31 Julho 2014

Os nacionalistas das causas alheias

As últimas semanas tornaram notória a existência entre nós de um ardoroso nacionalismo de novo tipo: o nacionalismo das causas alheias. Exaltar Portugal, defender o seu ser e destinação, a sua liberdade, auto-determinação e independência é crime. Contudo, pelo que me apercebo - à esquerda, à direita e ao centro - é lícito, conveniente e angariador de bom nome terçar armas por outros. Pelo que também me é dado ver, há entre nós mais nacionalistas israelitas que patriotas portugueses, mais fedayin palestinos que lutadores por Portugal, mais estrénuos batalhadores pela União Europeia que orgulhosos portugueses. Eu compreendo que em tempos de crise muitos andem em busca de poiso, tudo fazendo para merecer umas migalhas caídas da mesa dos banqueteadores das causas milionárias. É tudo uma questão de bandeiras e de estipêndio. Curioso que no meio de tanta algazarra não me tenha apercebido de "luso-nacionalistas Curdos", de "luso-nacionalistas Rohingya", de "luso-nacionalistas malianos" ou de "luso-nacionalistas Caxemires". Pois, não pinga nada dessas pobres causas. Defender Portugal acarreta problemas. É politicamente sensível. Onde estão os luso-nacionalistas das causas alheias insurgindo-se contra o tratamento de Estado-vassalo concedido pela UE a Portugal ? Onde estão os luso-nacionalistas das causas alheias rebelando-se contra os comissários europeus que aqui são recebidos com grinaldas, com o pão e o sal concedido aos governadores de uma província imperial ? Assim vai o povo português, frivolizado, confuso, tele-dirigido e indigno rumo à escravatura. Caladinhos, amedrontados, respeitadores do chicote, salivadores pela cenoura; assim fiquem, ardorosos portugueses, pois nada se espera de vós. Pois é, lá está o Miguel a dizer "coisas daquelas que tornam impossível metê-lo em qualquer grupo".


19 Julho 2014

Ainda somos independentes ?

Ouvi esta noite uma senhora, eurodeputada pelo PS, exaltada pela sua putativa elevação a Comissária dessa coisa que dá pelo nome de União Europeia. Dela, não ouvi uma só vez a palavra Portugal. Quando se referia a Portugal, fazia-o com quase dor, como se de algo secundário se tratasse numa ordem superior a que chama de Europa. Foi um interminável solilóquio de "patriotismo europeu". Esta gente está, positiva e animicamente, empenhada em destruir o que resta do Estado soberano. Querem-nos impor uma nova ideia de Estado. Podemos dizer que há Estado, quando este goza de soberania. Assim, o Estado soberano goza de soberania porque está sobre tudo e tem como atributos a plenitude, a permanência e a independência. Contudo, o Estado não é resultado nem de um contrato escrito, nem de um estado de alma. O Estado possui um fundo ôntico, sai do carácter de um povo que quis ser nação, tem uma dimensão espiritual, cultural, afectiva antes de ser um mero ordenamento jurídico. Ora, essa coisa a que chamam de União Europeia - que não é união nem é europeia - trata de substituir a soberania do nosso povo feito Estado num enunciado de leis, regulamentos, instituições. Esse "Estado" que nos querem impor - com a aprovação de todos os nossos eurodeputados, do Bloco ao CDS - é o anti-Estado, é uma imposição, viola a nossa história, viola o nosso carácter. É, tenhamos coragem de o dizer, uma tirania. Onde estão os portugueses de lei e de sentimento para contrariar este movimento que nos leva ao suicídio ?

08 Julho 2014

Expliquem-me os génios anti-função pública

Não há dia em que não ouça catilinárias contra o funcionalismo do Estado. Há quem atribua a insustentabilidade financeira do Estado aos funcionários. Trata-se, obviamente, de enviezamento e de má-fé alimentada por parti-pris ideológico. O Estado português dá emprego a c. de 12% da população activa - na média dos números da OCDE - e congelou há muito a entrada de novos funcionários. Ora, dos 70 mil milhões resultantes da receita fiscal, 38 mil milhões o Estado nem os vê, posto destinarem-se ao pagamento de reformas e pensões da segurança social. Assim, dos 70 mil milhões iniciais, remanescem 32 mil milhões que transitam para Orçamento de Estado e para pagamento dos juros da dívida. Destes 32 mil milhões, 60% destinam-se a gastos dos ministérios e serviços e 40% a gastos com vencimentos dos servidores do Estado. Assim, o funcionalismo público será "responsável" pelo consumo de 1/5 a 1/6 do total da riqueza resultante da colecta de impostos. Pouco, muito pouco. Chega, meus caros, de massacrar os funcionários do Estado e de transformar em inimigos da governação quem aplica as políticas da coligação.
Começo a ficar farto de ouvir ataques vindos de pessoas que nunca trabalharam na vida.

