais antigas ligando uma nação ocidental a um Estado do Extremo Oriente. A complexa trama destas relações, na qual se cruzaram interesses comerciais recíprocos, a ideologia da expansão portuguesa e a visão chinesa da ordem universal, o zelo missionário e a reacção local, os actos diplomáticos e as dificuldades de comunicação, o assentamento de portugueses e a invenção do luso-asiático macaense, mas também a transmissão de conhecimentos e de gostos, assim como a migração chinesa com destino ao mundo exterior – densa sucessão de acidentes, tendências e períodos – surge como demasiado longa e profunda para ser reduzida e simplificada. O livro põe em relevo os grandes instrumentos das relações Estado-a-Estado (tratados e convenções), o trato diplomático corrente entre os dois países, a evolução cartográfica e iconográfica da cidade de Macau, do séc. XVI ao séc. XX, com importantes apontamentos da acção de fotógrafos portugueses na China a partir de 1880. De autoria colectiva e multidisciplinar, que conta com a colaboração de académicos e investigadores, especialistas nas áreas cobertas pelo trabalho, a saber: fontes historiográficas, tipografia e imprensa, cartografia, urbanismo e história da arte, Padroado Português no Oriente, história das relações internacionais, letras, artes, música, orientalismo e sinofilia, história da ciência e da tecnologia, linguística e história das migrações.

17 Abril 2014


Portugal-China: 500 anos, obra coordenada por Miguel Castelo Branco e editada pela BNP e Babel.

22 de Abril, terça-feira, às 18 horas, no auditório da Biblioteca Nacional.A obra de autoria colectiva e multidisciplinar evoca o longo historial das relações entre os dois Estados. A apresentação será feita pelo Embaixador João de Deus Ramos e por Miguel Castelo-Branco. 

Estrutura da obra:
Comemorar a China no grande encontro do Ocidente com o Oriente - António Vasconcelos de Saldanha 
A China sem mistério: Portugal e a China no início de uma nova era - Miguel Castelo-Branco

PRIMEIROS OLHARES
A primeira descrição da China: o manuscrito da Suma Oriental de Tomé Pires - Rui Loureiro
Bárbaros folangji ao largo - Miguel Castelo-Branco
O grande retrato do mundo oriental: a Peregrinaçam de Fernão Mendes Pinto - Rui Loureiro
Uma descrição da China para leitores europeus:
o diálogo De Missione Legatorum Iaponensium, de Duarte de Sande - Rui Manuel Loureiro 

FORMALIZAÇÃO DO ESPAÇO
A representação da China em Fernão Vaz Dourado - 
Francisco Roque de Oliveira
A primeira carta europeia da China: o mapa de Luís Jorge de Barbuda - Rui Manuel Loureiro 
O delta do Rio das Pérolas - Francisco Roque de Oliveira
Planta de Macau - Francisco Roque de Oliveira
Macau e as cidades comerciais de tradição manuelina - 
Hélder Carita 
Arquitetura sino-portuguesa: um exemplo emblemático - 

PERPETUAR A PALAVRA
Com letras metálicas se começa a escrever - João José Alves Dias
Os primeiros caracteres chineses impressos no Ocidente, 1570 - João José Alves Dias
Os primeiros caracteres europeus impressos na China, 1588 - João José Alves Dias 

MANDARINS DE DEUS
O Padroado Português no Extremo Oriente - Teresa Sena
A Diocese de Macau - Teresa Sena
Tomás Pereira, o jesuíta do imperador - Joaquim Magalhães de Castro
O Édito da Tolerância - Teresa Sena
Sena

DIÁLOGO DA COROA COM O DRAGÃO
A preparação de uma embaixada joanina - Miguel Castelo-Branco
A embaixada de Alexandre Metelo de Sousa e Menezes - 
Miguel Castelo-Branco
O Grande Rolo Amarelo - Fátima Gomes
Chapas sínicas: notícia de uma colecção - Isaú Santos 



DESVENDAR SEGREDOS
Contactos linguísticos luso-chineses: Tomé Pires, intérpretes e missionários - Telmo Verdelho
Produção metalinguística do encontro luso-chinês
e memória da língua chinesa no português - Telmo Verdelho
Mestres-fundidores portugueses na China - Vitor Luís Gaspar Rodrigues
Arsenal de Macau - Vitor Luís Gaspar Rodrigues
Medicina chinesa e medicina ocidental: os primeiros contactos - Adelino Cardoso | Bruno Barreiros

VIAGENS DO GOSTO
A porcelana chinesa - Maria Antónia Pinto de Matos 
Sobre o conceito de chinoiserie - António Filipe Pimentel 
O programa de chinoiserie da Biblioteca Joanina - António Filipe Pimentel
O património musical chinês em Portugal - Enio de Souza
A cultura do chá em Portugal - José Eduardo Mendes Ferrão



