23 Setembro 2014

Trabalho de prontuário, de fonética e de enciclopédia precisa-se


Há duas semanas, o nosso Primeiro-Ministro, no discurso de encerramento da universidade de verão do PSD, afirmou que o tempo da "autárcia" (sic) havia terminado. Vá lá, não ter dito autarquia parece denotar algum domínio conceptual, mas acusa falta de convívio com as regras da fonética, não conseguindo operar o raciocínio analógico de democracia (e não democrácia), de gerontocracia (e não gerontocrácia), anarquia (e não anárquia). Não foi, pois, um erro palmar, mas podia ser evitado. 

Nuno Rogeiro, no interessante programa semanal que anima com Martim Cabral, referia-se aos "dignatários" (em vez de dignitários), parecendo não fazer a associação entre dignitário e dignidade. Tratou-se de um erro de simpatia que exige correcção tout court. 

Hoje, Adriano Alves Moreira, na crónica que assina no DN, alude à singularidade dos micro-Estados, nomeadamente o "Arquiducado" do Luxemburgo. Neste particular, trata-se de um erro de informação secundário, dado o Luxemburgo ser um Grão-Ducado ( Großherzogtum) e não um Arquiducado (Erzherzogtum); erro menor, sem dúvida bem menor que o cometido, por exemplo, por um excelente académico português, o Professor Veríssimo Serrão, que num dos últimos volumes da sua História de Portugal aludia às relações entre Portugal e a "República do Canadá". 

É evidente que todos erramos e que as pessoas referidas se situam naquele grupo restrito e culto com obrigações e responsabilidades acrescidas na formação de públicos. Não cabe apenas à escola e aos consultórios da língua reparar faltas e erros no manuseio da língua. Cabe a cada um armar-se das maiores cautelas e evitar semear o erro. O erro assume características virais: uma vez propagado, espalha-se incontrolavelmente.

11 Setembro 2014

A União Europeia, epifenómeno da independência escocesa


A Europa das Nações, que teve em De Gaulle um intransigente paladino, deixou de ter defensores. Lembro que, até à década de 80, a exaltação da Europa se fazia citando Coudenhove-Kalergi e Otto von Habsburgo. Tratava-se, bem entendido, de um ideal de fraternidade fundado no bom-senso e na necessidade da cooperação entre Estados fabricados pela história, mas ninguém questionava a diversidade, as tensões, os interesses por vezes divergentes dos Estados. Subitamente, ainda Maastricht não fora assinado, entrou de rompante a expressão "Europa dos cidadãos", logo acoplada à "Europa das regiões". Quando a actual União Europeia desvelou finalmente o seu rosto, todos compreendemos que o principal objectivo desta União era (e é) o de destruir os Estados. Para atingir tal objectivo, importava reescrever a história e até teorizar sobre a "acidentalidade" dos Estados ainda hoje existentes. Nasceu, assim, a teoria da inevitabilidade do ocaso do Estado-nação. Porém, antes que fosse lavrada certidão de nascimento do "povo europeu", importava partir os Estados nas suas especificidades endógenas, quebrando-lhes a unidade mercê do apontar das especificidades, dos regionalismos, dos micro-interesses. Aquilo a que se assiste na Escócia e na Catalunha, mas igualmente na Bélgica, na Córsega e em Itália é - aceitemos de barato - uma prodigiosa obra de engenharia que visa partir os Estados existentes, desagregá-los para, sobre os cacos, inventar a unidade e decretar a cidadania europeia. Só não vê quem não quer. Lamento que no PSD, no CDS e no PS ninguém se atreva questionar os respectivos líderes sobre o problema e que o debate sobre o lugar e o papel de Portugal na Europa não tenha lugar nas "universidades de verão" que tais partidos têm vindo o organizar neste fim de estação. No fundo, entre a mentira de uns e a cobardia de todos, o resultado é o mesmo: são todos cúmplices na destruição da nação portuguesa. Se amanhã o Algarve, a Madeira ou os Açores exigirem a tal "especificidade", já sabem. Depois não se queixem.