04 Julho 2014

CDS sem Portas

1. Corre insistentemente nos jornais o rumor da iminente saída de Portas da direcção do CDS-PP e sua eventual substituição por Pedro Mota Soares, Assunção Cristas ou Nuno Melo. Três figuras simpáticas não fazem um partido. A acontecer, vaticinamos, respectivamente, 3%, 4% e 5% para o partido. Pior, se a oposição interna ideologicamente mais estruturada cometesse a imprevidência de correr à liderança, talvez saísse um partido mais coerente e arrumado nas ideias, mas nunca maior que o célebre "partido do táxi" saído das eleições de 1987. No pior, como no melhor, Portas é o PP e nos tempos que correm jogos e apostas em roleta russa - com o revólver com cinco munições - a probabilidade de morte é de 80%.No jogo político, o factor determinante é a existência ou inexistência de carisma. Não me parece, sinceramente, que exista fogo, gabarito e capacidade de arrastamento pelo verbo capaz de ocupar o lugar de Portas.

2. No que ao "vazio doutrinal" respeita, concordo com algumas objecções feitas ao método de navegação à vista seguido pela direcção. Contudo, se seria importante que PP voltasse às suas performances criativas do passado, mais interessante seria de esperar que a oposição à actual direcção do partido apresentasse alternativas e orientações claras. O que tenho visto em algumas agendas é pouco, é pobre e, sobretudo redutor e até perigoso, nomeadamente a agenda "pela vida". Dir-se-ia que, para alguns, o PP se deveria especializar em programas "anti-fracturantes", ou seja, num anti-Bloco de Esquerda. Não me parece, salvo por ausência de formação cultural e de mundo, que um partido se transforme em liga de "bons costumes" e seminário. Para isso existe a Conferência Episcopal Portuguesa.

02 Julho 2014

A França brincando à justiça

Nicolas Sarkozy foi detido ontem de manhã em resultado de mais um escândalo de ilegalidades cometidos durante a passagem da criatura pelo Eliseu. Que se saiba, de Gaulle era um homem probo no que concernia a tentações venais. O seu sucessor iniciou a espiral da promiscuidade entre a alta finança internacional e o interesse do Estado - ou não fora Pompidou o mais alto dirigente do grupo Rotschild ? - e, logo, Giscard aumentou a parada (os diamantes de Bokassa), para sob Chirac a presidência se converter em seguro de inimputabilidade, imunidade e intocabilidade para o presidente e seus esbirros. No interim, Mitterrand ordenou ou permitiu que se cometessem crimes de sangue. O seu sinistro consulado aguarda momento favorável para que se franqueiem os documentos dos serviços secretos, mas os indícios são tão terríveis quanto indignos. Sarkozy, esse, terá sido, talvez, a mais insignificante, voraz, impreparada e venal figura de arrivista que se sentou no sólio presidencial. Com ele, a dignidade da função desceu às vísceras. Borsalino no Eliseu, eis a imagem que melhor se cola a Sarkozy. Para quando a radical mudança de regime que permita à França recobrar o seu papel no concerto das nações ocidentais ?

A batalha semântica de um regime sem-vergonha

Os tribunais acusam-no de corrupção, os advogados contrariam, alegando tratar-se de "tráfico de influências". Mais, na batalha que agora se inicia, queixam-se os juristas da excessiva dureza no tratamento conferido a Sarkozy - que incluiu mandado de detenção seguido de interrogatório - medida que contrasta com outros casos análogos (vide Chirac). É evidente que Sarkozy merece tratamento igual ao de qualquer outro cidadão. Contudo, parece-nos claro que há uma diferença entre a personagem e um vulgar cidadão, tanto mais que Sarkozy parece ter cometido todos estes agravos legais no exercício das funções. Para a UMP, tratou-se de um vexame. Pergunto: se esta gente se considera inimputável, acima da lei, habituada a um regime de excepção - assim o garante a lei de bronze da oligarquia - como se sentirão os cidadãos normais, sem influências, sem meios e sem conhecimentos ? A república francesa, sabíamo-lo há muito, pode ser, com toda a propriedade, considerada uma oligarquia. Os regimes oligárquicos caracterizam-se pela desigualdade de oportunidades, pela repetida prática da discriminação positiva que beneficia os apparatchik, pela confusão entre entre os interesses da casta dominante e o interesse do Estado, pelo fisiologismo irrefreável, pela tomada do aparelho do Estado para fins que contrariam o interesse colectivo. 
Vai o caso Sarkozy terminar na barra dos tribunais ? Não, não vai nem pode, pois o regime - todo o regime, da UMP-PS aos turiferários da esquerda - não pode correr o risco de ser exposto nas suas imposturas.