ROMPE-SE A MURALHA
O anfião - Maria Helena do Carmo
Macau no tráfico dos cules - Miguel Castelo-Branco 
O Tratado de 1862 - Miguel Castelo-Branco
O Tratado Luso-Chinês de 1887 - Miguel Castelo-Branco
O conde de Arnoso Em Caminho de Pequim - Ana Maria Costa Lopes
Eça de Queirós e o Oriente - Carlos Reis
Camilo Pessanha e uma Ata Secreta do Governo de Macau - Daniel Pires
Diplomatas chineses em Portugal - Miguel Castelo-Branco
Relações luso-chinesas em vésperas de revoluções - 
Miguel Castelo-Branco
A fotografia na China: do declínio da dinastia Qing à Revolução Cultural - Ângela Castelo-Branco | António Faria
Os fotógrafos de Macau e os portugueses que fotografaram a China - Ângela Castelo-Branco | António João Diogo Faria

DAS PORTAS DO CERCO E MAIS ALÉM
O macaense: português do Extremo Oriente - Miguel Castelo-Branco
Os Rangel de Macau: percurso de uma família macaense - Pedro Daniel Oliveira
Portugueses em Hong Kong - Miguel Castelo-Branco
Portugueses de Xangai - Alfredo Gomes Dias

DO CONHECIMENTO QUE FICA
Sinologia portuguesa: caminhos e veredas - António Aresta
Ta-ssi-yang-kuo: um marco indelével da imprensa de Macau - Daniel Pires
Um prefácio inédito de Wenceslau de Moraes - Daniel Pires
Fernando Pessoa bilingue impresso em Macau - João José Alves Dias
José Maria Braga/Jack Braga,1897-1988: ensaísta e colecionador - Isaú Santos
Henrique de Senna Fernandes – o escritor de Macau - 
Ana Maria Costa Helena Cunha Raquel Paradella LopesH

CHEGAR AO MUNDO POR PORTUGAL
A comunidade chinesa em Timor - Fernando Figueiredo 
Os primeiros chineses em Portugal - Ana Matias
Os chineses de Moçambique - Ana Matias
A nova imigração chinesa - Ana Matias



DO ORIENTE, O VERMELHO
O Oriente Extremo - António Araújo 
Tigres de papel - António Araújo 

O RETORNO DAS EMBAIXADAS
Em tempo de Guerra Fria - Moisés Silva Fernandes
Restabelecimento de relações diplomáticas, 1979 - 
João de Deus Ramos
Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre Macau, 1987 - João de Deus Ramos
Relações Portugal-China no século XXI - José Tadeu Soares

14 Abril 2014

Os candidatos a sobas


Tenho seguido com a atenção exigida as propostas para as Europeias. Por mais que procure, ali não encontro uma só ideia de Portugal, e a ideia de Europa ali prevalecente não é a minha, pois não é a de Portugal na Europa, mas a de um quase servilismo perante tudo quanto nos diminui: a minimização e até ridicularização do Estado nacional, a transferência do que ainda remanesce da soberania, a exaltação do centralismo burocrático, da codificação e da falácia da "cidadania europeia", o corte radical com qualquer possibilidade de voltar atrás. Dir-se-ia que se transferiu de Portugal para a Europa a lealdade essencial, e que os objectivos nacionais permanentes desapareceram para darem lugar à defesa de uma lógica geopolítica que foi, é e será sempre contrária ao interesse nacional. Há quem, por seguidismo partidário, pensando o contrário daquilo que diz, sentindo o oposto daquilo que se repete ad nauseam, se dispõe a fazer campanha por tal programa sem ideias e reduzido à pregação da contabilidade e de medos. Comigo não contem para estas tristes cabriolices. Nunca vendi a consciência nos pequenos altares do calculismo e não é um discurso de colonizado ufano que me fará mudar de ideias.
Perante os eunucos da nova Cidade Proibida, só me ocorre, com sonora ousadia em tempo de rendição, um vibrante VIVA PORTUGAL !

02 Abril 2014

Mais umas pernas governamentais

Ségolène Royal saiu eufórica de Matignon. Não se compreende o motivo da exultação, pois à ex de Hollande (também ex-candidata ao Eliseu e ex-candidata derrotada ao Parlamento) havia que dar um lugar (qualquer lugar). É a lei de bronze da oligarquia. Esta gente que nunca trabalhou tem sempre cabidela no orçamento e um palminho de cara sempre ajuda. E queixamo-nos do tachismo português, com a vantagem francesa de possuir umas oligarcas saídas das passerelles. Por aqui, ficamo-nos com versões mais neolíticas de Anas Gomes, Catarinas Martins e outras hirsutas.


01 Abril 2014

Irmão Penitência

A CASA - Centro de Apoio aos Sem Abrigo - informa ter recolhido Almeida Santos, que há meses vivia desvalido num esconso de Alfama. Conhecido por o Eremita, Santos cobria-se com uma serapilheira feita em tiras, mendigando malgas de caldo por uma oração a Nossa Senhora das Dores. Vai dar entrada no mosteiro dos Pobres de Deus, expressando a vontade de receber votos e tomar o nome de Irmão Penitência.

26 Março 2014

Um mito anti-monárquico impugnado: o "nobre analfabeto"


Dom João V tomando chocolate

Historiografia ou ideologia ?