28 Agosto 2014

O Paraíso não é uma orgia: as virgens do paraíso islâmico

Correm pela net centos de vídeos alusivos ao tema. Trata-se, na maioria dos casos, de traduções intencionalmente falsificadas, algumas de claro conteúdo libidinoso destinadas a fazer crer que os Houri (companheiros e companheiras) prometidos por Alá aos mártires e aos que entraram no Paraíso se destinam a satisfazer a volúpia sexual. Ora, as suras corânicas referem-se a esses seres de forma respeitosa e cortês, pondo de relevo as suas qualidades de pureza, virgindade, inteligência e erudição; nunca aludindo a qualquer forma de sexualidade.

Naturalmente, a segunda natureza do texto - a alegórica - socorre-se do elogio às prendas físicas (beleza, olhos redondos, perfeição física) para dar relevo às qualidades espirituais desses seres. O paraíso de Alá não é, pois, um serralho, um lupanar ou uma orgia. O paraíso islâmico é um jardim verde, sossegado e harmonioso.Outro tema relacionado é o do estatuto das mulheres. Se as mulheres do tempo (terrenas) são temidas pelo seu "espírito vazio" e pelo erotismo, as huris (seres paradisíacos) são honradas (i.e. virgens), racionais, instrumentos de Deus e não beneficiando dos prazeres corporais. 

Há que ter tino e alguma elevação, evitando o despenhadeiro no reles. Infelizmente, a generalidade das pessoas compraz-se com o rasca. O tema é tão indecente para os muçulmanos como os centos de estórias a respeito da "vida sexual" de Jesus de Nazaré e dos "filhos" que teve de Maria Madalena. 

Ver: Hamz, Livro do Amor, III, 7.

31 Julho 2014

Os nacionalistas das causas alheias

As últimas semanas tornaram notória a existência entre nós de um ardoroso nacionalismo de novo tipo: o nacionalismo das causas alheias. Exaltar Portugal, defender o seu ser e destinação, a sua liberdade, auto-determinação e independência é crime. Contudo, pelo que me apercebo - à esquerda, à direita e ao centro - é lícito, conveniente e angariador de bom nome terçar armas por outros. Pelo que também me é dado ver, há entre nós mais nacionalistas israelitas que patriotas portugueses, mais fedayin palestinos que lutadores por Portugal, mais estrénuos batalhadores pela União Europeia que orgulhosos portugueses. Eu compreendo que em tempos de crise muitos andem em busca de poiso, tudo fazendo para merecer umas migalhas caídas da mesa dos banqueteadores das causas milionárias. É tudo uma questão de bandeiras e de estipêndio. Curioso que no meio de tanta algazarra não me tenha apercebido de "luso-nacionalistas Curdos", de "luso-nacionalistas Rohingya", de "luso-nacionalistas malianos" ou de "luso-nacionalistas Caxemires". Pois, não pinga nada dessas pobres causas. Defender Portugal acarreta problemas. É politicamente sensível. Onde estão os luso-nacionalistas das causas alheias insurgindo-se contra o tratamento de Estado-vassalo concedido pela UE a Portugal ? Onde estão os luso-nacionalistas das causas alheias rebelando-se contra os comissários europeus que aqui são recebidos com grinaldas, com o pão e o sal concedido aos governadores de uma província imperial ? Assim vai o povo português, frivolizado, confuso, tele-dirigido e indigno rumo à escravatura. Caladinhos, amedrontados, respeitadores do chicote, salivadores pela cenoura; assim fiquem, ardorosos portugueses, pois nada se espera de vós. Pois é, lá está o Miguel a dizer "coisas daquelas que tornam impossível metê-lo em qualquer grupo".


19 Julho 2014

Ainda somos independentes ?