31 Maio 2014

Desamor

Atribui-se um valor excessivo à coerência, sem que muitas vezes nos demos conta que a mudança acontece em tudo e que nós mesmos não somos quem éramos há meses, anos ou décadas atrás. Dizia-me ontem um antigo amigo - antigo porque a amizade, exposta à erosão, se reduziu a mero conhecimento - que as suas opiniões políticas haviam mudado radicalmente, e que disso só tomara consciência quando o seu velho mundo de afectos desabara. De marxista, considera-se hoje conservador.

Torna-se difícil racionalizar o desamor. A tomada de consciência do desamor pode ser brutal; porém, seria tolo pensar que deixamos de gostar brutalmente. Há, sim, um esvaziamento insidioso e silencioso, que mal se revela, mas explode subitamente. Há quem fuja psicologicamente do terrível momento em que se exige lavrar o atestado de morte da auto-representação que cada qual foi construindo. Estes rituais de morte e passagem para uma nova vida não deviam ser fonte de incómodo e mal estar, mas de alívio e apaziguamento. Não é, pois, necessário recorrermos ao Yi Jing para explicar a mudança do mundo político europeu. Aconteceu, mas estava a acontecer há muito, sem que a generalidade disso se tivesse apercebido. No passado domingo, acordaram subitamente. Ora, deviam ter sido mais sensíveis e ter prestado mais atenção à intuição que à razão.

28 Maio 2014

Onde param os fascistas ?


Wolfgang Schäuble, o Torquemada das finanças europeias, definiu ontem a Frente Nacional de Marine Le Pen como "um partido fascista". Corrijamos. Se há um grande angariador de votos "fascistas" na Europa, esse será certamente Schäuble, cujo entendimento da acção governativa se reduz ao mais estrito barbarismo financeiro. 
Para lá da completa ausência de formação humanística - seria pedir muito a um homem de contas - Schäuble reuniria todas as condições para receber o apodo de fascista, conhecidas que são as suas posições belicistas (apoio à invasão do Iraque e da Líbia), as assunções liberticidas (defesa da manutenção de Guantanamo, defesa da detenção de suspeitos de terrorismo sem mandado, defesa entusiástica de políticas de reconhecimento biométrico) e, até, o apoio a práticas expeditas de repressão, tal como a eliminação de suspeitos de "terrorismo". 
Para mais, o pequeno ditador parece ter-se especializado no ataque a tudo e a quantos reclamem a defesa do interesse nacional dos Estados no processo de construção europeia. Não foi Schäuble quem ameaçou o Reino Unido de severas represálias, caso os britânicos persistissem em contrariar o sonho alemão da Europa ? Não são consabidos o profundo desprezo que vota aos "povos do sul" e a ideia de que a Europa é o Norte e o Centro, sendo que o Sul ali está apenas para lhe diminuir a riqueza, embotar a irradiação, mendigar-lhe favores imerecidos ? Quem é o fascista ?

21 Maio 2014

Austrália: achamento português


A descoberta da Austrália foi o tema da conferência hoje produzida por Luís Filipe Tomás na Biblioteca Nacional de Portugal. A polémica sobre o achamento do continente Austral pelos portugueses no século XVI mantém-se viva. Um cone de penumbra continua a persistir em torno do tema, cone que não é de luz pois não há qualquer prova documental, mas que também não é de sombra. Alguns, precipitadamente, atribuíram o feito a Cristóvão de Mendonça. Tomás provou que Mendonça não o pudera realizar, pois na data avançada por alguns historiógrafos encontrava-se a caminho de Cochin, vindo de Malaca. Ganha consistência a tese, segundo a qual o achamento se terá ficado a dever, não a um representante da Coroa, mas a um ou mais dos muitos comerciantes de sândalo que demandavam Timor todos anos para aprovisionamento dessa madeira preciosa. O achamento terá sido múltiplo, não se tendo os portugueses interessado por essa "terra incógnita" - já presente na cartografia de então como situada a Sul de Java Maior (Sumatra) e Java Menor (Java) - pois, potência mercantil em regime de capitalismo régio, a Portugal só interessava abrir mercados receptivos a trocas comerciais. Na Austrália, como lembrou Tomás, os povos que a habitavam - rudes, nus e primitivos - não ofereciam quaisquer condições para a realização de negócios e cabedais. 
Num exercício de erudição sobre cartografia antiga, Tomás demonstrou que a chegada dos portugueses à Austrália era incontornável, apresentando cartas produzidas pela escola cartográfica de Dieppe, que desde a década de 1530 passou a referir-se insistentemente ao continente Austral, que então se pensava alargar por todo o Índico Sul, até ao extremo sul de África.