Não há mito que não se alimente sem mentira; não há mentira que subsista com conhecimento. Desarmar os mitos pela via historiográfica revisionista, eis a única receita para desarmadilhar as verdades engrossadas pela tradição, aquelas que, de tão repetidas, se transformaram em doutrina indiscutida. É sabido que desde o século XIX se montou intensa campanha difamatória contra a dinastia de Bragança e contra a nobreza supostamente decaída a partir "absolutismo" do período joanino. Em Rebelo da Silva (A Última Corrida de Touros Reais em Salvaterra, 1848; A Mocidade de D. João V, 1852-53), em Oliveira Martins (História de Portugal e Portugal Contemporâneo), em Junqueiro (Pátria, 1896), em Júlio Dantas (Os inquéritos médicos às genealogias reais portuguesas - Avis e Bragança, 1909) e até na sempre frágil preparação historiográfica de Saramago perpassam a "maldição dos Bragança", a "degenerescência" da estirpe - beata, casmurra, idiota, caprichosa, reaccionária, decrépita, sifilítica, vítima da consanguinidade, violenta ou afásica - e a sua responsabilidade no Finis Patriae. Tudo o que se escreve e repete na Academia parece carecer daquele mínimo de rigor investigativo que coroa a História como conhecimento do tempo passado. Infelizmente, praticamente tudo quanto se faz passar por História é instigado por ideologia ou, pior, por propaganda, não lhe faltando, até, a adjectivação (o pior inimigo da serenidade) e o anedotário jamais sustentado por um simples documento de arquivo.

A nobreza: uma ordem decaída ?

A historiografia dita liberal, proto-republicana ou republicana, estabeleceu uma teoria da decadência nacional pondo de relevo a quebra de vitalidade da antiga nobreza, que supostamente se deixara envilecer, amolecer e domesticar na "vida da Corte", nas procissões "fradescas", nas caçadas e no marialvismo.
Do século XVII não há vestígio dessa queda, nem mesmo no século XVIII. Sirvamo-nos de um recorrente exemplo de mentira institucionalizada. Em compêndios de história seiscentista afirma-se, amiúde, que um dos requisitos para a ocupação do posto de sargento era o de saber contar, ler e escrever, "pois os oficiais são nobres", ou seja, assinam de cruz, são analfabetos. Gastão de Mello de Matos, historiador amante do rigor e da mais exigente tradição positivista, procurou em vão tal documento nos arquivos nacionais para comprovar tal exigência. Nada encontrou. Talvez não fosse necessário tal esforço, pois bastar-lhe-ia ter compulsado o célebre Abecedário Militar do que o Soldado deve fazer para chegar a ser Capitão e Sargento, de João de Brito de Lemos (1631) para ali encontrar cabal desmentido de tal fantasia. O que João de Brito de Lemos afirmava era, apenas, que os sargentos deveriam saber ler e escrever para "fazerem a lista dos soldados da [respectiva] companhia". Dos oficiais, para além do sentido da honra, da lealdade, do serviço do Rei, exigia-se conhecimentos de táctica, teoria de fogos e castramento (ou seja, de defesa).Ora, conhecendo a rol de bibliografia seiscentista e setecentista sobre a arte militar, sabe-se pelos róis das bibliotecas pertencentes à nobreza portuguesa, que tais obras eram conhecidas, lidas e até anotadas pelos respectivos proprietários.
Outra mentira recorrente afirma que os altos cargos no Ultramar eram confiados a nobres impreparados, pelo que para o declínio imperial teria concorrido a fraqueza da elite dirigente. É hoje sabido que os Vice-Reis portugueses na Índia foram, ao longo do século XVIII e até 1821, homens de assinalável mérito, capacidade e preparação, o contrário da lenda-negra oitocentista finissecular. Eram homens possuidores de bibliotecas, com interesses ecléticos, da História Antiga e Moderna, da religião, legislação, literatura, Filosofia, teoria política e questões militares aos clássicos (Horácio, Cícero, Marco Aurélio) (1); mais, eram poliglotas, falavam, liam e escreviam latim e francês, línguas cultas por excelência e possuíam alta consciência e segurança de si mesmos, o que lhes permitia lidar com homens de diferentes condições. Estavam, pois, preparados para o exercício do mando. “Os [Reis] escolhem sempre para este cargo (…) pessoas de raras qualidades e sangue muito ilustre em que concorrem esforço, entendimento e experiência na guerra e em todas as coisas necessárias para a administração de tal cargo" (2). 

Um dos mais importantes combates pela reposição da seriedade no enfrentamento com a sub-cultura republicana é, pois, o debate historiográfico. Se os monárquicos o não compreenderem, terão sempre de partir da desvantagem de lutarem contra imagens negativas poderosas, insusceptíveis de vergarem no debate palavroso. Há que combater a mentira com a História.


(1) ver A.J.R Russel-Wood, “Governantes e agentes”, História da expansão portuguesa, v.3, Lisboa, Círculo de Leitores, 1998, p.179.
(2) ver Francisco Mendes da Luz (ed), Livro das cidades, e fortalezas, que a coroa de Portugal tem nas partes da India, e das capitanias, e mais cargos que nelas há, e da importancia deles, Lisboa, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1960, p.9.