Ouvi esta noite uma senhora, eurodeputada pelo PS, exaltada pela sua putativa elevação a Comissária dessa coisa que dá pelo nome de União Europeia. Dela, não ouvi uma só vez a palavra Portugal. Quando se referia a Portugal, fazia-o com quase dor, como se de algo secundário se tratasse numa ordem superior a que chama de Europa. Foi um interminável solilóquio de "patriotismo europeu". Esta gente está, positiva e animicamente, empenhada em destruir o que resta do Estado soberano. Querem-nos impor uma nova ideia de Estado. Podemos dizer que há Estado, quando este goza de soberania. Assim, o Estado soberano goza de soberania porque está sobre tudo e tem como atributos a plenitude, a permanência e a independência. Contudo, o Estado não é resultado nem de um contrato escrito, nem de um estado de alma. O Estado possui um fundo ôntico, sai do carácter de um povo que quis ser nação, tem uma dimensão espiritual, cultural, afectiva antes de ser um mero ordenamento jurídico. Ora, essa coisa a que chamam de União Europeia - que não é união nem é europeia - trata de substituir a soberania do nosso povo feito Estado num enunciado de leis, regulamentos, instituições. Esse "Estado" que nos querem impor - com a aprovação de todos os nossos eurodeputados, do Bloco ao CDS - é o anti-Estado, é uma imposição, viola a nossa história, viola o nosso carácter. É, tenhamos coragem de o dizer, uma tirania. Onde estão os portugueses de lei e de sentimento para contrariar este movimento que nos leva ao suicídio ?

08 Julho 2014

Expliquem-me os génios anti-função pública

Não há dia em que não ouça catilinárias contra o funcionalismo do Estado. Há quem atribua a insustentabilidade financeira do Estado aos funcionários. Trata-se, obviamente, de enviezamento e de má-fé alimentada por parti-pris ideológico. O Estado português dá emprego a c. de 12% da população activa - na média dos números da OCDE - e congelou há muito a entrada de novos funcionários. Ora, dos 70 mil milhões resultantes da receita fiscal, 38 mil milhões o Estado nem os vê, posto destinarem-se ao pagamento de reformas e pensões da segurança social. Assim, dos 70 mil milhões iniciais, remanescem 32 mil milhões que transitam para Orçamento de Estado e para pagamento dos juros da dívida. Destes 32 mil milhões, 60% destinam-se a gastos dos ministérios e serviços e 40% a gastos com vencimentos dos servidores do Estado. Assim, o funcionalismo público será "responsável" pelo consumo de 1/5 a 1/6 do total da riqueza resultante da colecta de impostos. Pouco, muito pouco. Chega, meus caros, de massacrar os funcionários do Estado e de transformar em inimigos da governação quem aplica as políticas da coligação.
Começo a ficar farto de ouvir ataques vindos de pessoas que nunca trabalharam na vida.

04 Julho 2014

CDS sem Portas

1. Corre insistentemente nos jornais o rumor da iminente saída de Portas da direcção do CDS-PP e sua eventual substituição por Pedro Mota Soares, Assunção Cristas ou Nuno Melo. Três figuras simpáticas não fazem um partido. A acontecer, vaticinamos, respectivamente, 3%, 4% e 5% para o partido. Pior, se a oposição interna ideologicamente mais estruturada cometesse a imprevidência de correr à liderança, talvez saísse um partido mais coerente e arrumado nas ideias, mas nunca maior que o célebre "partido do táxi" saído das eleições de 1987. No pior, como no melhor, Portas é o PP e nos tempos que correm jogos e apostas em roleta russa - com o revólver com cinco munições - a probabilidade de morte é de 80%.No jogo político, o factor determinante é a existência ou inexistência de carisma. Não me parece, sinceramente, que exista fogo, gabarito e capacidade de arrastamento pelo verbo capaz de ocupar o lugar de Portas.