20 Maio 2014

Confusões "tradicionalistas"


Dou-me conta que alguns caríssimos amigos "tradicionalistas" persistem em usar conceitos inventados pelos seus inimigos no século XIX e que disso fazem grande exibição, nomeadamente as contraposições entre antropocentrismo v. teocentrismo, sacralização v. secularização e imanentismo v. transcendentalismo. Ora, qualquer leitura, mesmo que superficial dos autores de referência do século XVIII, permite-nos verificar que não tem mais sustentabilidade a velha teoria que trata de associar a Ilustração (as Luzes) ao fenómeno da descrença. A realidade é bem outra: às Luzes da descrença e até do ateísmo, opuseram-se um Iluminismo católico, um Iluminismo protestante e até um Iluminismo judaico. Não, o Catolicismo não se opôs ao conhecimento do homem, da sociedade e do mundo. Chega de confusões.

10 Maio 2014

A cultura agrilhoa


A cultura liberta, mas a cultura também agrilhoa. Há quem persista em exaltar a crença iluminista da libertação pela cultura. Nada de mais enganador. As pessoas mais intolerantes, mais fanáticas e perigosas que conheci ao longo da vida eram, quase todas, "pessoas cultas".


Goebbels, sem dúvida uma inteligência de excepção, muda abruptamente de semblante ao saber que o fotógrafo da Life (Alfred Eisenstaedt) era judeu. Lembro-me de um episódio infelicíssimo em que fui premiado com uma destas atitudes. Certo dia, convidado pelo Miguel Esteves Cardoso, participei num jantar de apoio à candidatura do MEC ao Parlamento Europeu. Sentaram-me numa mesa e tinha à minha frente o João Aguiar (que Deus o tenha). Após os protocolares apertos de mão, vi-o olhar fixamente para o cartão com o meu nome, que os promotores haviam colocado no lugar que me haviam destinado. Subitamente, o JA levantou-se, atirou o guardanapo para cima da mesa e pôs-se a vociferar, apontando para a mesa e repetindo "eu não me sento com gente desta". Era o tempo da Nova Monarquia e das terríveis perseguições contra nós movidas. Como um qualquer sacerdote brâmane, terá pensado que este pária lhe sujaria o bom nome.

08 Maio 2014

Generais de orçamento

Mais de uma dezena de oficiais generais abandonou esta quarta-feira as instalações do Instituto de Estudos Superiores Militares (IESM) como sinal de protesto pela presença do ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, no lançamento do último livro do general Loureiro dos Santos, "Reflexões sobre Estratégia VII - Tempos de crise". (...) "Os generais, todos eles na reserva ou na reforma, estavam presentes para a referida cerimónia, ao fim da tarde, mas deixaram a sala quando se aperceberam da chegada do ministro e de que ele poderia intervir, o que não chegou a acontecer". in Expresso, 6-5-2014

É evidente que os senhores generais na reforma - todos capitães por ocasião do 25 da Silva - não se preocupam com a modernização, com a operacionalidade e prontidão das FA's. Em Portugal, salvo raríssimas excepções, todas as revoltas castrenses são ditadas por questões bem menos nobres que a salvação da pátria. Eis, em síntese, o estado a que chegámos: a brigada do reumático dando por inegociáveis os cortes nas reformas e não querendo participar nos sacrifícios impostos aos restantes portugueses. Boa ética patriótica, sem dúvida.

05 Maio 2014

Propagandas


O herói de Kiev. Há dois meses, o trepador de Kiev, então preparando-se para apear a bandeira russa do topo de um edifício, foi aplaudido pelas costumeiras sirenes da intoxicação como a face da nova geração de freedom fighters da democracia. Ora, eis hoje o valente escalador envergando o seu melhor uniforme de trabalho.

02 Maio 2014

Getúlio Vargas: 60 anos do Brasil sem rumo


Cumprem-se em 2014 seis décadas sobre a morte de Getúlio Vargas. Pediu-me um amigo, docente numa universidade brasileira, que sobre Getúlio escrevesse umas linhas, destacando as similitudes (hoje muito contestadas) entre o Estado Novo de Vargas e o Estado Novo de Oliveira Salazar. Contentar-me-ei em enviar-lhe dentro de dias umas quantas linhas sobre as relações luso-brasileiras no período que medeia entre o pré-guerra e a primeira saída de Getúlio do poder, em 1945.