13 Março 2014

Voltemos ao espírito EFTA ou ao primeiro estádio da CEE


Lendo os manifestos para as europeias, salta à evidência que persistem as candidaturas em confundir os sonhos com a realidade. O ídolo Euro ali continua a pontificar. Lembro que, quando surgiu, nos prometiam que o Euro nos iria trazer o crescimento e o emprego, e que graças a essa divisa, a Europa iria ser o espaço económico mais forte do mundo. Uma década e meia após, estamos em quebra de competitividade e nunca como hoje conheceu a Europa tantas assimetrias regionais e sociais, tanto desrespeito pela liberdade económica dos Estados e tanta evasão fiscal e fuga de capitais. O Euro teve o condão de desertificar a Europa. Em vez de atrair, repele. Não vi nessas loas ao Euro a mais leve tentativa de pensar a possibilidade de voltarmos a viver sem ele. A isso chamo miopia política, talvez a forma mais benigna da estupidez.
O Euro morreu e com a sua morte a União Europeia construída em torno dele tenderá a desaparecer. Tal não implica, porém, a morte do projecto europeu, mas a sua conversão num pacto de cooperação entre Estados fundado em realidades económicas distintas, preservadoras dos interesses de nações soberanas.

11 Março 2014

Que venha o milagre


O país pentecostal. Depois da vaga das indignações, veio a maré do não pagamos, logo seguida da mágica "renegociação". Agora, em qualquer café discute-se, com o saber e o rigor próprios deste povo de economistas encartados, a dilemática solução do pós-Troika: "saída limpa" ou "programa cautelar". Não interessa saber o que uma e outra significam. O importante é ter palavras à solta no ar, fingir que o povo-Rei, compenetrado e reflexivo, está em busca da da solução de ouro. O que os credores pensam não interessa, o importante é manter a ilusão que somos senhores do nosso destino. Infelizmente, não o somos há muito, há muitas décadas, mas isso o regime não quer discutir. De maná em maná, dependemos cada vez mais do milagrismo. Este é um povo pentecostal.

06 Março 2014

A Rússia, tão amiga de Portugal como a Grã-Bretanha


O "mundo russo", expressão vaga que remete para uma falsa ideia cunhada nos meados do século XIX - limite impreciso entre a Ásia e a Europa - persiste em semear a perplexidade entre os analistas ocidentais. Da Rússia, supostamente exterior à nossa (des)ordem civilizacional, teima-se em afirmar não pertencer ao Ocidente, ser inimiga do Ocidente e, até, ser mais "asiática" que europeia. É sabido que a intelligentsia russa cultiva do país um conjunto de ideias, antigas de quase dois séculos, de nacionalismo, eslavismo, pan-russismo e que desde Tolstoi e  Dostoievsky os ocidentais se tenham deixado inebriar pelo exótico, pelo misterioso e esfíngico carácter de uma cultura aparentemente incompatível com o ser e os modos das sociedades europeias atlânticas. Contudo, se atentarmos na acidentada história política russa, verificamos, não sem algum espanto, que desde o Dezembrismo (1825) - ou até antes, desde Catarina a Grande - a Rússia quer ser europeia, quer ser reconhecida como tal e pugna por um concerto dos Estados europeus. 

No que nos toca e para quem leu essa importante mas quase esquecida história das Relações entre Portugal e a Rússia no século XVIII, de Rómulo de Carvalho, tornou-se claro que deste o primeiro quartel do século XVIII a Rússia deixou de ser um mistério. A Rússia e Portugal mantêm relações diplomáticas desde 1776 e ali viveram ao longo de décadas largas dezenas de homens de negócios portugueses, animando relevante fluxo comercial que tantos lucros gerou. Ali, também, militares portugueses (Pamplona Corte-Real, Gomes Freire de Andrade, Caetano Teixeira e Sousa e tantos outros) assistiram os exércitos russos na guerras contra o Turco, deixando impressivo sulco nas reformas castrenses de Catarina II. Há dois anos, preparando o meu A Campanha da Rússia, solicitei à Academia Russa documentação desconhecida entre nós sobre a intensidade das relações entre Portugal e aquele império durante as guerras napoleónicas. Ali ficou demonstrado - e copiosamente posto em evidência - que entre S. Petersburgo e a Corte do Rio se manteve uma aliança leal no combate ao violento projecto de unificação da Europa por Napoleão e que, derrotado Napoleão, foi graças à Rússia que Portugal se sentou em Viena com todas as honras devidas a um Estado no pleno uso das suas faculdades soberanas.

Para Portugal, potência marítima agora reduzida à exiguidade de Estado-cliente de uma União Europeia que quase nos despreza, as relações com a Rússia são importantes; mais, constituem elemento de equilíbrio evitando a vassalização ou a manipulação ditada pela incapacidade de podermos contrariar a relação de forças existente. Ao longo das últimas semanas, entre os disparates seguidistas das Necessidades e os quase infantis protestos de lealdade aos EUA - que quase sempre nos recusaram qualquer papel na preservação da aliança euro-atlântica - ficou de manifesto exposto não existir nos corredores da nossa diplomacia nem na política externa portuguesa informação, bom-senso e inteligência requeridas para o saudável e necessário aprofundamento das boas relações de Portugal com a Federação Russa. 