2. No que ao "vazio doutrinal" respeita, concordo com algumas objecções feitas ao método de navegação à vista seguido pela direcção. Contudo, se seria importante que PP voltasse às suas performances criativas do passado, mais interessante seria de esperar que a oposição à actual direcção do partido apresentasse alternativas e orientações claras. O que tenho visto em algumas agendas é pouco, é pobre e, sobretudo redutor e até perigoso, nomeadamente a agenda "pela vida". Dir-se-ia que, para alguns, o PP se deveria especializar em programas "anti-fracturantes", ou seja, num anti-Bloco de Esquerda. Não me parece, salvo por ausência de formação cultural e de mundo, que um partido se transforme em liga de "bons costumes" e seminário. Para isso existe a Conferência Episcopal Portuguesa.

02 Julho 2014

A França brincando à justiça

Nicolas Sarkozy foi detido ontem de manhã em resultado de mais um escândalo de ilegalidades cometidos durante a passagem da criatura pelo Eliseu. Que se saiba, de Gaulle era um homem probo no que concernia a tentações venais. O seu sucessor iniciou a espiral da promiscuidade entre a alta finança internacional e o interesse do Estado - ou não fora Pompidou o mais alto dirigente do grupo Rotschild ? - e, logo, Giscard aumentou a parada (os diamantes de Bokassa), para sob Chirac a presidência se converter em seguro de inimputabilidade, imunidade e intocabilidade para o presidente e seus esbirros. No interim, Mitterrand ordenou ou permitiu que se cometessem crimes de sangue. O seu sinistro consulado aguarda momento favorável para que se franqueiem os documentos dos serviços secretos, mas os indícios são tão terríveis quanto indignos. Sarkozy, esse, terá sido, talvez, a mais insignificante, voraz, impreparada e venal figura de arrivista que se sentou no sólio presidencial. Com ele, a dignidade da função desceu às vísceras. Borsalino no Eliseu, eis a imagem que melhor se cola a Sarkozy. Para quando a radical mudança de regime que permita à França recobrar o seu papel no concerto das nações ocidentais ?

A batalha semântica de um regime sem-vergonha

Os tribunais acusam-no de corrupção, os advogados contrariam, alegando tratar-se de "tráfico de influências". Mais, na batalha que agora se inicia, queixam-se os juristas da excessiva dureza no tratamento conferido a Sarkozy - que incluiu mandado de detenção seguido de interrogatório - medida que contrasta com outros casos análogos (vide Chirac). É evidente que Sarkozy merece tratamento igual ao de qualquer outro cidadão. Contudo, parece-nos claro que há uma diferença entre a personagem e um vulgar cidadão, tanto mais que Sarkozy parece ter cometido todos estes agravos legais no exercício das funções. Para a UMP, tratou-se de um vexame. Pergunto: se esta gente se considera inimputável, acima da lei, habituada a um regime de excepção - assim o garante a lei de bronze da oligarquia - como se sentirão os cidadãos normais, sem influências, sem meios e sem conhecimentos ? A república francesa, sabíamo-lo há muito, pode ser, com toda a propriedade, considerada uma oligarquia. Os regimes oligárquicos caracterizam-se pela desigualdade de oportunidades, pela repetida prática da discriminação positiva que beneficia os apparatchik, pela confusão entre entre os interesses da casta dominante e o interesse do Estado, pelo fisiologismo irrefreável, pela tomada do aparelho do Estado para fins que contrariam o interesse colectivo. 
Vai o caso Sarkozy terminar na barra dos tribunais ? Não, não vai nem pode, pois o regime - todo o regime, da UMP-PS aos turiferários da esquerda - não pode correr o risco de ser exposto nas suas imposturas.

31 Maio 2014

Desamor

Atribui-se um valor excessivo à coerência, sem que muitas vezes nos demos conta que a mudança acontece em tudo e que nós mesmos não somos quem éramos há meses, anos ou décadas atrás. Dizia-me ontem um antigo amigo - antigo porque a amizade, exposta à erosão, se reduziu a mero conhecimento - que as suas opiniões políticas haviam mudado radicalmente, e que disso só tomara consciência quando o seu velho mundo de afectos desabara. De marxista, considera-se hoje conservador.