Quando, por força das perseguições hitlerianas, Stefan Zweig se estabeleceu no Brasil, foi tomado de verdadeiro entusiasmo por aquele país de dimensões continentais e riquezas inexauríveis que o condenavam ao melhor dos futuros. Em homenagem ao país-irmão, escreveria Brasil, País do Futuro. O entusiasmo de Zweig era claramente suscitado por Getúlio Vargas, estadista a quem o Brasil terá ficado a dever a finalização jurídica e administrativa do Estado, até então jugulado pelo apetite das oligarquias localistas. Autoritário e ditatorial na sua fase inicial (1930-45), Getúlio - que gozava de apoio popular incontestado - voltaria ao poder democraticamente em 1950. Foi graças a Getúlio que o Brasil, até aí uma enorme plantação de café e borracha, ascendeu à plena independência económica. A criação da siderurgia e, mais tarde da PETROBRAS, caboucos da industrialização em programa de nacionalismo desenvolvimentista, permitiriam àquele país furtar-se da colonização económica norte-americana. Se as grandes realizações materiais incluíram as obras públicas, a criação da indústria pesada, a rede hidroeléctrica, a agro-indústria e a mineração voltadas para o mercado mundial, nas realizações imateriais ou intangíveis poderão elencar-se o modelo de ensino aplicado, o estímulo à investigação científica e tecnológica, a criação de um corpo de quadros técnicos que dispensaram a ingerência da assessoria estrangeira. Vargas assinalou o caminho. Infelizmente, o Brasil parece não ter tido capacidade para acompanhar o visionarismo daquele homem de excepção. 

Perdeu-se o rumo, a racionalidade e, sobretudo, a voz de comando. De Getúlio parece só não terem gostado os paulistas, os integralistas e os comunistas: os paulistas, derrotados na Revolução de 1932, perderam o monopólio de poder que exerciam sobre o Estado desde a implantação da república; os integralistas de Plínio Salgado e os comunistas de Prestes por se lhes ter escapado a oportunidade de ouro para ali ensaiarem as respectivas utopias. Vargas foi o centro, o justo termo, congraçador de vontades, o protector dos pobres e o promotor de elites respeitadas e respeitadoras.

27 Abril 2014

Não fugir da morte


Lembro-me que aqui louvei há tempos a dignidade com que Vasco Graça Moura se quis despedir do país que serviu. Fê-lo em acto público, como os romanos antigos, de sapatos calçados, de pé, sem queixumes, lágrimas ou a mais leve sombra de auto-comiseração. Na altura, muitos amigos afirmaram que não, que VGM estava para ficar, que era injusto convocar a proximidade do passamento. Sei que a generalidade dos cristãos, que deviam saber conviver com a certeza da morte - pois até a exaltam como passagem para a vida eterna - continuam aterrorizados perante o chamamento inevitável, demonstrando afinal que perante esse derradeiro mistério são pouco menos que pagãos. Para quem já conviveu com a morte e com a dor, esse momento final não se cerca dos terrores que angustiam os entusiastas da vida. Prepararmo-nos para a morte devia ser, pois, um dos pilares da educação de qualquer adulto. Sem isso, continuaremos sempre infantis. Por mim, não tenho qualquer medo. Medo é perder a dignidade. 

Neste dia em que VGM partiu, deixo-lhe como tributo de gratidão o mais belo poema de heroísmo. Vasco Graça Moura morreu como homem. Poucos o sabem fazer, sobretudo os falsos moralistas, os falsos combatentes, os falsos homens de "convicções".

Se

Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.

Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas

Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos

Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos teus mestres

Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos teus objectivos

Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo

Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo

Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.

Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
"Aguenta-te!"

Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente

Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender

Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado

Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam

Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling

24 Abril 2014

Nada volta atrás


No espaço público e na nossa vida social, a relação psicológica que mantemos com os regimes políticos não se afastará muito daquela que no espaço privado e na nossa vida íntima estabelecemos com quem gostamos. A lealdade, a confiança, o amor e a disponibilidade em servir, uma vez postos em causa pela mentira e pela deslealdade, jamais poderão ser recuperados. Pode-se maquilhar o desencanto com todas as excelências da oratória, com as juras e protestos até ao túmulo, até com fingida inocência, mas rompeu-se a torrente de sentimento. Não há teatro que consiga pagar a morte daquilo que é espontâneo.