24 Fevereiro 2014

O terrível "Absolutismo"


No tempo do "absolutismo", os concelhos no Reino e no Ultramar eram unidades políticas representativas e autónomas, gozavam de privilégios, foros e liberdades, eram governados pelas elites locais e possuíam riqueza, força negocial, produção legislativa e autodeterminação. A simples visita de um aristocrata, de um prelado, um juíz de fora, um cobrador de impostos, a passagem de uma coluna militar ou a visita do Rei ou de um seu representante careciam de autorização do corpo representativo. Quando Lisboa se lhes impôs, passaram a ser governados do Terreiro do Paço, foram submetidos à tributação fiscal, perderam isenções, privilégios e liberdades, viram a representação usurpada por políticos profissionais e por governadores. No tempo do "absolutismo", eram cidadãos de concelho todos os homens livres maiores de idade. Quando isso acabou, o corpo eleitoral passou a ser censitário e fixado nos limites dos beati possidenti, dele se excluindo todos quantos não fizessem prova de posse de propriedade e riqueza. A cidadania plasmada pela Constituição Histórica e pela indiferenciação dos súbditos perante o Rei foi substituída por uma abstração de "cidadania" que ainda hoje se contenta em enunciar direitos desligados da capacidade interventiva das pessoas.

No tempo do "absolutismo", eram portugueses de direito todos os cristãos que vivessem nos concelhos do Reino ou do Ultramar e aceitassem os princípios da monarquia orgânica de poder indirecto. Da costa de África aos confins do Oriente, as comunidades auto-governavam-se, não havia distinção de origem étnica, a posse do património público era fiscalizado, as instituições matriciais da unidade social - o concelho e a misericóridia - regiam-se por regimentos próprios. Quando tudo isso foi proscrito, os naturais passaram a súbditos, logo depois colonizados e a ideia de "português" foi varrida pelo preconceito racial. De longe chegaram em catadupa leis, regulamentos, avisos e burocratas estranhos ao meio e a propriedade pública e das missões foi usurpada por administradores nomeados pelo centro do poder distante e cego.

No tempo do "absolutismo", sobretudo na sua fase final, governantes notáveis houve que propugnaram a via da industrialização (José Acúrcio das Neves) e da revitalização global do comércio português (Miguel de Arriaga) no quadro da parceria luso-britânica. Portugal, através do ainda polémico tratado de Comércio e Navegação Luso-Britânico de 1810, passou a ser, de facto, uma economia liberal e capitalista, mercê da aplicação do alvará com força de lei de 4 de Fevereiro de 181, que procurou organizar o livre comércio entre as diversas partes do império. Depois, tudo caiu nas mãos de banqueiros, prestamistas e usurários.

13 Fevereiro 2014

Os queijinhos


Alguém terá ficado indignado por ontem aqui me ter referido a "sociologices". Interroga-me o estimado "cientista social" se eu sei o que é a Sociologia. Sei, de gingeira, pois entre sociólogos passei dois anos a fazer inutilíssimo trabalho que partiu do nada e chegou a parte alguma. Posso dizê-lo sem vacilações: foram os mais estúpidos e perdidos anos da minha vida escolar a fazer inquéritos abstrusos sobre saneamento básico, consumo de "bens culturais", despesas de transporte e outras relevâncias, tudo bem regado de queijinhos estatísticos, níveis de mensuração, correlações, factores de análise, variantes e diabo a quatro. No fundo, o paradigma dessa Sociologia funda-se numa crendice positivista que trata de tudo reduzir a números, uma espécie de pitagorismo de segundo grau, o que para mim não passa de Mó Dúu*. Uma fulana minha conhecida conseguiu a proeza de fazer uma tese de 300 páginas inteiramente preenchida com queijinhos, sem uma ideia, sem uma linha; uma desgraça, pois sendo um trabalho de humanidades, tresandava a tecnolatria da mais baixa. Outra, fazia uns mostrengos sobre História da Edição em Portugal só com queijos: de cabra, amanteigados, Serra e das Ilhas. Era um verdadeiro festim digno de Feira do Queijo. Sobre o conteúdo das edições, sobre es editores, nada.
Já por várias vezes respirei fundo e tentei concentrar-me nesses enormes cartapácios de Boaventura e e deles não retirei proveito algum. É o velho albergue espanhol: nas estatísticas e nos queijinhos podemos ver tudo, consoante a cor das lentes dos óculos. Há tempos, um "sociólogo" venezuelano queria impor-me o "facto" - outra inutilidade - dos EUA não serem um país desenvolvido, bombardeando-me com dados estatísticos e queijinhos. A Venezuela sim, era um país desenvolvido, pois os "índices", o "crescimento" e níveis estatísticos ali estavam para o provar.