Torna-se difícil racionalizar o desamor. A tomada de consciência do desamor pode ser brutal; porém, seria tolo pensar que deixamos de gostar brutalmente. Há, sim, um esvaziamento insidioso e silencioso, que mal se revela, mas explode subitamente. Há quem fuja psicologicamente do terrível momento em que se exige lavrar o atestado de morte da auto-representação que cada qual foi construindo. Estes rituais de morte e passagem para uma nova vida não deviam ser fonte de incómodo e mal estar, mas de alívio e apaziguamento. Não é, pois, necessário recorrermos ao Yi Jing para explicar a mudança do mundo político europeu. Aconteceu, mas estava a acontecer há muito, sem que a generalidade disso se tivesse apercebido. No passado domingo, acordaram subitamente. Ora, deviam ter sido mais sensíveis e ter prestado mais atenção à intuição que à razão.

28 Maio 2014

Onde param os fascistas ?


Wolfgang Schäuble, o Torquemada das finanças europeias, definiu ontem a Frente Nacional de Marine Le Pen como "um partido fascista". Corrijamos. Se há um grande angariador de votos "fascistas" na Europa, esse será certamente Schäuble, cujo entendimento da acção governativa se reduz ao mais estrito barbarismo financeiro. 
Para lá da completa ausência de formação humanística - seria pedir muito a um homem de contas - Schäuble reuniria todas as condições para receber o apodo de fascista, conhecidas que são as suas posições belicistas (apoio à invasão do Iraque e da Líbia), as assunções liberticidas (defesa da manutenção de Guantanamo, defesa da detenção de suspeitos de terrorismo sem mandado, defesa entusiástica de políticas de reconhecimento biométrico) e, até, o apoio a práticas expeditas de repressão, tal como a eliminação de suspeitos de "terrorismo". 
Para mais, o pequeno ditador parece ter-se especializado no ataque a tudo e a quantos reclamem a defesa do interesse nacional dos Estados no processo de construção europeia. Não foi Schäuble quem ameaçou o Reino Unido de severas represálias, caso os britânicos persistissem em contrariar o sonho alemão da Europa ? Não são consabidos o profundo desprezo que vota aos "povos do sul" e a ideia de que a Europa é o Norte e o Centro, sendo que o Sul ali está apenas para lhe diminuir a riqueza, embotar a irradiação, mendigar-lhe favores imerecidos ? Quem é o fascista ?

21 Maio 2014

Austrália: achamento português


A descoberta da Austrália foi o tema da conferência hoje produzida por Luís Filipe Tomás na Biblioteca Nacional de Portugal. A polémica sobre o achamento do continente Austral pelos portugueses no século XVI mantém-se viva. Um cone de penumbra continua a persistir em torno do tema, cone que não é de luz pois não há qualquer prova documental, mas que também não é de sombra. Alguns, precipitadamente, atribuíram o feito a Cristóvão de Mendonça. Tomás provou que Mendonça não o pudera realizar, pois na data avançada por alguns historiógrafos encontrava-se a caminho de Cochin, vindo de Malaca. Ganha consistência a tese, segundo a qual o achamento se terá ficado a dever, não a um representante da Coroa, mas a um ou mais dos muitos comerciantes de sândalo que demandavam Timor todos anos para aprovisionamento dessa madeira preciosa. O achamento terá sido múltiplo, não se tendo os portugueses interessado por essa "terra incógnita" - já presente na cartografia de então como situada a Sul de Java Maior (Sumatra) e Java Menor (Java) - pois, potência mercantil em regime de capitalismo régio, a Portugal só interessava abrir mercados receptivos a trocas comerciais. Na Austrália, como lembrou Tomás, os povos que a habitavam - rudes, nus e primitivos - não ofereciam quaisquer condições para a realização de negócios e cabedais. 
Num exercício de erudição sobre cartografia antiga, Tomás demonstrou que a chegada dos portugueses à Austrália era incontornável, apresentando cartas produzidas pela escola cartográfica de Dieppe, que desde a década de 1530 passou a referir-se insistentemente ao continente Austral, que então se pensava alargar por todo o Índico Sul, até ao extremo sul de África.