Para pessoas absolutamente incapazes de percepcionar factores intangíveis, a Sociologice é um bom aconchego. É evidente que no nível estratosférico da Sociologia há pensamento. Simmel e a sua Sociologia do Dinheiro, Weber e os monumentais estudos de sociologia das religiões, Ostrogorsky e os inquéritos sobre a democracia e a organização dos partidos políticos devem fazer parte do curriculum de qualquer leitor. O resto, bá, são queijinhos. Essa sociologice está para a sociedade como certa "filosofia" para pessoas incultas: nada sabem de história, nunca leram um romance, desconhecem em absoluto a arte, não sabem situar um local no mapa, mas falam de tudo com sobranceira autoridade; em suma, coisas de Mó Dúu.
Há uns anos, a filha de uma colega de trabalho veio-me dizer, ufana, que estava a tirar Sociologia na Nova. "Estamos a trabalhar sobre temas da exclusão, disse-me como se fosse um pequeno deus corrector das misérias do mundo. Apeteceu-me dizer: "ó filha, vai ao primeiro alfarrabista nas escadinhas do Duque, compra por atacado os livros da Campanha de Educação de Adultos e saberás muito mais sobre Portugal e os portugueses". Com a bolonhesa em acção, já deve ser doutoranda. Mais uma deputada !

* Mó Dúu: arte adivinhatória tailandesa. Os seus oficiantes fazem-se passar por "doutores" (Mó) que vêem aquilo que os outros - os clientes - não conseguem lobrigar.

07 Fevereiro 2014

A direita amiga dos inimigos


Há alguns anos, envolvido numa linha de investigação que se veio a revelar inconclusiva, pois dela não surgiu qualquer trabalho escrito, procedi na Biblioteca Nacional e na Hemeroteca a levantamento tão exaustivo quanto possível de jornais, revistas e panfletos de acentuadas cores anti-liberais, editados entre 1890 e 1930. Pretendia submeter o trabalho a editora que se pudesse interessar pela génese, raízes e desenvolvimento da Direita-Extrema portuguesa, cruzando-a com similares movimentos e correntes de opinião que pela Europa operaram a transição do nacionalismo liberal para o nacionalismo autoritário. Pretendia, também, compreender em que medida as correntes ditas tradicionalistas - monárquicas e confessionais - se haviam munido de novo arsenal organicista retirado do Positivismo para, assim aggionatas, fundamentarem o requisitório contra o mundo moderno do atomismo individualista, da representação inorgânica e da soberania popular. Cedo, porém, alterei o crivo da análise, esmagado pela indignação. Verifiquei, para meu espanto, que os maiores inimigos da Monarquia entre 1890 e 1910 haviam sido, na ferocidade da difamação, não os republicanos, mas os ditos monárquicos legitimistas que, se bem carregados de moralismo e "bons valores" não poupavam a adjectivação mais reles para lançar sobre a Coroa e seu titular sórdidas atoardas. Foi essa gente, mais tarde, já implantada a república, que da mesma forma procedeu contra o rei D. Manuel no exílio. Foi essa gente, anos volvidos, que deu largas à mais cavernícola selvajaria escrevinhadora contra os grandes arautos do modernismo português, não os poupando aos predicados mais soezes. E quem eram esses "judeus", "comunistas" e "depravados" na sábia opinião de jornalistas semi-analfabetos dos quais a história já não reza ? Ora, eram uns judeuzinhos, uns comunistazecos e uns sibaritas insignificantes chamados Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e António Ferro. Sei que essa dita direita portuguesa dos valores foi sempre assim: do bota-abaixo, da ausência de biblioteca e da mais intransigente incapacidade de pensar. Foi essa "direita do contra-tudo" que quis demolir a Igreja Nossa Senhora de Fátima, por a considerar um "templo-celeiro comunista"; essa direita que nunca abriu mão da estética pequeno-burguesa figurativa do mais estreito realismo e que considerou, sem jamais a ouvir e compreender, a música moderna como encarnação do diabo. Foi essa direita das torres da virtude que intoxicou a ideia de Nação Portuguesa com a degradante ganga importada das revistas francesas. No furor anti-moderno, transformou-se em eco português de circunstâncias que não eram as nossas, impedindo que uma direita capaz de se integrar nas confluências da contemporaneidade se pudesse desenvolver e madurar. Foi porque tal gente exerceu por tanto tempo magistério que, chegado o 25 de Abril, ninguém se atreveu reclamar valores que eram, são e serão - enquanto esta Nação existir - valores da Nação Portuguesa. Pequena, reduzida no arsenal de ideias, sem nada a acrescentar ao que foi dizendo, repetindo e teimando, não encontra interlocutor na realidade que a cerca, preferindo os jogos redondos das leituras gastas, do salvacionismo e dos amanhãs cantantes que, obviamente para ela, nunca chegarão. É curiosa a coincidência gritante entre essa Direita e o PC. No fundo, datados, só partilham uma preocupação: impedir que o calendário se mexa !

Recebi há dias, de mão amiga, um exemplar da biografia intelectual de António Sardinha, da autoria de Ana Isabel Sardinha Desvignes. Li-a com atenção e dei comigo a encontrar similitudes gritantes com o meu Homem Cristo Filho: do Anarquismo ao Fascismo. De facto, essa geração, que teve nas mãos a oportunidade única de fazer uma Direita Portuguesa autónoma, esclarecida, com obra e direito à opinião, estiolou-se, petrificou e foi-se transformando numa verdadeira prenda à esquerda. Hoje, passados oitenta anos sobre a morte de Homem Cristo Filho e Sardinha - dois espíritos irrequietos e agressivos, sem dúvida, mas plenos de ousadia - vejo que deles nada ficou para além das sombras e defeitos de carácter que os dois, talvez pela juventude, tão manifestamente exibiam no furor da esgrima. Ficou, nessa Direita, simplesmente, o dizer não a tudo e ser contra tudo. Que tristeza.

31 Janeiro 2014

Dos Açores com génio

"Com o “direito ao canudo” sobreveio o “direito à praxe” e o ritual de integração na Academia degenerou numa legitimação parola da humilhação. Na cultura do facilitismo os estudantes veneram as tunas, os trajes e as praxes, em vez de idolatrarem, com aproveitamento,Atena ou Minerva. Tudo sinais exteriores de uma classe social com estatuto corporativo. Eça, bom conhecedor da psique do arrivismo, satirizou que a maior vantagem da Universidade, como instituição social, era o “apartheid” entre estudantes e futricas. Entre os que «vivem de revolver ideias» e «aqueles que vivem do trabalho». Duas classes : «uma que sabe, outra que produz» em «dois mundos que caminham paralelamente na civilização: um com o título egrégio de Bacharel, outro com o nome emblemático de Futrica». O deslumbre português com os “doutores e engenheiros” é atávico e tolera este “status quo”. Nos campus universitários é tradição a encenação burlesca de tribunais com “julgamentos” e “execuções” sumárias dos praxados. Brandos costumes para uma audiência ignorante, cujo espírito se alimenta da boçalidade e não das Letras. Para lá dos casos de polícia, reservados aos verdadeiros tribunais, a praxe é um caso de indigência mental".

João Nuno Almeida e Sousa, in O Açoriano Oriental

28 Janeiro 2014

Infecções da mentira - Dona Carlota Joaquina



Li em tempos As Lobas do Escorial, de Michel del Castillo, verdadeiro novelo erótico-paródico e dei-me conta das flagrantes similitudes com muita da panfletagem posta a circular nas décadas de 1830 e 1840 contra uma das mais inteligentes, argutas e politizadas mulheres de finais do Antigo Regime em Portugal e Espanha. Carlota Joaquina, infanta de Espanha, Princesa Real de Portugal e, depois, Rainha de Portugal, uma das mais ridicularizadas e caricaturadas figuras desse extraordinário momento de transição da ordem antiga para o Liberalismo, merece sem dúvida um lugar destacado na história da difamação. Não obstante terem sido impugnadas as lendas e acintes contra ela postos a circular por uma sub-literatura inquinada a extremos de pornografia - vide Sara Marques Pereira, D. Carlota Joaquina e os Espelhos de Clio, Lisboa, Livros Horizonte, 1999 - persiste a lenda de uma mulher desbragada, desequilibrada, presa de furores de uma Messalina, matéria quente que comprova o sucesso antecipado dos enredos baixos; espelho, afinal, da irresistível atração que as pessoas vulgares têm pelo sórdido.

Conhecidas são as Cartas Inéditas de Carlota Joaquina, editadas por Francisca Nogueira de Azevedo. Ali, não há vislumbre de loucura, de desequilíbrio nem qualquer palavra que indicie o estendal de imundície que logo se instituiria.

Tratando-se de uma das principais protagonistas da intriga política que culminaria com a invasão de Portugal e Guerra Civil entre legitimistas e pedristas, sempre me questionei sobre o lugar e o papel de Carlota Joaquina nesse crisol de ódios caseiros [inspirados e pagos de fora] e que culminou com a instauração de uma nova ordem política na década de 1830. Não, uma figura insignificante, medíocre e torpe não poderia ter alcançado o lugar que Carlota Joaquina ocupou ao longo de quase duas décadas. O ódio contra ela foi crescendo, atingindo culminâncias após a sua morte e continuando a acastelar-se de anedotas e piadas ao longo de um século - vide de Francisco de Assis Cintra, Os Escândalos de Carlota Joaquina, 1934; vide Laurentino Gomes, 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil, Rio de Janeiro, Planeta, 2007 - a tal ponto que se converteu em anexim do partido derrotado. O século XIX foi particularmente cruel com as mulheres - que haviam dominado o século XVIII - e a ordem burguesa triunfante tratou de as reduzir a mínimos de visibilidade, inteligência e importância, pelo que Carlota Joaquina - por ser mulher, por ser política, por ser tenaz e, também, por ser espanhola - reuniu o complexo de medos e preconceitos de uma nova sociedade. 