20 Maio 2014

Confusões "tradicionalistas"


Dou-me conta que alguns caríssimos amigos "tradicionalistas" persistem em usar conceitos inventados pelos seus inimigos no século XIX e que disso fazem grande exibição, nomeadamente as contraposições entre antropocentrismo v. teocentrismo, sacralização v. secularização e imanentismo v. transcendentalismo. Ora, qualquer leitura, mesmo que superficial dos autores de referência do século XVIII, permite-nos verificar que não tem mais sustentabilidade a velha teoria que trata de associar a Ilustração (as Luzes) ao fenómeno da descrença. A realidade é bem outra: às Luzes da descrença e até do ateísmo, opuseram-se um Iluminismo católico, um Iluminismo protestante e até um Iluminismo judaico. Não, o Catolicismo não se opôs ao conhecimento do homem, da sociedade e do mundo. Chega de confusões.

10 Maio 2014

A cultura agrilhoa


A cultura liberta, mas a cultura também agrilhoa. Há quem persista em exaltar a crença iluminista da libertação pela cultura. Nada de mais enganador. As pessoas mais intolerantes, mais fanáticas e perigosas que conheci ao longo da vida eram, quase todas, "pessoas cultas".


Goebbels, sem dúvida uma inteligência de excepção, muda abruptamente de semblante ao saber que o fotógrafo da Life (Alfred Eisenstaedt) era judeu. Lembro-me de um episódio infelicíssimo em que fui premiado com uma destas atitudes. Certo dia, convidado pelo Miguel Esteves Cardoso, participei num jantar de apoio à candidatura do MEC ao Parlamento Europeu. Sentaram-me numa mesa e tinha à minha frente o João Aguiar (que Deus o tenha). Após os protocolares apertos de mão, vi-o olhar fixamente para o cartão com o meu nome, que os promotores haviam colocado no lugar que me haviam destinado. Subitamente, o JA levantou-se, atirou o guardanapo para cima da mesa e pôs-se a vociferar, apontando para a mesa e repetindo "eu não me sento com gente desta". Era o tempo da Nova Monarquia e das terríveis perseguições contra nós movidas. Como um qualquer sacerdote brâmane, terá pensado que este pária lhe sujaria o bom nome.

08 Maio 2014

Generais de orçamento

Mais de uma dezena de oficiais generais abandonou esta quarta-feira as instalações do Instituto de Estudos Superiores Militares (IESM) como sinal de protesto pela presença do ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, no lançamento do último livro do general Loureiro dos Santos, "Reflexões sobre Estratégia VII - Tempos de crise". (...) "Os generais, todos eles na reserva ou na reforma, estavam presentes para a referida cerimónia, ao fim da tarde, mas deixaram a sala quando se aperceberam da chegada do ministro e de que ele poderia intervir, o que não chegou a acontecer". in Expresso, 6-5-2014

É evidente que os senhores generais na reforma - todos capitães por ocasião do 25 da Silva - não se preocupam com a modernização, com a operacionalidade e prontidão das FA's. Em Portugal, salvo raríssimas excepções, todas as revoltas castrenses são ditadas por questões bem menos nobres que a salvação da pátria. Eis, em síntese, o estado a que chegámos: a brigada do reumático dando por inegociáveis os cortes nas reformas e não querendo participar nos sacrifícios impostos aos restantes portugueses. Boa ética patriótica, sem dúvida.

05 Maio 2014

Propagandas


O herói de Kiev. Há dois meses, o trepador de Kiev, então preparando-se para apear a bandeira russa do topo de um edifício, foi aplaudido pelas costumeiras sirenes da intoxicação como a face da nova geração de freedom fighters da democracia. Ora, eis hoje o valente escalador envergando o seu melhor uniforme de trabalho.