A lenda negra de Carlota Joaquina tem por promotor um tal Jose Prezas, aventureiro espanhol que em 1808 se insinuou junto da Corte e passou a ocupar funções de secretariado da então Princesa Real no Rio de Janeiro. Tratava Prezas de todas as matérias atinentes à relação de Carlota Joaquina com a agitada vida da corte espanhola, num momento em que se iniciava em Espanha - por força da aliança com Napoleão, logo transformada em ocupação francesa - uma sangrenta luta pelo poder. Carlota Joaquina tinha ambições e estava decidida a jogar toda a sua capacidade na ocupação da regência espanhola. Era uma ardente defensora a ordem antiga, mas temperada pela leitura e alguma curiosidade pelo Iluminismo católico. Ferozmente anti-revolucionária, não era contudo uma imobilista. Na sua correspondência evidencia-se a capacidade de procurar compreender o que estava em curso na Europa pós-1789, havendo até na sua correspondência curiosas notas e reflexões sobre a possibilidade de dominar o curso dos acontecimentos por meio de concessões negociadas com sectores aberturistas do Antigo Regime e com os homens de "ideias avançadas" (liberais). Não deixa, porém, de ser uma evidência que era uma fiel depositária de um conceito de ordem política centrada na Coroa, uma católica devota e uma inimiga declarada de forças obscuras cuja menção se nos afigura desnecessário referir. Ora, entre 1808 e 1812 (Cortes de Cádis), Prezas foi o confidente da Princesa Real. Em Cádis decidiu-se que a regência passaria para um orgão colegial - Conselho de Regência - e não para um Príncipe/ Princesa de sangue, pelo que Carlota Joaquina abandonou as suas pretensões. O "dr" Prezas, subitamente desempregado, passou a exercer chantagem sobre a sua benfeitora, pedindo-lhe uma pensão por serviços prestados. Carlota Joaquina sacudiu a criatura, não temeu as ameaças. De secretário, Prezas transformou-se em inimigo e partiu, convertendo-se em apóstolo das "novas ideias", coisa não rara noutros momentos da história, quando rancores, ódios, invejas comezinhas se coroam de princípios para melhor se justificarem. Assim foi com Junqueiro contra D. Carlos e até com Herculano contra o Portugal Antigo.

A obrazinha de Prezas seria publicada em França em 1827 (Memorias secretas de la Princeza del Brazil) pelo editor Carlos Lavalle e Sobrinho. Brest era, na França que antecedeu a Revolução de Julho (1830), um viveiro de imprensa anti-monárquica. A edição das Memórias Secretas - correspondência apócrifa do punho de Prezas - transformou-se num dos estandartes dos "exilados". Paga por Mendizábal, foi acolhida com grande júbilo. Não se compreende como D. Pedro, filho de Carlota Joaquina, pôde dar assentimento a tal repugnante ultraje à memória da sua mãe, entretanto já falecida. Como sempre digo a um bom amigo, a política é coisa perigosa como repugnante - um Minotauro sem alma e sem princípios - mas há limites para a indecência.

21 Janeiro 2014

O carnicão



Ontem falou-se ao jantar em Cavaco, cavaquismo, cavaquistas e outras questões de relevância equivalente. O ardor com que alguns investem na matéria deixa-me surpreso, tão indiferente e incólume me deixou quando a questão se revestiu de alguma novidade que agora é, permitam-me o atrevimento, um mero passatempo para o aparelho fonador. Nunca compreendi, desde a sua génese, o que foi, era ou é o "cavaquismo". Lembro, sim, aquele tropel de gravatismo sem ideias, de arrogante galga trepadeiras, de arrazoado economês, de meninas retocadas como Barbies brincando ao business, da moda das gestões e dos marketings, do desprezo pelos ofícios produtivos que acometeu uma geração inteira de meninos convertidos à pragmática do terciário colarinho branco, do boom dos cartões de crédito, do ter um carro, um apartamento numa "nova urbanização" a toda à pressa para exorcizar séculos de caminhos pedregosos no dorso de mulas, da jogatana desenfreada da bolsa e dos milagres da D.ª Branca. Lembro, sim, que essa gente cuspia na cultura, na literatura e em tudo o que nobilita um ser humano adulto afirmando, sem rebuço, que tudo tem um preço, um lugar no mercado e um "nicho de consumidores". E como o povo, embrutecido, iletrado e incivilizado pedia futebol, telenovelas, viagens ao Brasil e jet-7, fez-se-lhe a vontade. Se o Portugal do antes do cavaquismo era terceiro-mundista, acendia velas à inveja, à pinderiquice socialistóide e se comprazia em exibir mulheres de buço e o lumpen de mão estendida à caridade do Estado, os dez anos que medeiam entre 1985 e 1995 - mais o cavaquismo piegas de Guterres que se lhe seguiu - diluiram a cultura cívica, dinamitaram a respeitabilidade das forças fáticas, instituíram uma cultura de direitos - direito à riqueza, ao consumo, direito ao canudo - sem exigir trabalho, compeneração, esforço e qualidade. Muito daquilo que hoje se diagnostica teve a sua génese nesses anos de dourada promoção do nada em que Portugal, subitamente bafejado pela cornucópia dos fundos germânicos, preferiu as croissanterias, os jeeps e os aparthotéis à cultura da exigência. O cavaquismo é um velho carnicão. Está lá, ainda, seja em versão socialista, seja em "social-democrática". É um espinho cravado entranhado que nos vai privando, ano a ano, ao direito de sobrevivermos enquanto comunidade.